

Crnicas 01

Rubem Alves


NDICE


- Rubem Alves ................................................................................ 01
- Curriculum Mortis ....................................................................... 03
- Carta aos Pais .............................................................................. 04
- A Casa - A Escola ......................................................................... 06
- No Esqueca as Perguntas Fundamentais..................................... 08
- Absurdos Pedaggicos .................................................................. 10
- Aprendo Porque Amo .................................................................... 13
- As Mos Perguntam, a Cabea Pensa ............................................ 15
- Tnis x Frescobol.......................................................................... 17
- A Escola da Ponte 1....................................................................... 19
- A Escola da Ponte 2 ...................................................................... 21
- A Escola da Ponte 3 ...................................................................... 23
- A Escola da Ponte 4 ...................................................................... 25
- A Escola da Ponte 5 ...................................................................... 27
- A Escola da Ponte 6 ...................................................................... 29
- A Escola da Ponte - Resumindo .................................................... 31
- A Inutilidade da Infncia ............................................................... 33
- O Ip e a Escola ............................................................................. 35
- O Relgio ....................................................................................... 38
- Estrias  Beira do Fogo .............................................................. 40
- O Dente de Camila ........................................................................ 42
- A Quarto do Mistrio ..................................................................... 45
- O Jardineiro .................................................................................. 47
- Jardins .......................................................................................... 50
- Jardins 2 ....................................................................................... 53
- A Mina D'gua .............................................................................. 55
- " ... E o Vento Fresco da Tarde..." ................................................... 57
- A gua ........................................................................................... 60
- A Arte de Engolir Sapos .................................................................. 63
- A Cozinha ....................................................................................... 65
- A Horta ........................................................................................... 67
- A Mquina do Tempo ...................................................................... 72
- A Pipoca ......................................................................................... 75
- A Terra ........................................................................................... 77
- As Dores ......................................................................................... 81
- Ser que a Leitura dos Jornais nos Torna Estpidos? ..................... 84
- "... Astutos como as Serpentes..." .................................................... 86
- Brincar e Difcil ............................................................................... 89
- Casas que Emburrecem ................................................................... 91
- Chapeuzinho Vermelho .................................................................... 94
- Curiosidade  uma Coceira nas Idias ............................................... 96
- Se Sua Cozinheira Quiser Cantar Enquanto Cozinha, no Deixe...  ... 98
- Deixem a Cozinheira Cantar ........................................................... 100
-  Brincando que se Aprende ........................................................... 102
- O Barbazul .....................................................................................  104


Rubem Alves
Nasci no dia 15 de setembro de 1933. Sobre o meu nascimento veja a crnica Que bom que eles se casaram. Faa as contas para saber quantos anos no tenho. Que "no
tenho", sim; porque o nmero que voc vai encontrar se refere aos anos que no tenho mais, para sempre perdidos no passado. Os que ainda tenho, no sei, ningum
sabe.
Nasci no sul de Minas, em Boa Esperana que, naquele tempo, se chamava Dores da Boa Esperana. Depois tiraram o "Dores". Pena, porque dores de boa esperana so
dores de parto: h dores que anunciam o futuro. Boa Esperana  conhecida mais pela serra que o Lamartine Babo, ferido por um amor impossvel, transformou em cano:
"Serra da Boa Esperana", que voc ouviu logo que entrou na minha casa.
Meu pai era rico, quebrou, ficou pobre. Tivemos de nos mudar. Dos tempos de pobreza s tenho memrias de felicidade. Albert Camus dizia que, para ele, a pobreza
(no a miserabilidade) era o ideal de vida. Pobre, foi feliz. Conheceu a infelicidade quando entrou para o Liceu e comeou a fazer comparaes. A comparao  o
incio da inveja que faz tudo apodrecer. Aconteceu o mesmo comigo. Conheci o sofrimento quando melhoramos de vida e nos mudamos para o Rio de Janeiro. Meu pai, com
boas intenes, me matriculou num dos colgios mais famosos do Rio. Foi ento que me descobri caipira. Meus colegas cariocas no perdoaram meu sotaque mineiro e
me fizeram motivo de chacota. Grande solido, sem amigos. Encontrei acolhimento na religio. Religio  um bom refgio para os marginalizados. Admirei Albert Schweitzer,
telogo protestante, organista, mdico, prmio Nobel da Paz. Quis seguir o seu caminho.
Tentei ser pianista. Fracassei. Sobrava-me disciplina e vontade. Faltava-me talento. H um salmo que diz: "Intil te ser levantar de madrugada e trabalhar o dia
todo porque Deus, queles a quem ama, ele d enquanto esto dormindo." Deus no me deu talento. Deu todo para o Nelson Freire, que tambm nasceu em Boa Esperana.
Estudei teologia. Fui pastor no interior de Minas. Convivi com gente simples e pobre. L um pastor  uma espcie de "despachante" para resolver todos os problemas.
Mas j naquele tempo minhas idias eram diferentes. Eu achava que religio no era para garantir o cu, depois da morte, mas para tornar esse mundo melhor, enquanto
estamos vivos. Claro que minhas idias foram recebidas com desconfiana... Em 1959 me casei e vieram os filhos Srgio (XII.59) e Marcos (VII.62). Em 1975 nasceu
minha filha Raquel. Inventando estrias para ela descobri que eu podia escrever estrias para crianas (A lista dos livros infantis que escrevi esto na Biblioteca).
Fui estudar em New York (1963), voltei um ms depois do golpe militar. Fui denunciado pelas autoridades da Igreja Presbiteriana,  qual pertencia, como subversivo.
Experimentei o medo e fiquei conhecendo melhor o esprito dos ministros de Deus... Minha famlia e eu tivemos de sair do Brasil. Fui estudar em Princeton, USA, onde
escrevi minha tese de doutoramento, Towards a Theology of Liberation, publicada em 1969 pela editora catlica Corpus Books com o ttulo A Theology of Human Hope.
Era um dos primeiros brotos daquilo que posteriormente recebeu o nome de Teologia da Libertao. Se voc quiser saber um pouco sobre o que aconteceu comigo nesses
anos, leia o ensaio Sobre deuses e caquis (O quarto do mistrio, p 137). O tempo passou, mudou meu jeito de pensar, voltei ao Brasil em 1968, demiti-me da Igreja
Presbiteriana. Com um Ph.D. debaixo do brao e sem emprego. Foi o economista Paulo Singer, que fiquei conhecendo numa venda de mveis usados em Princeton, que me
abriu a porta do ensino superior, indicando-me para uma vaga para professor de filosofia na FAFI de Rio Claro, SP. Em 1974 transferi-me para a UNICAMP, onde fiquei
at me aposentar.
Golpes duros na vida me fizeram descobrir a literatura e a poesia. Cincia d saberes  cabea e poderes para o corpo. Literatura e poesia do po para corpo e alegria
para a alma. Cincia  fogo e panela: coisas indispensveis na cozinha. Mas poesia  o frango com quiabo, deleite para quem gosta... Quando jovem, Albert Camus disse
que sonhava com um dia em que escreveria simplesmente o que lhe desse na cabea. Estou tentando me aperfeioar nessa arte, embora ainda me sinta amarrado por antigas
mortalhas acadmicas. Sinto-me como Nietzsche, que dizia haver abandonado todas as iluses de verdade. Ele nada mais era que um palhao e um poeta. O primeiro nos
salva pelo riso. O segundo pela beleza.
Com a literatura e a poesia comecei a realizar meu sonho fracassado de ser msico: comecei a fazer msica com palavras. Leituras de prazer especial: Nietzsche, T.
S. Eliot, Kierkegaard, Camus, Lutero, Agostinho, Angelus Silsius, Guimares Rosa, Saramago, Tao Te Ching, o livro de Eclesiastes, Bachelard, Octvio Paz, Borges,
Barthes, Michael Ende, Fernando Pessoa, Adlia Prado, Manoel de Barros. Pintura: Bosch, Brueghel, Grnnenwald, Monet, Dali, Larsson. Msica: canto gregoriano, Bach,
Beethoven, Brahms, Chopin, Csar Franck, Keith Jarret, Milton, Chico, Tom Jobim.
Sou psicanalista, embora heterodoxo. Minha heterodoxia est no fato de que acredito que no mais profundo do inconsciente mora a beleza. Com o que concordam Scrates,
Nietzsche e Fernando Pessoa. Exero a arte com prazer. Minhas conversas com meus pacientes so a maior fonte de inspirao que tenho para minhas crnicas.
J tive medo de morrer. No tenho mais. Tenho tristeza. A vida  muito boa. Mas a Morte  minha companheira. Sempre conversamos e aprendo com ela. Quem no se torna
sbio ouvindo o que a Morte tem a dizer est condenado a ser tolo a vida inteira.

CURRICULUM MORTIS
I. Formao acadmica
1.Bacharel em Teologia, Seminrio Presbiteriano de Campinas, 1957.
2.Mestre em Teologia, Union Theological Seminary, NY, USA, 1964.
3. Doutor em Filosofia ( Ph.D.), Princeton Theological Seminary, Princeton, NJ, USA, 1968.
4.Psicanalista pela Associao Brasileira de Psicanlise de So Paulo.
II. Carreira acadmica
1. Professor Regente da Cadeira de "Filosofia Social", na Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras, Rio Claro, SP (1969)
2. Contratado como Professor Titular de Filosofia do IFCH, UNICAMP ( 1974)
3. Concurso de Professor Livre Docente, IFCH, UNICAMP, 1979.
4. Concurso de Professor Adjunto, Faculdade de Educao, UNICAMP, 1980.
III. Honrarias
1.Membro da Academia Campinense de Letras
2.Conferencista da " Nobel Foundation", 1979: " The Quest for Peace".
3.Tema do programa " Gente que Faz", Bamerindus, Rede Globo, 10.09.94.
4.Professor Emrito: UNICAMP
5.Cidado Honorrio da cidade de Campinas
6.Medalha "Carlos Gomes" de contribuio  cultura.
"Somente onde h sepulturas h tambm ressurreies"

(Nietzsche)
Minha alma  um bolso onde guardo minhas memrias vivas. Memrias vivas so aquelas que continuam presentes no corpo. Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se,
dana... "O que a memria amou fica eterno", disse a Adlia Prado. Mas h um outro tipo de memria que no foi eternizado pelo amor. Essas memrias no moram na
alma. Moram nos arquivos da razo. So informaes verdadeiras e inertes. Inertes so as memrias que a razo sabe mas o corpo no ama.  o caso daquilo que comumente
se chama de "curriculum vitae". Um curriculum vitae  uma lista de informaes inertes. Importantes do ponto de vista institucional, frequentemente exigidas, como
comprovao de competncia. Mas sua lembrana no me comove. Assim, acho que no merecem ser chamadas de "curriculum vitae". A vida no  uma lista de informaes.
Prefiro chamar esta lista de "curriculum mortis" - nada mrbido, apenas cmico. Meu currculum vitae verdadeiro voc encontrar nas minhas conversas, crnicas, pensamentos,
cartas, concertos de poesia. Mas para atender  curiosidade de alguns e s exigncias de outros, vai um mini-curriculo. O completo  muito comprido.

CARTA AOS PAIS
Tambm sou pai e portanto compreendo. Vocs querem o melhor para o filho, para a filha. A melhor escola, os melhores professores, os melhores colegas. Vocs querem
que filhos e filhas fiquem bem preparados para a vida. A vida  dura e s sobrevivem os mais aptos.  preciso ter uma boa educao.
Compreendo, portanto, que vocs tenham torcido o nariz ao saber que a escola ia adotar uma poltica estranha: colocar crianas deficientes nas mesmas classes das 
crianas normais. Os seus narizes torcidos disseram o seguinte: No gostamos. No deveria ser assim! O problema comea com o fato de as crianas deficientes serem 
fisicamente diferentes das outras, chegando mesmo, por vezes, a ter uma aparncia esquisita. E isso cria, de sada, um mal-estar... digamos... esttico. V-las no 
 uma experincia agradvel.  preciso se acostumar... Para complicar h o fato de as crianas deficientes serem mais lerdas: elas aprendem devagar. As professoras 
vo ser foradas a diminuir o ritmo do programa para que elas no fiquem para trs. E isso, evidentemente, trar prejuzos para nossos filhos e filhas, normais, 
bonitos, inteligentes.  preciso ser realista; a escola  uma maratona para se passar no vestibular.  para isso que elas existem. Quem fica para trs no entra... 
O certo mesmo seria ter escolas especializadas, separadas, onde os deficientes aprenderiam o que podem aprender, sem atrapalhar os outros.
Se  assim que vocs pensam eu lhes digo: Tratem de mudar sua maneira de pensar rapidamente porque, caso contrrio, vocs iro colher frutos muito amargos no futuro. 
Porque, quer vocs queiram quer no, o tempo se encarregar de faz-los deficientes.
 possvel que na sua casa, num lugar de destaque, em meio s peas de decorao, esteja um exemplar das Escrituras Sagradas. Via de regra a Bblia est l por superstio. 
As pessoas acreditam que Deus vai proteger. Se assim fosse, melhor que seguro de vida seria levar uma Bblia sempre no bolso. No sei se vocs a lem. Deveriam. 
E sugiro um poema sombrio, triste e verdadeiro do livro de Eclesiastes. O autor, j velho, aconselha os moos a pensar na velhice. Lembra-te do Criador na tua mocidade, 
antes que cheguem os dias das dores e se aproximem os anos dos quais dirs: "No tenho mais alegrias..." Antes que se escurea a luz do sol, da lua e das estrelas 
e voltem as nuvens depois da chuva... Antes que os guardas da casa comecem a tremer e os homens fortes a ficar curvados... Antes que as ms sejam poucas e pararem 
de moer... Antes que a escurido envolva os que olham pelas janelas... Antes que as pessoas se levantem com o canto dos pssaros... Antes que cessem todas as canes... 
Ento se ter medo das alturas e se ter medo de andar nos caminhos planos... Quando a amendoeira florescer com suas flores brancas, quando um simples gafanhoto 
ficar pesado e as alcaparras no tiverem mais gosto... Antes que se rompa o fio de prata e se despedace a taa de ouro e se quebre o cntaro junto  fonte e se parta 
a roldana do poo e o p volte  terra... Brumas, brumas, tudo so brumas... (Eclesiastes 12: 1-8)
Os semitas eram poetas. Escreviam por meio de metforas. Metfora  uma palavra que sugere uma outra. Tudo o que est escrito nesse poema se refere a voc, a mim, 
a todos. Antes que se escurea a luz do sol... Sim, chegar o momento em que os seus olhos no vero como viam na mocidade. Os seus braos ficaro fracos e tremero 
no seu corpo curvo. As ms - seus dentes - no mais moero por serem poucos. E a cama pela manh, to gostosa no tempo da mocidade, ficar incmoda. Voc se levantar 
to cedo quanto os pssaros e ter medo de andar por no ver direito o caminho.  preciso ser prudente porque os velhos caem com facilidade por causa de suas pernas 
bambas e podem quebrar a cabea do fmur. Pode at ser que voc venha a precisar de uma bengala. Por acaso os moinhos pararo de moer? No, os moinhos no param 
de moer. Mas voc parar de ouvir. Voc est surdo. Seu mundo ficar cada vez mais silencioso. E conversar ficar penoso. Voc ver que todos esto rindo. Algum 
disse uma coisa engraada. Mas voc no ouviu. Voc rir, no por ter achado graa, mas para que os outros no percebam que voc est surdo. Voc imaginou uma velhice 
gostosa. E at comprou um stio com piscina e rvores. Ah! Que coisa boa, os netos todos reunidos no "Stio do Vov", nos fins de semana! Esquea. Os interesses 
dos netos so outros. Eles no gostam de conviver com deficientes. 
Eles no aprenderam a conviver com deficientes. Poderiam ter aprendido na escola mas no aprenderam porque houve pais que protestaram contra a presena dos deficientes.
A primeira tarefa da educao  ensinar as crianas a serem elas mesmas. Isso  extremamente difcil. Fernando Pessoa diz: Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo 
que os desejos dos outros fizeram de mim. Frequentemente as escolas esmagam os desejos das crianas com os desejos dos outros que lhes so impostos. O programa da 
escola, aquela srie de saberes que as professoras tentam ensinar, representa os desejos de um outro, que no a criana. Talvez um burocrata que pouco entende dos 
desejos das crianas.  preciso que as escolas ensinem as crianas a tomar conscincia dos seus sonhos!
A segunda tarefa da educao  ensinar a conviver. A vida  convivncia com uma fantstica variedade de seres, seres humanos, velhos, adultos, crianas, das mais 
variadas raas, das mais variadas culturas, das mais variadas lnguas, animais, plantas, estrelas... Conviver  viver bem em meio a essa diversidade. E parte dessa 
diversidade so as pessoas portadores de alguma deficincia ou diferena. Elas fazem parte do nosso mundo. Elas tm o direito de estar aqui. Elas tm direito  felicidade. 
Sugiro que vocs leiam um livrinho que escrevi para crianas, faz muito tempo: Como nasceu a alegria.  sobre uma flor num jardim de flores maravilhosas que, ao 
desabrochar, teve uma de suas ptalas cortada por um espinho. Se o seu filho ou sua filha no aprender a conviver com a diferena, com os portadores de deficincia, 
e a ser seus companheiros e amigos, garanto-lhes: eles sero pessoas empobrecidas e vazias de sentimentos nobres. Assim, de que vale passar no vestibular?
Li, numa cartilha de curso primrio, a seguinte estria: Viviam juntos o pai, a me, um filho de 5 anos, e o av, velhinho, vista curta, mos trmulas. s refeies, 
por causa de suas mos fracas e trmulas, ele comeou a deixar cair peas de porcelana em que a comida era servida. A me ficou muito aborrecida com isso, porque 
ela gostava muito do seu jogo de porcelana. Assim, discretamente, disse ao marido: Seu pai no est mais em condies de usar pratos de porcelana. Veja quantos ele 
j quebrou! Isso precisa parar... O marido, triste com a condio do seu pai mas, ao mesmo tempo, sem desejar contrariar a mulher, resolveu tomar uma providncia 
que resolveria a situao. Foi a uma feira de artesanato e comprou uma gamela de madeira e talheres de bambu para substituir a porcelana. Na primeira refeio em 
que o av comeu na gamela de madeira com garfo e colher da bambu o netinho estranhou. O pai explicou e o menino se calou. A partir desse dia ele comeou a manifestar 
um interesse por artesanato que no tinha antes. Passava o dia tentando fazer um buraco no meio de uma pea de madeira com um martelo e um formo. O pai, entusiasmado 
com a revelao da vocao artstica do filho, lhe perguntou: O que  que voc est fazendo, filhinho? O menino, sem tirar os olhos da madeira, respondeu: Estou 
fazendo uma gamela para quando voc ficar velho... 
Pois  isso que pode acontecer: se os seus filhos no aprenderem a conviver numa boa com crianas e adolescentes portadores de deficincias eles no sabero conviver 
com vocs quando vocs ficarem deficientes. Para poupar trabalho ao seu filho ou filha sugiro que visitem uma feira de artesanato. L encontraro maravilhosas peas 
de madeira...
A CASA - A ESCOLA
Uma professora me escreveu pedindo-me que eu lhe desse algumas dicas sobre como despertar o interesse dos seus alunos sobre a sua matria. Sua pergunta brotava do 
seu sofrimento. Preparava suas aulas como havia aprendido nas aulas de didtica - mas a sua aula no era capaz de seduzir a imaginao dos seus alunos. Numa situao 
como essas o mais fcil e o mais comum  culpar os alunos: eles so indisciplinados, no querem aprender, so psicologicamente incapazes de concentrar a ateno. 
Essa professora no culpava os alunos. Culpava a si mesma. Devia haver algo de errado em suas aulas para que os alunos no prestassem ateno. 
Uma aula  como comida. O professor  o cozinheiro. O aluno  quem vai comer. Se a criana se recusa a comer pode haver duas explicaes. Primeira: a criana est 
doente. A doena lhe tira a fome. Quando se obriga a criana a comer quando ela est sem fome, h sempre o perigo de que ela vomite o que comeu e acabe por odiar 
o ato de comer.  assim que muitas crianas acabam por odiar as escolas. O vmito est para o ato de comer como o esquecimento est para o ato de aprender. Esquecimento 
 uma recusa inteligente da inteligncia. Segunda: a comida no  a comida que a criana deseja comer: nabo ralado, jil cozido, salada de espinafre... O corpo  
um sbio. Etimologicamente a palavra sbio quer dizer "eu degusto". O corpo no  um porco que come tudo o que jogam para ele, como se tudo fosse igual. Ele opera 
com um delicado senso de discriminao. Algumas coisas ele deseja. Prova. Se so gostosas, ele come com prazer e quer repetir. Outras no lhe agradam, e ele recusa. 
A eu pergunto: "O que se deve fazer para que as crianas tenham vontade de tomar sorvete?" Pergunta boba. 
Nunca vi criana que no estivesse com vontade de tomar sorvete. Mas eu no conheo nenhuma mgica que seja capaz de fazer com que uma criana seja motivada a comer 
salada de jil com nabo. Nabo e jil no provocam a sua fome.
As crianas tm, naturalmente, um interesse enorme pelo mundo. Os olhinhos delas ficam deslumbrados com tudo o que vem. Devoram tudo. Lembro-me da minha neta de 
um ano, agachada no gramado encharcado, encantada com uma minhoca que se mexia. Que coisa fascinante  uma minhoca aos olhos de uma criana que a vem pela primeira 
vez! Tudo  motivo de espanto. Nunca estiveram no mundo. Tudo  novidade, supresa, provocao  curiosidade. 
Visitando uma reserva florestal no Esprito Santo a biloga encarregada de educao ambiental me contou que era um prazer trabalhar com as crianas. No era necessrio 
nenhum artifcio de motivao. As crianas queriam comer tudo o que viam. Tudo provocava a fome dos seus olhos: insetos, pssaros, ninhos, cogumelos, cascas de rvores, 
folhas, bichos, pedras. Alberto Caeiro disse que foram as crianas que o ensinaram a ver. Disse que a criana que o ensinou a ver era Jesus Cristo tornado outra 
vez menino: "A mim ensinou-me tudo. / Ensinou-me a olhar para as coisas. / Aponta-me todas as coisas que h nas flores. / Mostra-me como as pedras so engraadas 
/ Quando a gente as tem na mo / E olha devagar para elas./ 
Quando eu era jovem e no sabia que os olhos das crianas eram diferentes dos olhos dos adultos eu ficava bravo com meus filhos quando a gente viajava. Eu olhava 
para fora do carro e ficava deslumbrado com cenrios que via: montanhas, lagos, florestas. Queria que eles gozassem aquela beleza. Mostrava para eles, e era como 
se ela no existisse. Eles nem ligavam. E eu ficava com raiva. "Como podem ser insensveis a tanta beleza?" 
Eu no sabia que os olhos das crianas no tem fome de coisas que esto longe. Os olhos das crianas tm fome de coisas que esto perto. As crianas querem pegar 
aquilo que vem. Cenrios no podem ser pegos com a mo. Quando so bem pequenas elas olham, pegam, e levam  boca: querem comer, sentir o gosto da coisa. O bichinho 
de que gostam  aquele que elas podem acariciar, colocar no colo: o coelhinho, o cachorrinho, o gatinho. Nunca vi crianas com interesse especial por peixes em aqurios. 
Peixinhos no podem ser agradados, no podem ser colocados no colo. E nem por pssaros. A menos que os pssaros possam ser agradados. Conheo uma menina que tinha 
como seu bichinho de estimao uma galinha. Mas a galinha dela era diferente: vinha quando era chamada e gostava de ser agradada.
Todos os objetos que podem ser pegos com a mo so brinquedos para as crianas. E por isso elas gostam deles. Esto naturalmente motivadas por eles. Querem com-los. 
Querem conhec-los. Com sete anos de idade tive a minha primeira experincia fracassada com a engenharia mecnica. Secretamente desmontei o relgio de pulso de minha 
me. Infelizmente no consegui juntar as engrenagens de novo. Com sete anos eu sabia que os objetos so interessantes e que a gente os conhece no de longe, mas 
mexendo neles, desmontando e montando. 
Para mim esse  um princpio fundamental da aprendizagem: a fome de aprender acontece na fronteira entre o corpo e o ambiente. As crianas no se interessam por 
montanhas, lagos e florestas porque esto longe dos seus braos. Mas tm prazer em subir em rvores, apanhar frutas, descobrir ninhos, brincar nos remansos, pescar. 
As crianas se interessam por objetos com os quais os seus corpos podem estar em contacto, que podem ser manipulados. Elas no tm um interesse natural por operaes 
matemticas abstratas. Mas se esto vendendo pipas na feira, elas se interessam logo por somar e diminuir para contabilizar preos e trocos. E que dizer da forma 
como elas aprendem a falar, coisa mais assombrosa no existe! Elas no aprendem a falar abstratamente. Aprendem os nomes dos objetos e das pessoas ao seus redor, 
os verbos que indicam as atividades que fazem. Quando a criana diz "mame" ela est chamando para si um objeto querido. A princpio, toda palavra  uma invocao.
A elas vo para as escolas. A a aprendizagem sai da vida e passa para os programas. Programas so sries de conhecimentos organizados abstratamente numa ordem 
lgica. Mas a ordem dos programas, por terem sido preparados abstratamente, no segue a ordem da vida. Aparece ento o descompasso. O que elas tm de aprender no 
 aquilo que o corpo delas quer aprender, pela simples razo de que a vida no segue programas. A surge a pergunta: como motiv-las a comer nabo e jil? Vocs podem 
imaginar como  que se ensinaria uma criana a falar, seguindo-se um programa? Ela no aprenderia nunca. 
No gosto de laboratrios nas escolas. Sua funo no  ensinar cincia. Sua funo  seduzir os pais. Os pais querem sempre o melhor para os seus filhos e o que 
 moderno deve ser melhor. Uma escola que tem laboratrios com aparelhinhos deve ser uma boa escola. Mas os laboratrios, antes que os estudantes entrem nele, j 
ensinaram uma coisa fatal para a inteligncia cientfica: que cincia  algo que acontece dentro daquele espao. A cincia no comea com aparelhos. Ela comea com 
olhos, curiosidade e inteligncia. 
Sonho com uma escola que tenha a casa de morada da criana como seu laboratrio. A casa  o seu espao imediato. Ela est cheia de objetos e aes interessantes. 
Pensar a casa  pensar o mundo onde a vida de todo dia est acontecendo. Numa casa no poderia haver um currculo pronto porque a vida  imprevisvel: no segue 
uma ordem lgica. Os saberes prontos ficariam guardados num lugar, como as ferramentas ficam guardadas numa caixa. As ferramentas so tiradas da caixa quando elas 
so necessrias para resolver problemas. Assim so os saberes: ferramentas. Ningum aprende ferramenta para aprender ferramenta. 
O sentido da ferramenta  o seu uso na prtica. O sentido de um saber  o seu uso na prtica. Se no pode ser usado no tem sentido. Deve ser jogado fora.
E por falar nisso, a palavra "dgrafo" que todas as crianas tm de aprender, serve para que? Assim so os nossos programas, cheios de "dgrafos" sem sentido... 
Por isso as crianas no aprendem.

NO ESQUEA AS PERGUNTAS FUNDAMENTAIS
Vou contar para vocs uma estria. No importa se verdadeira ou imaginada. Por vezes, para ver a verdade,  preciso sair do mundo da realidade e entrar no mundo 
da fantasia...
Um grupo de psiclogos se disps a fazer uma experincia com macacos. Colocaram cinco macacos dentro de uma jaula. No meio da jaula, uma mesa. Acima da mesa, pendendo 
do teto, um cacho de bananas.
Os macacos gostam de bananas. Viram a mesa. Perceberam que, subindo na mesa, alcanariam as bananas. Um dos macacos subiu na mesa para apanhar uma banana. Mas os 
psiclogos estavam preparados para tal eventualidade: com uma mangueira deram um banho de gua fria nele. O macaco que estava sobre a mesa, ensopado, desistiu provisoriamente 
do seu projeto.
Passados alguns minutos, voltou o desejo de comer bananas. Outro macaco resolveu comer bananas. Mas, ao subir na mesa, outro banho de gua fria. Depois de o banho 
se repetir por quatro vezes, os macacos concluram que havia uma relao causal entre subir na mesa e o banho de gua fria. Como o medo da gua fria era maior que 
o desejo de comer bananas, resolveram que o macaco que tentasse subir na mesa levaria uma surra. Quando um macaco subia na mesa, antes do banho de gua fria, os 
outros lhe aplicavam a surra merecida.
A os psiclogos retiraram da jaula um macaco e colocaram no seu lugar um outro macaco que nada sabia dos banhos de gua fria. Ele se comportou como qualquer macaco. 
Foi subir na mesa para comer as bananas. Mas, antes que o fizesse, os outros quatro lhe aplicaram a surra prescrita. Sem nada entender e passada a dor da surra, 
voltou a querer comer a banana e subiu na mesa. Nova surra. Depois da quarta surra, ele concluiu: nessa jaula, macaco que sobe na mesa apanha. Adotou, ento, a sabedoria 
cristalizada pelos polticos humanos que diz: se voc no pode derrot-los, junte-se a eles.
Os psiclogos retiraram ento um outro macaco e o substituram por outro. A mesma coisa aconteceu. Os trs macacos originais mais o ltimo macaco, que nada sabia 
da origem e funo da surra, lhe aplicaram a sova de praxe. Este ltimo macaco tambm aprendeu que, naquela jaula, quem subia na mesa apanhava.
E assim continuaram os psiclogos a substituir os macacos originais por macacos novos, at que na jaula s ficaram macacos que nada sabiam sobre o banho de gua 
fria. Mas, a despeito disso, eles continuavam a surrar os macacos que subiam na mesa.
Se perguntssemos aos macacos a razo das surras, eles responderiam:  assim porque  assim. Nessa jaula, macaco que sobe na mesa apanha... Haviam se esquecido completamente 
das bananas e nada sabiam sobre os banhos. S pensavam na mesa proibida.
Vamos brincar de "fazer de conta". Imaginemos que as escolas sejam as jaulas e que ns estejamos dentro delas... Por favor, no se ofenda,  s faz-de-conta, fantasia, 
para ajudar o pensamento. Nosso desejo original  comer bananas. Mas j nos esquecemos delas. H, nas escolas, uma infinidade de coisas e procedimentos cristalizados 
pela rotina, pela burocracia, pelas repeties, pelos melhoramentos.  semelhana dos macacos, aprendemos que  assim que so as escolas. E nem fazemos perguntas 
sobre o sentido daquelas coisas e procedimentos para a educao das crianas. Vou dar alguns exemplos.
Primeiro, a arquitetura das escolas. Todas as escolas tm corredores e salas de aula. As salas servem para separar as crianas em grupos, segregando-as umas das 
outras. Por que  assim? Tem de ser assim? Haver uma outra forma de organizar o espao, que permita interao e cooperao entre crianas de idades diferentes, 
tal como acontece na vida? A escola no deveria imitar a vida?
Programas. Um programa  uma organizao de saberes numa determinada sequncia. Quem determinou que esses so os saberes e que eles devem ser aprendidos na ordem 
prescrita? Que uso fazem as crianas desses saberes na sua vida de cada dia? As crianas escolheriam esses saberes? Os programas servem igualmente para crianas 
que vivem nas praias de Alagoas, nas favelas das cidades, nas montanhas de Minas, nas florestas da Amaznia, nas cidadezinhas do interior?
Os programas so dados em unidades de tempo chamadas "aulas". As aulas tm horrios definidos. Ao final, toca-se uma campainha. A criana tem de parar de pensar 
o que estava pensando e passar a pensar o que o programa diz que deve ser pensado naquele tempo. O pensamento obedece s ordens das campainhas? Por que  necessrio 
que todas as crianas pensem as mesmas coisas, na mesma hora, no mesmo ritmo? As crianas so todas iguais? O objetivo da escola  fazer com que as crianas sejam 
todas iguais?
A questo  fazer as perguntas fundamentais: por que  assim? Para que serve isso? Poderia ser de outra forma? Temo que, como os macacos, concentrados no cuidado 
com a mesa, acabemos por nos esquecer das bananas...

ABSURDOS PEDAGGICOS

Eu, o Ademar Ferreira dos Santos e o Jos Pacheco (esses dois so amigos da Escola da Ponte, em Portugal, sobre a qual escrevi o livro A Escola com que Sempre Sonhei 
sem Imaginar que Pudesse Existir, Papirus) estamos juntando material para um livro que dever chamar-se Enciclopdia de Absurdos Pedaggicos. Todo mundo tem experincias 
com absurdos pedaggicos. Vou dar um exemplo. Estudei num dos colgios mais famosos do Rio de Janeiro, o Colgio Andrews. E vez por outra o meu comportamento se 
desviava do comportamento prescrito. Por exemplo, conversava com um colega na fila que se fazia para entrar, militarmente, na sala de aula. E ficava de castigo. 
O castigo era assim: depois de terminadas as aulas, depois que todos os colegas iam para as suas casas, os infratores iam para uma sala para receber os "complementos 
educacionais". Esse era o nome que um dos professores dava aos ditos castigos. E o castigo era o seguinte: o algoz, um professor, colocava numa folha de papel um 
nmero qualquer de trs algarismos e o multiplicava por 100. Por exemplo: 327 que, multiplicado por 100, virava 32700. O castigo era ir subtraindo, sucessivamente, 
327. 32700 - 327 = 32373; 32373 - 327 = 32046, e assim por diante. Se todas a operaes estivessem certas, depois de 100 operaes de subtrao o resultado seria 
zero. Mas  muito difcil fazer 100 subtraes sem cometer um erro! Assim o resultado nunca era zero e era preciso descobrir onde se encontrava o erro para refazer 
todas as contas a partir dele. At dar zero. Nesse momento j era noite fechada. Pergunto: Qual o objetivo pedaggico de tal castigo? Sadismo puro. Fazer sofrer. 
Humilhar. Eu no aprendi matemtica, eu no fiquei amando a escola, eu no fiquei melhor. O nico resultado positivo  que eu nunca me esquecerei daquele castigo 
estpido. Faziam-se e ainda se fazem coisas como esta com crianas. Porque so indefesas. Por vezes o castigo  escrever a mesma frase 100 vezes. Ser que isso as 
torna melhores? Mais inteligentes? Mais amantes do aprender? 
Lgica de doido: Era uma vez uma homem que queria construir cinco colunas na sua casa. Contratou um pedreiro e lhe disse: "Quero que voc construa essas cinco colunas 
em um dia." O pedreiro concordou. Trabalhou firme, mas s conseguiu terminar 4 colunas. A quinta ficou pela metade. O dono da casa veio no dia seguinte e lhe disse: 
"Voc no construiu as cinco colunas. S construiu quatro e meia." Ato contnuo tomou de uma marreta e jogou por terra todo o trabalho do pedreiro. O pedreiro, perplexo, 
lhe disse: "Mas as quatro colunas e meia estavam timas." O dono lhe disse: "Eu s aceito como terminado o trabalho feito no tempo que eu determinei. Eu lhe disse 
que as cinco colunas deveriam ser construdas num nico dia. Amanh voc construir as cinco colunas de novo." Diro: Esse homem  doido. No existe." De fato,  
doido e no existe. Qualquer pessoa sabe que aquilo que foi construdo foi construdo e pronto. No faz sentido derrubar tudo. Mas  assim que pensam aqueles que 
desejam que as crianas reprovadas numa nica disciplina sejam reprovadas em todas e tenham de repetir o ano todo, passando pela monotonia dos saberes j sabidos 
e repetidos. A lgica desse procedimento  igual  lgica do homem doido... 
Exercite as sua imaginao pedaggica: Fui fazer uma palestra no congresso "Saber 2002", em So Paulo. L se reuniram educadores dos mais variados tipos, todos eles 
 procura de caminhos novos para a educao. Enquanto esperava, na sala VIP, comecei a conversar com uma senhora, diretora de uma escola, que me fascinou. Sem dvidas, 
era uma diretora diferente, com idias pouco comuns. Ela me contou acerca de duas situaes diferentes que ofereo a voc como desafio  sua imaginao pedaggica. 
Primeira situao: dois meninos se envolveram num projeto de eletricidade. To fascinados ficaram com a eletricidade que resolveram fazer experincias por conta 
prpria. O resultado das ditas experincias foi que eles queimaram um computador da escola. O problema: o que fazer com os dois alunos? Deixar passar o acontecido 
em brancas nuvens? Fazer de contas que nada aconteceu? A diretora chamou os meninos e perguntou-lhes sobre o que fazer. Um deles respondeu: "O meu pai paga o computador...". 
Sada fcil para eles e conveniente para a escola. Mas ruim, do ponto de vista educacional. A diretora retrucou: "Por que  que o seu pai vai ter de pagar a conta? 
Ele no fez nada." Se voc fosse a diretora o que  que voc faria com os meninos? Segunda situao: o menino fez uma aposta com os colegas de que conseguiria entrar 
na escola com um cigarro de maconha. Entrou, ganhou a aposta mas foi descoberto. A diretora,  claro, no podia ignorar o acontecido. Chamou o menino para uma conversa. 
Ele se deu conta da besteira que tinha feito e se arrependeu. O que fazer com ele? Simplesmente perdoar? Se ele fosse perdoado isso daria permisso para que outros 
fizessem a mesma coisa. Algo tinha de ser feito. Perguntado sobre o que deveria ser feito ele sugeriu uma suspenso de trs dias. Se voc fosse a diretora, o que 
 que voc faria? 
Para garantir a qualidade do ensino: Havia na universidade, e acho que no foi abolida, uma lei que dizia que um aluno, para passar de ano, tinha de ter pelo menos 
75% de presena nas aulas. No importava que o aluno tivesse estudado por conta prpria e que soubesse tudo. Se no tivesse 75% de presena, estava reprovado. Qual 
a razo para tal lei? Respondem os burocratas: "Para garantir a qualidade da aprendizagem. Para a aprendizagem acontecer  necessrio que os alunos assistam as aulas." 
 bvio que tal justificativa  falsa. A presena do aluno nas aulas no  garantia de aprendizagem. Especialmente se o professor for ruim. Mas h uma explicao 
mais lgica: essa lei foi estabelecida para proteger os professores ruins. Com a lei eles sabem que, mesmo sendo ruins as suas aulas, tero um pblico cativo. Essa 
lei os salva da vergonha. Se no houvesse a dita lei suas aulas ficariam s moscas... 
Vende-se leitura: Visitei o estado de Tocantins e fiquei encantado com algumas coisas que esto acontecendo, na rea da educao. Quem me contou foi a jornalista 
Joslia de Lima. Aqui vai um exemplo: o anncio dizia VENDE-SE LEITURA. Voc deseja comprar leitura? Ento, fique atento, o "Carrinho da Leitura" pode estar passando 
na porta de sua casa a qualquer momento. Ateno, para comprar leitura voc no precisa de dinheiro, apesar da compra ter que ser feita  vista. "VENDE-SE LEITURA" 
 um projeto desenvolvido pelos professores da Escola Estadual Apoenan de Abreu Teixeira, de Arraias, a 446 km de Palmas. Os educadores enchem um carrinho, que pode 
ser de supermercado ou de mo, de livros, desenhos ou gravuras, e saem em busca de crianas, jovens e adultos que queiram fazer uma viagem pelo universo mgico da 
leitura. O pagamento  feito mediante a criao de um texto, desenho, pintura ou charge. A pessoa l e em seguida expressa num papel em branco a sua impresso sobre 
o que leu, pesquisou ou viu. A criao representa a moeda que o leitor paga pelos minutos ou horas de leitura. Essas criaes so arquivadas na escola para pesquisa, 
sobre as diferentes formas de textos e de comunicao. Quem no tiver com vontade de escrever ou desenhar, vale recontar a histria. O "Carrinho da Leitura" comeou 
percorrendo todas as salas de aulas, mas o sucesso foi tanto que foi levado para praas pblicas e estacionado embaixo de rvores. Agora, o "Carrinho da leitura" 
est ganhando idias novas para acelerar sua velocidade e levar o conhecimento dos livros para outros bairros e localidades. 
O que a diretora fez: Primeira situao: os meninos que queimaram o computador receberam a tarefa de preparar um "Manual sobre os possveis acidentes decorrentes 
de se brincar com a eletricidade sem os conhecimentos devidos." Disse-me a diretora que o manual que eles preparam foi excelente, digno de um engenheiro da CPFL, 
e os meninos se tornaram especialistas em lidar com eletricidade de maneira segura. Segunda situao: o menino recebeu a misso de realizar trabalhos numa escola 
de periferia durante seis meses. E a experincia foi, para ele, to gratificante, que ele quis continuar, mesmo depois de cumprida a "pena"... 
A criana e a imagem: O Ncleo Educacional Po da Vida do Centro Corsini cuida de crianas e adolescentes que, direta ou indiretamente, tenham sido tocados pelo 
vrus HIV. Pois o Egas Francisco, o pintor genial que todo mundo conhece, ensina essas crianas a pintar! Agora vai acontecer a 1 exposio de suas obras. "A criana 
e a imagem": obras dos pequenos pintores do Ncleo Educacional Po da Vida. No Centro de Cincias, Letras e Artes,  rua Bernardino de Campos 989 (esquina com a 
Francisco Glicrio). Abertura no prximo dia 09, 4a. feira, s 19 horas. 

Lula - Lincoln: Confesso! Eu, Rubem Alves sou o culpado dessa confuso. Explico. Doze anos atrs. Era o 2o. turno: Lula x Collor. Collor desqualificava Lula por 
suas origens humildes e falta de educao formal. E eu no queria Collor nem pintado. Escrevi ento um artigo em que eu dizia que os mesmos argumentos que se usavam 
contra Lula poderiam ter sido usados contra Lincoln: origens humildes, sotaque caipira, sem educao formal. Jamais me passou pela cabea comparar Lula a Lincoln. 
Essa comparao  totalmente descabida e absurda. No meu artigo eu me referia apenas ao tipo de argumento usado por Collor. Isso, faz doze anos. Valeu somente para 
aquele segundo turno. Pois um petista sem escrpulos, sem tica, sem minha autorizao, colocou o dito artigo na Internet, com o meu nome, sem revelar a data, como 
se eu o tivesse escrito para essa eleio. O que prova que, para se vencer uma eleio, mesmo os mais ticos jogam a tica no lixo. Prova disso so as alianas de 
Lula com Qurcia, Itamar e Sarney. Lincoln jamais faria alianas desse tipo... Ele tinha princpios ticos. Para maior clareza: vou votar no Serra, a meu ver o mais 
competente. 
Escrevi um livro picante, humorstico, potico e escatolgico sobre poltica: CONVERSAS SOBRE POLTICA, pela Verus Editora, 3241.0832. Espero que voc goste... 2002

APRENDO PORQUE AMO

Recordo a Adlia Prado: "No quero faca nem queijo; quero  fome". Se estou com fome e gosto de queijo, eu como queijo... Mas e se eu no gostar de queijo? Procuro 
outra coisa de que goste: banana, po com manteiga, chocolate... Mas as coisas mudam de figura se minha namorada for mineira, gostar de queijo e for da opinio que 
gostar de queijo  uma questo de carter. A, por amor  minha namorada, eu trato de aprender a gostar de queijo.
Lembro-me do filme "Assdio", de Bernardo Bertolucci. A histria se passa numa cidade do norte da Itlia ou da Sua. Um pianista vivia sozinho numa casa imensa 
que havia recebido como herana. Ele no conseguia cuidar da casa sozinho nem tinha dinheiro para pagar uma faxineira. A ele props uma troca: ofereceu moradia 
para quem se dispusesse a fazer os servios de limpeza.

Apresentou-se uma jovem negra, recm-vinda da frica, estudante de medicina. Linda! A jovem fazia medicina ocidental com a cabea, mas o seu corao estava na msica 
da sua terra, os atabaques, o ritmo, a dana. Enquanto varria e limpava, sofria ouvindo o pianista tocando uma msica horrvel: Bach, Brahms, Debussy... Aconteceu 
que o pianista se apaixonou por ela. Mas ela no quis saber de namoro. Achou que se tratava de assdio sexual e despachou o pianista falando sobre o horror da msica 
que ele tocava.

O pobre pianista, humilhado, recolheu-se  sua desiluso, mas uma grande transformao aconteceu: ele comeou a frequentar os lugares onde se tocava msica africana. 
At que aquela msica diferente entrou no seu corpo e deslizou para os seus dedos. De repente, a jovem de vassoura na mo comeou a ouvir uma msica diferente, msica 
que mexia com o seu corpo e suas memrias... E foi assim que se iniciou uma estria de amor atravessado: ele, por causa do seu amor pela jovem, aprendendo a amar 
uma msica de que nunca gostara, e a jovem, por causa do seu amor pela msica africana, aprendendo a amar o pianista que no amara. Sabedoria da psicanlise: frequentemente, 
a gente aprende a gostar de queijo por meio do amor pela namorada que gosta de queijo...

Isso me remete a uma inesquecvel experincia infantil. Eu estava no primeiro ano do grupo. A professora era a dona Clotilde. Ela fazia o seguinte: sentava-se numa 
cadeira bem no meio da sala, num lugar onde todos a viam -acho que fazia de propsito, por maldade-, desabotoava a blusa at o estmago, enfiava a mo dentro dela 
e puxava para fora um seio lindo, liso, branco, aquele mamilo atrevido... E ns, meninos, de boca aberta... Mas isso durava no mais que cinco segundos, porque ela 
logo pegava o nenezinho e o punha para mamar. E l ficvamos ns, sentindo coisas estranhas que no entendamos: o corpo sabe coisas que a cabea no sabe.

Terminada a aula, os meninos faziam fila junto  dona Clotilde, pedindo para carregar sua pasta. Quem recebia a pasta era um felizardo, invejado. Como diz o velho 
ditado, "quem no tem seio carrega pasta"... Mas tem mais: o pai da dona Clotilde era dono de um botequim onde se vendia um doce chamado "mata-fome", de que nunca 
gostei. Mas eu comprava um mata-fome e ia para casa comendo o mata-fome bem devagarzinho... Poeticamente, trata-se de uma metonmia: o "mata-fome" era o seio da 
dona Clotilde...

Ridendo dicere severum: rindo, dizer as coisas srias... Pois rindo estou dizendo que frequentemente se aprende uma coisa de que no se gosta por se gostar da pessoa 
que a ensina. E isso porque -lio da psicanlise e da poesia- o amor faz a magia de ligar coisas separadas, at mesmo contraditrias. Pois a gente no guarda e 
agrada uma coisa que pertenceu  pessoa amada? Mas a "coisa" no  a pessoa amada! " sim!", dizem poesia, psicanlise e magia: a "coisa" ficou contagiada com a 
aura da pessoa amada.

Minha av guardava uns bichinhos que haviam pertencido a um filho que morrera. Guardo um peso de papel, de vidro, que pertenceu ao meu pai. E os apaixonados guardam 
uma pea de roupa da pessoa amada e a colocam sobre o travesseiro, ao dormir... Mesmo depois de ela ter morrido.  como se, por meio daquela "coisa" que no  a 
pessoa amada, fosse possvel tocar e acariciar a pessoa amada, ausente.

Pois o mesmo mecanismo acontece na educao. Quando se admira um mestre, o corao d ordens  inteligncia para aprender as coisas que o mestre sabe. Saber o que 
ele sabe passa a ser uma forma de estar com ele. Aprendo porque amo, aprendo porque admiro. Sabendo o que ele sabe eu carrego a sua pasta, como o "mata-fome", fao 
amor com ele.

Lamento dizer isso: tive poucos mestres que admirasse. Lembro-me de um que admiro at hoje, embora j se tenham passado mais de 50 anos: Lenidas Sobrinho Porto. 
Professor de literatura, nunca nos atormentou com informaes sobre nomes e escolas literrias. Ele sabia que no aprenderamos. Mas quando ele se punha a falar, 
era como se estivesse possudo. Falava com tal paixo sobre as grandes obras literrias que era impossvel no ser contagiado. Eu o admirava porque nele brilhava 
a beleza da literatura, "queijo" de que eu no gostava. Ele me fez amar a literatura.

A dona Clotilde nos d a lio de pedagogia: quem deseja o seio, mas no pode prov-lo, realiza o seu amor poeticamente, por metonmia: carrega a pasta e come "mata-fome"...

Rubem Alves, 65,  educador, psicanalista e escritor. Est escrevendo uma histria pedaggica: Pinquio s avessas, que conta a histria de um menininho que nasceu 
de carne e osso e, ao receber o diploma da universidade, virou um boneco de pau.
Site - www.rubemalves.com.br

AS MOS PERGUNTAM, A CABEA PENSA
Encaro com a maior desconfiana os laboratrios nas escolas. Acho que sua funo, nas escolas, no  ensinar cincia aos estudantes, mas impressionar os pais. Os 
pais se impressionam facilmente. Vendo os laboratrios, eles concluem: "Uma escola com um laboratrio moderno assim deve ser uma boa escola...".
Poucos se do conta de que os laboratrios mentem aos adolescentes. Pois o que eles dizem, silenciosamente,  o seguinte: " aqui dentro que se faz cincia". Isso 
 mentira. Cincia no  uma coisa que se faz em laboratrios. Cincia se faz em qualquer lugar. Ela s precisa de duas coisas: olho e cabea. Assim, a primeira 
tarefa da educao cientfica  ensinar a ver e ensinar a pensar.
Sei de pessoas que so capazes de produzir pesquisas nos laboratrios, mas que, andando em meio aos objetos e situaes do seu cotidiano, vem e pensam como se nada 
soubessem da cincia. De fato, no sabem, porque a sua cincia s acontece em laboratrios.
Vocs se lembram do que escrevi sobre os moluscos, que, para sobreviver, constroem conchas eficazes e belas? E se lembram tambm que Piaget, comeando a partir do 
seu fascnio pelos moluscos, concluiu que os seres humanos se comportam da mesma forma? Parece haver uma estratgia universal de sobrevivncia, que une todos os 
seres vivos. Tambm ns, para sobreviver, construmos conchas eficazes e belas, conchas que so feitas com instrumentos e pensamentos. Pensamos para transformar 
o ambiente que nos cerca em conchas.
Nossas conchas se chamam casas. Casas no so apenas os pequenos espaos, construdos com tijolo e cimento, onde moramos. Casas so os espaos habitveis que nos 
cercam e onde a nossa vida acontece. Piaget sugere que o impulso para conhecer  o impulso para incorporar o espao que nos rodeia. "In-corporao" quer dizer: colocar 
dentro do corpo. Ou seja, comer.
Queremos transformar a natureza em corpo. Quando isso acontece, o corpo fica grande, expande-se at os confins do universo... A natureza deixa de ser estranha, exterior. 
Passa a ser "casa", espao habitvel. Ou, se quiserem, a natureza humanizada, ou transformada em horta, boa para comer, ou em jardim, boa de gozar... Pois o gozo 
pertence  vida humana e acho que tambm  vida dos animais...
Pensei, ento, numa escola que fosse uma casa, uma casa comum, dessas onde os alunos moram, parecida com o espao de sua vida real. Essa idia me veio quando uma 
amiga, professora universitria, me contou um incidente divertido e revelador:
Repentinamente, metade de sua casa ficou s escuras. Lembrou-se de que, quando algo semelhante acontecia na casa de sua infncia, seu pai trocava os fusveis. Concluiu: 
algum fusvel deve ter se queimado. Disse, ento, ao filho de nove anos: "Filho, veja se um fusvel queimou". Respondeu o menino: "No se usam mais fusveis. Agora 
se usam disjuntores".
Mas ela no sabia o que eram disjuntores nem como estava estruturada a rede eltrica de sua casa, e assim continuou a conversa entre os dois, ela, professora universitria, 
que, para passar no vestibular, tivera de estudar fsica eltrica com suas voltagens, "wattagens", impedncias, ohms, tenses, frmulas e outras coisas parecidas, 
totalmente ignorante diante de um simples problema prtico em sua casa; e o menino, que nunca estudara fsica, mas que conhecia os segredos da casa onde morava.
Embora isso esteja esquecido, o caminho para a inteligncia passa pelas mos. Pensamos para ajudar as mos. Das mos nascem as perguntas. Da cabea nascem as respostas. 
Se a mo no pergunta, a cabea no pensa. Pois laboratrio vem de "laborare", trabalhar com as mos, que  essa cooperao entre mos e inteligncia. Fsica mecnica, 
fsica eltrica, fsica hidrulica, fsica tica, fsica dos materiais, matemtica, qumica, biologia, sade, geografia, histria, literatura, poesia, ecologia, 
poltica, sociologia, arte _todas moram na nossa casa, ferramentas e brinquedos, ao alcance das nossas mos, desafios ao pensamento: conhecer para "laborare" na 
construo da casa de morada...
Li uma entrevista do Amyr Klink em que, indagado sobre a educao dos filhos, disse que gostaria que seus filhos aprendessem como aprendem as crianas numa ilha, 
se no me engano, na costa da Noruega: aprendem as coisas que devem ser aprendidas, para no ser nunca esquecidas, construindo uma casa viking. Assim, estamos de 
acordo...



TNIS x FRESCOBOL

Depois de muito meditar sobre o assunto conclu que os casamentos so de dois tipos: h os casamentos do tipo tnis e h os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos 
do tipo tnis so uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol so uma fonte de alegria e tm a chance de ter vida 
longa. 

Explico-me. Para comear, uma afirmao de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: 'Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria 
se fazer a seguinte pergunta: 'Voc cr que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa at a sua velhice?\' Tudo o mais no casamento  transitrio, mas 
as relaes que desafiam o tempo so aquelas construdas sobre a arte de conversar.' 

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama so sempre decapitados pela manh, terminam em separao, pois os prazeres do sexo se 
esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O imprio dos sentidos. Por isso, quando o sexo j estava morto na cama, e o amor no mais se podia dizer atravs 
dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: comeava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sulto se calava e escutava 
as suas palavras como se fossem msica. A msica dos sons ou da palavra -  a sexualidade sob a forma da eternidade:  o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. 
H os carinhos que se fazem com o corpo e h os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com 
as palavras no  ficar repetindo o tempo todo: 'Eu te amo, eu te amo...' Barthes advertia: 'Passada a primeira confisso, 'eu te amo\' no quer dizer mais nada.' 
 na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, no em sua nudez anatmica, mas em sua nudez potica. Recordo a sabedoria de Adlia Prado: 'Ertica  a alma.' 

O tnis  um jogo feroz. O seu objetivo  derrotar o adversrio. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tnis para 
fazer o outro errar. O bom jogador  aquele que tem a exata noo do ponto fraco do seu adversrio, e  justamente para a que ele vai dirigir a sua cortada - palavra 
muito sugestiva, que indica o seu objetivo sdico, que  o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tnis se encontra, portanto, justamente no momento em que 
o jogo no pode mais continuar porque o adversrio foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro. 

O frescobol se parece muito com o tnis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. S que, para o jogo ser bom,  preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio 
meio torta, a gente sabe que no foi de propsito e faz o maior esforo do mundo para devolv-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa peg-la. No existe 
adversrio porque no h ningum a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ningum ganha. E ningum fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja  que 
ningum erre. O erro de um, no frescobol,  como ejaculao precoce: um acidente lamentvel que no deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo  aquele ir e vir, 
ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas no tem importncia: comea-se de novo este delicioso jogo em que 
ningum marca pontos... 

A bola: so as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar  ficar batendo sonho pra l, sonho pra c... 

Mas h casais que jogam com os sonhos como se jogassem tnis. Ficam  espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu dirio pequenos fragmentos para 
os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos,  sobre este jogo de tnis: 
'Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silncio, mas, com pequenas frases secas, destri todos os propsitos 
do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhao e  assim que nasce o dio. Exemplo: com um sorriso: 
'No se faa mais estpido do que , meu amigo\'. A galeria torce e sorri pouco  vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mo suspirando: 'Tens razo, minha 
querida\'. A situao est salva e o dio vai aumentando.' 

Tnis  assim: recebe-se o sonho do outro para destru-lo, arrebent-lo, como bolha de sabo... O que se busca  ter razo e o que se ganha  o distanciamento. Aqui, 
quem ganha sempre perde. 

J no frescobol  diferente: o sonho do outro  um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se  sonho,  coisa delicada, do corao. O bom ouvinte  
aquele que, ao falar, abre espaos para que as bolhas de sabo do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ningum ganha para que os dois ganhem. 
E se deseja ento que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...(O retorno e terno, p. 51.) 


 


 A ESCOLA DA PONTE 1

Aforismo que repito sempre: 'Numa terra de fugitivos aquele que anda na direo contrria parece estar fugindo.' O poeta T. S. Eliot, que o escreveu, ps o fugitivo 
no singular: um ser solitrio. E era assim que eu sempre me sentia, andando sozinho na direo contrria. Mas, repentinamente, descobri um outro 'fugitivo', um velho 
de longas barbas e que fumava um charuto fedorento. No gosto de cheiro de charutos. Mas gosto de companhia. Aproximei-me dele e o reconheci. O nome dele era Karl 
Marx. Fiquei espantado porque sempre pensei que ele se encontrava no meio da multido dos que andam para a frente, os modernos, economistas, cientistas - pois foi 
isso que sempre disseram dele os que se diziam seus intrpretes. De fato, as roupas que ele usava eram
modernas, feitas de tecido fabricado naquelas tecelagens (que ele odiava) onde trabalhavam mulheres e crianas 16 horas por dia, para enriquecer os donos. Evidentemente 
faltava-lhe tempo e habilidade para fazer o que fazia aquele outro retrgrado chamado Gandhi, que tecia seus prprios tecidos num tear domstico que ele afirmava 
ter poderes teraputicos e sapienciais. Percebi que ele era moderno por fora mas o seu corao era retrgrado; andava para trs. Como o meu. 

Psicanalista, presto ateno nos detalhes, os lapsus, e foi assim que descobri esse segredo que ningum mais sabia: um pequeno texto...Ele dizia nesse texto que 
o operrio, ao ver o objeto que produzira, tinha de ver o seu prprio rosto refletido nele. Cada objeto tem de ser um espelho, tem de ter a cara daquele que o produziu. 
Quando o operrio v seu rosto refletido no objeto que ele produziu ele sorri feliz. O trabalho, com todo o seu sofrimento, valeu a pena: foi dor de parto. 

Agora, meu leitor, lhe peo: ande por sua casa e examine os objetos modernos que h por l: liquidificadores, torradeiras, foges, computadores. Olhando para eles, 
cara de quem voc v? Se, ao invs de estar comprando um desses objetos numa dessas lojas que vendem tudo para fazer sua me feliz - eles, os vendedores, acham que 
sua me  muito curta de inteligncia e de sentimentos - voc estiver numa exposio de arte - esculturas do Santos Lopes, esse extraordinrio artista portugus, 
por exemplo - e voc se apaixonar por uma delas - voc poder procurar um lugar, na escultura, onde ele colocou a sua assinatura. Voc compra a escultura, leva-a 
para sua casa, pe na sala, e se eu for visit-lo, ao ver a escultura, direi imediatamente, antes de examin-la: 'Ah! Voc tem uma Santos Lopes!' Todas as esculturas 
do Santos Lopes tm a cara dele (mesmo que ele no as assine; so inconfundveis!). Mas o nome de que arteso irei dizer ao ver seu liquidificador, sua torradeira, 
seu computador, sua esferogrfica? Esses objetos foram feitos por pessoas sem nome. Foram produzidos em linhas de montagem. So todos iguais. Quando ficam velhos 
so jogados fora e outros, novos, tambm produzidos em linhas de montagem, so comprados. Operrios que trabalham em linhas de montagem no assinam as suas obras 
- porque no so deles - e nem vem o seu rosto refletido nelas. Foi isso que me fez concluir, a partir da pequena afirmao de Marx, que ele destruiria as linhas 
de montagem, se pudesse, voltando ento a um tempo passado onde cada obra era espelho com assinatura. Acontece que objetos com o rosto do arteso e assinatura no 
chegam para alimentar a economia capitalista, que tem uma fome insacivel. Marx sonhava com uma situao que j no mais existia, o atelier do arteso medieval, 
cada artista, cada aprendiz, fazendo uma coisa nica, que nunca mais se repetiria: em cada objeto o rosto do que o produzira, cada objeto uma experincia de felicidade 
narcsica.  isso que combina conosco, seres humanos, nicos, que nunca se repetem. 
Como so produzidos liquidificadores, mquinas de lavar roupa, computadores, automveis? So produzidos numa linha de montagem. De maneira simplificada: uma esteira 
que se movimenta. Ao lado dela esto operrios. Cada operrio tem uma funo especfica. O processo se inicia com uma pea original  qual,  medida que a esteira
corre, os operrios vo acrescentando as partes que iro compor o objeto final. Nenhum operrio faz o objeto, individualmente. Cada operrio faz uma nica operao: 
juntar, soldar, aparafusar, cortar, testar. O resultado da linha de montagem  a produo rpida e controlada de objetos iguais. A igualdade dos objetos finais  
a prova da qualidade do processo. O que no for igual, isso , que apresentar alguma peculiaridade que o distinga do objeto ideal,  eliminado. A funo da 'pea 
original', como se v,  a de ser simples suporte para as outras peas que lhe vo sendo acrescentadas. Ao final do processo a 'pea original' praticamente desapareceu. 
No seu lugar est o objeto que vale pela sua funo dentro do processo econmico. 

Nossas escolas so construdas segundo o modelo das linhas de montagem. Escolas so fbricas organizadas para a produo de unidades bio-psicolgicas mveis portadoras 
de conhecimentos e habilidades. Esses conhecimentos e habilidades so definidos exteriormente por agncias governamentais a que se conferiu autoridade para isso. 
Os modelos estabelecidos por tais agncias so obrigatrios, e tm a fora de leis. Unidades bio-psicolgicas mveis que, ao final do processo, no estejam de acordo 
com tais modelos so descartadas.  a sua igualdade que atesta a qualidade do processo. No havendo passado no teste de qualidade-igualdade, elas no recebem os 
certificados de excelncia ISO-12.000, vulgarmente denominados diplomas. As unidades bio-psicolgicas mveis so aquilo que vulgarmente recebe o nome de 'alunos'. 

As linhas de montagem denominadas escolas se organizam segundo coordenadas espaciais e temporais. As coordenadas espaciais se denominam 'salas de aula'. As coordenadas 
temporais se denominam 'anos' ou 'sries'. Dentro dessas unidades espao-tempo os professores realizam o processo tcnico-cientfico de acrescentar sobre os alunos 
os saberes-habilidades que, juntos, iro compor o objeto final. Depois de passar por esse processo de acrscimos sucessivos -  semelhana do que acontece com os 
objetos originais na linha de montagem da fbrica - o objeto original que entrou na linha de montagem chamada escola (naquele momento ele chamava 'criana') perdeu 
totalmente a visibilidade e se revela, ento, como um simples suporte para os saberes-habilidades que a ele foram acrescentados durante o processo. A criana est, 
finalmente, formada, isso , transformada num produto igual a milhares de outros. ISO-12.000: est formada, isto , de acordo com a forma.  mercadoria espiritual 
que pode entrar no mercado de trabalho. 

A o meu companheiro de direo contrria me perguntou se no seria possvel mudar as coisas. Abandonar a linha de montagem de fbrica como modelo para a escola 
e, andando mais para trs, tomar o modelo medieval da oficina do arteso como modelo para a escola. O mestre-arteso no determinava como deveria ser o objeto a 
ser produzido pelo aprendiz. Os aprendizes, todos juntos, iam fazendo cada um a sua coisa. Eles no tinham de reproduzir um objeto ideal escolhido pelo mestre. O 
mestre estava a servio dos aprendizes e no os aprendizes a servio dos mestres. O mestre ficava andando pela oficina, dando uma sugesto aqui, outra ali, mostrando 
o que no ficara bem, mostrando o que fazer para ficar melhor (modelo maravilhoso de 'avaliao'). Trabalho duro, fazer e refazer. Mas os aprendizes trabalham sem 
que seja preciso que algum lhes diga que devem trabalhar. Trabalham com concentrao e alegria, inteligncia e emoo de mos dadas. Isso sempre acontece quando 
se est tentando produzir o prprio rosto (e no o rosto de um outro). Ao final, terminado o trabalho, o aprendiz sorri feliz, admirando o objeto produzido. 

So extraordinrios os esforos que esto sendo feitos para fazer nossas linhas de
montagem chamadas escolas to boas quanto as japonesas. Mas o que eu gostaria mesmo  de acabar com elas. Sonho com uma escola retrgrada, artesanal... 

Impossvel? Eu tambm pensava. Mas fui a Portugal e l encontrei a escola com que sempre sonhara: a Escola da Ponte. Me encantei vendo o rosto e o trabalho dos alunos:
havia disciplina, concentrao, alegria e eficincia.

A ESCOLA DA PONTE 2

Tudo comeou acidentalmente num lugar de Portugal cujo nome eu nunca ouvira: Vila Nova de Famalico. Posteriormente me ensinaram que era a cidade onde vivera Camilo 
Castelo Branco, romancista gigante de vida trgica. Menino ainda, li o seu livro Amor de Perdio, evidentemente sem nada compreender. Li porque no tinha outra 
coisa para fazer e o livro estava l, na estante do meu pai. Camilo se apaixonou por uma mulher casada que, por sua vez se apaixonou por ele, e os dois fugiram para 
viver um amor louco e criminoso. Naqueles tempos do sculo passado adultrio era crime, o marido trado ps a polcia ao encalo do sedutor que foi preso e passou 
anos na priso - sem que o seu amor diminusse. Imagino que o ttulo do seu livro 'Amor de Perdio' tenha sido inspirado por sua prpria desgraa. Mas o marido 
finalmente morreu e os dois apaixonados viveram o resto de suas vidas na casa que pertencera ao marido. Velho, Camilo Castelo Branco ficou cego e foi abandonado 
pelos amigos. De tristeza, ps um fim  sua vida. A casa  hoje um museu. 

Existe ali um Centro de Formao Camilo Castelo Branco, dirigido pelo professor Ademar Santos. Pois h alguns anos atrs, por obra de uma brasileira que l vive, 
chegou s mos do professor Ademar um livrinho meu, velho e surrado, Estrias de quem gosta de ensinar. O Ademar sentiu logo que ramos conspiradores de idias, 
passou a caar o que eu escrevia, descobrindo-me finalmente nas crnicas que publico aqui no Correio Popular aos domingos. Passamos a nos corresponder via e-mail 
e o Centro de Formao Camilo Castelo Branco acabou por convidar-me a l passar uma semana. E foi o que fiz de 2 a 7 de maio. Eu j havia estado anteriormente em 
Portugal como turista, tendo conhecido monumentos, restaurantes e cidades. Dessa vez foi diferente. Conheci pessoas. Conversei com elas. Tive a recepo mais generosa 
e inteligente de toda a minha vida. Recepes generosas - isso  fcil: passeios, jantares, presentes, homenagens. Mas eu insisto no 'inteligente'. Cada ocasio 
era uma aprendizagem que me assombrava. Dentre elas a Escola da Ponte. Pedi que o Ademar me desse explicaes preliminares, antes da visita. Ele se recusou. Disse-me 
que explicaes seriam inteis. Eu teria de ver e experimentar. 

A Escola da Ponte  dirigida por Jos Pacheco, um educador de voz mansa e poucas palavras. Imaginei que ele seria meu guia e explicador. Ao invs disso ele chamou 
uma aluna de uns 10 anos que passava e disse: 'Ser que tu poderias mostras e explicar a nossa escola a este visitante?' Ela acenou que sim com um sorriso e passou 
a me guiar. Antes de entrar no lugar onde as crianas estavam ela parou para me dar a primeira explicao que tinha por objetivo, imagino, amenizar a surpresa. 

Aqui, quando a gente vai a uma escola, sabe o que vai encontrar: salas de aulas, em cada sala um professor, o professor ensinando, explicando a matria prevista 
nos programas oficiais, as crianas aprendendo. A intervalos regulares soa uma campainha - sabe-se ento que vai haver uma mudana - muda-se de matria, freqentemente 
muda-se de professor, pois h professores de matemtica, de geografia, de cincias, etc., cada um ensinando a disciplina de sua especialidade. J falei sobre isso 
na crnica passada: as linhas de montagem. 

 preciso imaginar o delicioso 'portuguesh' que se fala em Portugal para sentir a msica segura e tranqila da fala da menina. 'Nsh no tmosh, como nas outrash 
escolash (daqui para frente escreverei do jeito normal...) salas de aulas. No temos classes separadas, 1 ano, 2 ano, 3 ano... Tambm no temos aulas, em que 
um professor ensina a matria. Aprendemos assim: formamos pequenos grupos com interesse comum por um assunto, reunimo-nos com uma professora e ela, conosco, estabelece 
um programa de trabalho de 15 dias, dando-nos orientao sobre o que deveremos pesquisar e os locais onde pesquisar. Usamos muito os recursos da Internet. Ao final 
dos 15 dias nos reunimos de novo e avaliamos o que aprendemos. Se o que aprendemos foi adequado, aquele grupo se dissolve, forma-se um outro para estudar outro assunto.' 


Ditas essas palavras ela abriu a porta e, ao entrar, o que vi me causou espanto. Era uma sala enorme, enorme mesmo, sem divises, cheia da mesinhas baixas, prprias 
para as crianas. As crianas trabalhavam nos seus projetos, cada uma de uma forma. Moviam-se algumas pela sala, na maior ordem, tranquilamente. Ningum corria. 
Ningum falava em voz alta. Em lugares assim normalmente se ouve um zumbido, parecido com o zumbido de abelhas. Nem isso se ouvia. Notei, entre as crianas, algumas 
com sndrome de Down que tambm trabalhavam. As professoras estavam assentadas com as crianas, em algumas mesas, e se moviam quando necessrio. Nenhum pedido de 
silncio. Nenhum pedido de ateno. No era necessrio. 

 esquerda da porta de entrada havia frases escritas com letras grandes, afixadas na parede. A menina explicou: 'Aprendemos a ler lendo frases inteiras.' Lembrei-me 
que foi assim que eu aprendi a ler. Minha primeira cartilha se chamava O Livro de Lili. Na primeira pgina havia o desenho de uma menininha com o seguinte texto, 
que nunca esqueci: 'Olhem para mim./ Eu me chamo Lili./ Eu comi muito doce./ Vocs gostam de doce?/ Eu gosto tanto de doce!' Imaginei que a diferena, talvez, fosse 
que o texto do Livro de Lili tinha sido escrito por uma pessoa no seu escritrio. E que as frases que se encontravam escritas na parede da Escola da Ponte eram frases 
propostas pelas prprias crianas, frases que diziam o que elas estavam vivendo. Aprendiam, assim, que a escrita serve para dizer a vida que cada um vive. Pensei 
que  assim que as crianas aprendem a falar. Elas aprendem palavras inteiras, pois somente palavras inteiras fazem sentido. Elas no aprendem os sons para depois 
juntar os sons em palavras. 

'Mas  importante saber as letras na ordem certa', ela continuou, 'porque  assim que se aprende a ordem alfabtica, necessria para o uso dos dicionrios'. (Ela 
falava assim mesmo, no  inveno minha...) 

Notei, numa mesa ao lado, uma menina que escrevia e consultava um dicionrio. Agachei-me para conversar com ela. 'Voc est procurando no dicionrio uma palavra 
que voc no sabe?' - perguntei. 'No, eu sei o sentido da palavra. Mas estou a escrever um texto para os midos e usei uma palavra que, penso, eles no conhecem. 
Como eles ainda no sabem a ordem alfabtica e no podem consultar o dicionrio, estou a escrever um pequeno dicionrio ao p da pgina do meu texto para que eles 
o compreendam.' 'Estou a escrever um texto para os midos' - foi o que ela disse. Na Escola da Ponte  assim. As crianas que sabem ensinam as crianas que no sabem. 
Isso no  exceo.  a rotina do dia-a-dia. A aprendizagem e o ensino so um empreendimento comunitrio, uma expresso de solidariedade. Mais que aprender saberes, 
as crianas esto a aprender valores. A tica perpassa silenciosamente, sem explicaes, as relaes naquela sala imensa. 

Na outra parede encontrei dois quadros de avisos. Num deles estava afixada a frase: 'Tenho necessidade de ajuda em...' E, no outro, a frase: 'Posso ajudar em...' 
Qualquer criana que esteja tendo dificuldades em qualquer assunto coloca ali o assunto em que est tendo dificuldades e o seu nome. Um outro colega, vendo o pedido, 
vai ajud-la. E qualquer criana que se ache em condies de ajudar em algum assunto, coloca ali o assunto em que se julga competente e o seu nome. Assim, vai se 
formando uma rede de relaes de ajuda. 

Ando um pouco mais e encontro uma menina com sndrome de Down trabalhando com outras, numa mesinha. Ela trabalha de forma concentrada. Seu presena  uma presena 
igual  de todas as demais crianas: algum que no sabe muitas coisas, que pode aprender muitas coisas. Acima de tudo ela aprende que ela tem um lugar importante 
na vida. 

Andando, vi um texto entitulado: 'Direitos das crianas quanto  leitura'. O primeiro direito rezava: 'Toda criana tem o direito de no ler o livro de que no gosta.' 
'Ah!', pensei, ' possvel que Jorge Lus Borges tenha andado por aqui...' Li depois, o texto dos 'Direitos e Deveres', elaborados pelas prprias crianas. Dentre 
todos, o que mais me impressionou foi o que dizia assim: 'Temos o direito de ouvir msica na sala de trabalho para pensarmos em silncio'... 

A ESCOLA DA PONTE 3

Encantado, continuei a explorar o espao da Escola da Ponte - espao que eu nunca havia imaginado - e notem que minha imaginao  muito frtil! A menina que me 
guiava apontou para um computador num canto da sala imensa: ' o computador do 'Acho bom' e do 'Acho mal'. Quando nos sentimos contentes com algo, escrevemos no 
'Acho bom'. Quando, ao contrrio, nos sentimos infelizes, escrevemos no 'Acho mal''. Examinei o 'Acho mal'. A curiosidade  sempre espicaada por coisas ruins. 'Acho 
mal que o Toms d estalos na cara da Francisca'. Pensei: 'Ah! Toms! Tu ests perdido! Todos j sabem o que fazes! Se continuas, certamente ters de comparecer 
perante o Tribunal para dares conta dos teus atos.' E, no 'Acho bom' esto os louvores aos gestos e coisas boas. Treinamento dos olhos e da fala. O normal  que 
os olhos vejam mais as coisas ruins e que a boca tenha mais prazer em falar sobre elas. Mas l, na Escola da Ponte, as crianas so convidadas a ver o bom, o bonito, 
o generoso, e a falar sobre eles. 

Tribunal... A menina me havia falado sobre problemas de disciplina. Para tais situaes as crianas estabeleceram um tribunal. Aquele que desrespeita as regras de 
convivncia por elas mesmas estabelecidas tem de comparecer perante esse tribunal. Sua primeira pena  pensar durante trs dias sobre os seus atos. Depois ele retorna, 
para dizer o que pensou. Minha guia no me esclareceu sobre o que acontece com os impenitentes reincidentes. Mas o culpado fui eu: no perguntei. 

A fomos para o refeitrio. Havia um grupo de alunos e professoras reunido  volta de uma mesa. 'Esto a preparar a assemblia de hoje. Temos uma assemblia que 
se rene semanalmente para tratar dos problemas da escola e para sugerir solues. Aquele  o presidente', ela me disse, apontando para um menino. 

Ao fim do dia reuniu-se a assemblia. Fui convidado a falar alguma coisa. Havia levado comigo um carrinho, feito com uma lata de sardinha. J escrevi sobre ele. 
Quando o vi pela primeira vez, numa exposio de brinquedos na Bahia, fiquei to impressionado que a dona da exposio m\'o (Meu Deus! Fiquei infectado pela maneira 
portuguesa erudita de falar! Para quem no sabe: m\'o = me + o) deu como presente. Conversei com as crianas sobre o carrinho. O que me interessava no era o carrinho. 
Era o processo de sua produo. Brinquedo construdo por um menino pobre que sonhava com um carrinho e no tinha dinheiro para comprar. Se fosse rico, era s pedir 
para o pai - ele compraria um carrinho eletrnico movido ao aperto de um boto, o que desenvolveria o dedo e atrofiaria a inteligncia. Dinheiro demais  emburrecedor. 
Perguntei uma pergunta tola: 'Em que loja se compra um carrinho assim?' Esperava a resposta bvia: 'Esse carrinho no se compra em lojas...' Uma menina levantou 
o dedo. O que ela disse me assombrou: 'Esse carrinho se compra na loja das mos'. 'Loja das mos': ela me respondeu com poesia. Seguiu-se um perodo de perguntas. 
Pasmem: em nenhum momento qualquer aluno interrompeu o outro. Isso  lei que as crianas estabeleceram. Est escrito na lista de 'Direitos e Deveres'. Pensei que 
o senador Antnio Carlos Magalhes e o deputado Jader Barbalho deveriam fazer um estgio na Escola da Ponte. Quem desejava falar levantava a mo e aguardava a indicao 
do presidente. s cinco horas o presidente falou: 'J est na hora de terminar. Vou dar a palavra para mais um colega e terminaremos.' E assim foi. Ao final, vieram 
conversar comigo. Uma menina me perguntou: 'Tens mirk?' Nem sei se  assim que se escreve. O fato  que eu nunca havia ouvido essa palavra. Ela me explicou: 'Aquele 
programa de computador que permite que se converse. Quero conversar contigo...' No. Eu no tinha mirk... Um menininho chegou  minha frente segurando um chaveiro: 
uma correntinha com um pequeno sino na ponta. Ficou olhando para mim. Perguntei: 'E isso?' 'Um presente para ti', respondeu. No me esquecerei do Srgio... 

Sei que vocs devem estar incrdulos. Como  possvel uma escola assim, sem turmas, sem professores e aulas de portugus, geografia, cincias, histria, em lugares 
e horas determinadas, de acordo com um programa, linha de montagem, com testes e conceitos ao final? Ser que as crianas aprendem? 

Respondo fazendo uma pergunta: qual  a coisa mais difcil de ser ensinada, mais difcil de ser aprendida, quem ensina no sabe que est ensinando, quem aprende 
no sabe que est aprendendo e, ao final, a aprendizagem acontece sempre?  a linguagem. No existe nada, absolutamente nada que se compare  linguagem em complexidade. 
No entanto, sem que haja qualquer ensino formal, sem que os que ensinam a falar - pai, me, tio, av, irmos - tenham tido aulas tericas sobre a formao da linguagem, 
as crianas aprendem a falar. 

Imaginem que o ensino da linguagem se desse em escolas, segundo os moldes de linha de montagem que conhecemos: aulas de substantivos, aulas de adjetivos, aulas de 
verbos, aulas de sintaxe, aulas de pronncia. O que aconteceria? As crianas no aprenderiam a falar. Por que  que a aprendizagem da linguagem  to perfeita, sendo 
to informal e to sem ordem certa? Porque ela vai acontecendo seguindo a experincia vital da criana: o falar vai colado  experincia que est acontecendo no 
presente. Somente aquilo que  vital  aprendido. Por que  que, a despeito de toda pedagogia, as crianas tm dificuldades em aprender nas escolas? Porque nas escolas 
o ensinado no vai colado  vida. Isso explica o desinteresse dos alunos pela escola. Alguns me contestaro dizendo: 'Mas o meu filho adora a escola!' Pergunto: 
Ele adora a escola por aquilo que est aprendendo ou por outras razes? Confesso no saber de um aluno que tenha prazer em conversar com os pais sobre aquilo que 
est aprendendo na escola. Explica tambm a indisciplina. Por que haveria uma criana de disciplinar-se, se aquilo que ela tem de aprender no  aquilo que o seu 
corpo deseja saber? E explica tambm a preguia que sentem as crianas ao se defrontar com as lies de casa. Roland Barthes tem um delicioso ensaio sobre a preguia. 
Segundo ele h dois tipos de preguia. Um deles, abenoado,  a preguia de quem est deitado na rede de barriga cheia. No quer fazer nada porque na rede est muito 
bom. O outro tipo  a preguia infeliz, ligado inseparavelmente  escola. O aluno se arrasta sobre a lio de casa. No quer faz-la. A vida o est chamando numa 
outra direo mais alegre. Mas ele no tem alternativas.  obrigado a fazer a lio. Por isso ele se arrasta em sofrimento. 

O conhecimento  uma rvore que cresce da vida. Sei que h escolas que tm boas intenes, e que se esforam para que isso acontea. Mas as suas boas intenes so 
abortadas porque so obrigadas a cumprir o programa. Programas so entidades abstratas, prontas, fixas, com uma ordem certa. Ignoram a experincia que a criana 
est vivendo. A tenta-se, inutilmente, produzir vida a partir dos programas. Mas no  possvel, a partir da mesa de anatomia, fazer viver o cadver. O que vi na 
Escola da Ponte  o conhecimento crescendo a partir das experincias vividas pelas crianas.

A ESCOLA DA PONTE 4

Contei sobre a escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir. Mas existia, em Portugal... Quando a vi, fiquei alegre e repeti, para ela, o que Fernando 
Pessoa havia dito para uma mulher amada: 'Quando te vi, amei-te j muito antes...' 

Gente de boa memria jamais entender aquela escola. Para entender  preciso esquecer quase tudo o que sabemos. A sabedoria precisa de esquecimento. Esquecer  livrar-se 
dos jeitos de ser que se sedimentaram em ns, e que nos levam a crer que as coisas tm de ser do jeito como so. No. No  preciso que as coisas continuem a ser 
do jeito como sempre foram. 

Como so e tm sido as escolas? Que nos diz a memria? A imagem: uma casa, vrias salas, crianas separadas em grupos chamados 'turmas'. Nas salas os professores 
ensinam saberes. Toca uma campainha. Terminou o tempo da aula. Os professores saem. Outros entram. Comea uma nova aula. Novos saberes so ensinados. O que  que 
os professores esto fazendo? Esto cumprindo um 'programa'. 'Programa'  um cardpio de saberes organizados em seqncia lgica, estabelecido por uma autoridade 
superior invisvel, que nunca est com as crianas. Os saberes dos cardpio 'programa' no so respostas s perguntas que as crianas fazem. Por isso as crianas 
no entendem por que tm de aprender o que lhes est sendo ensinado. Nunca vi uma criana questionar a aprendizagem do falar. Uma criancinha de 8 meses j est doidinha 
para aprender a falar. Ela v os grandes falando entre si, falando com ela, sente que falar  uma coisa divertida e til, e logo comea a ensaiar a fala, por conta 
prpria. Faz de conta que est falando. Balbucia. Brinca com os sons. E quando consegue falar a primeira palavra, sente a alegria dos que a cercam. E vai aprendendo, 
sem que ningum lhe diga que ela tem de aprender a falar e sem que o misterioso processo de ensino e aprendizagem da fala esteja submetido a um programa estabelecido 
por autoridades invisveis. Ela aprende a falar porque o falar  parte da vida. 

Nunca ningum me disse que eu deveria aprender a descascar laranjas. Aprendi porque via o meu pai descascando laranjas com uma mestria mpar, sem arrebentar a casca 
e sem ferir a laranja, e eu queria fazer aquilo que ele fazia. Aprendi sem que me fosse ensinado. A arte de descascar laranjas no se encontra em programas de escola. 
O corpo tem uma precisa filosofia de aprendizagem: ele aprende os saberes que o ajudam a resolver os problemas com que est se defrontando. Os programas so uma 
violncia que se faz com o jeito que o corpo tem de aprender. No admira que as crianas e adolescentes se revoltem contra aquilo que os programas os obrigam a aprender. 
Ainda ontem uma amiga me dizia que sua filha, de 10 anos, lhe dizia: 'Me, por que tenho de ir  escola? As coisas que tenho de aprender no servem para nada. Que 
me adianta saber o que significa 'oxtona'? Pr que serve esta palavra?' A menina sabia mais que aqueles que fizeram os programas. 

Vamos comear do comeo. Imagine o homem primitivo, exposto  chuva, ao frio, ao vento, ao sol. O corpo sofre. O sofrimento faz pensar: 'Preciso de abrigo', ele 
diz. A, forada pelo sofrimento, a inteligncia entra em ao. Pensa para deixar de sofrer. Pensando, conclui: 'Uma caverna seria um bom abrigo contra a chuva, 
o frio, o vento, o sol...' Instrudo pela inteligncia o homem procura uma caverna e passa a morar nela. Resolvido o sofrimento, a inteligncia volta a dormir. Mas 
a, forado ou pela fome ou por um grupo armado que lhe toma a caverna, ele  forado a se mudar para uma plancie onde no h cavernas. O corpo volta a sofrer. 
O sofrimento acorda a inteligncia e faz com que ela trabalhe de novo. A soluo original no serve mais: no h cavernas. A inteligncia pensa e conclui: ' preciso 
construir uma coisa que faa s vezes de caverna. Essa coisa tem de ter um teto, para proteger do sol e da chuva. Tem de ter paredes, para proteger do vento e do 
frio.Com que se pode fazer um teto?' A inteligncia se pe ento a procurar um material que sirva para fazer o teto. Folhas de palmeira? Capim? Pedaos de pau? Mas 
o teto no flutua no ar. Tem de haver algo que o sustente. Paus fincados? Sim. Mas para fincar um pau  preciso descobrir uma ferramenta para cortar o pau. Depois, 
uma ferramenta para fazer o buraco na terra


 E assim vai a inteligncia, inventando ferramentas e tcnicas,  medida em que o corpo se defronta com necessidades prticas. A inteligncia, entre os esquims, 
jamais pensaria uma casa de pau-a-pique. Entre eles no h nem madeira e nem barro. Produziu o iglu. E a inteligncia do homem que vive na floresta jamais pensaria 
um iglu - porque nas florestas no h gelo. Produziu a casa de pau-a-pique. A inteligncia  essencialmente prtica. Est a servio da vida. 

Um exerccio fascinante a se fazer com as crianas seria provoc-las para que elas imaginassem o nascimento dos vrios objetos que existem numa casa. Todos os objetos, 
os mais humildes, tm uma histria para contar. Que necessidade fez com que se inventassem panelas, facas, vassouras, o fsforo, a lmpada, as garrafas, o fio dental?... 
Quais poderiam ter sido os passos da inteligncia, no processo de invent-los? Quem  capaz de, na fantasia, reconstruir a histria da inveno desses objetos, fica 
mais inteligente. 

Depois de inventados, eles no precisam ser inventados de novo. Quem inventou passa a possuir a receita para a sua fabricao. E  assim que as geraes mais velhas 
passam para seus filhos as receitas de tcnicas que tornam possvel a sobrevivncia. Esse  o seu mais valioso testamento: um saber que torna possvel viver. As 
geraes mais novas, assim, so poupadas do trabalho de inventar tudo de novo. E os jovens aprendem com alegria as lies dos mais velhos: porque suas lies os 
fazem participantes do processo de vida que une a todos. A aprendizagem da linguagem se d de forma to eficaz porque a linguagem torna a criana um membro do grupo: 
ela participa da conversa, fala e os outros ouvem, ri das coisas engraadas que se dizem. O mesmo pode ser dito da aprendizagem de tcnicas: o indiozinho que aprende 
a fabricar e a usar o arco e a flecha, a construir canoas e a pescar, a andar sem se perder na floresta, a construir ocas, est se tornando num membro do seu grupo, 
reconhecido por suas habilidades e por sua contribuio  sobrevivncia da tribo. O que ele aprende e sabe, faz sentido. Ele sabe o uso dos seus saberes. (A menininha 
no sabia o uso da palavra 'oxtona'. Nem eu. Sei o que ela quer dizer. No sei para que serve. Quando eu escrevo nunca penso em 'oxtona'. Ningum que fale a lngua, 
por ignorar o sentido de 'oxtona', vai falar 'cfe', ao invs de caf, ou 'chle', ao invs de 'chul'... A palavra 'oxtona' no me ensina a falar melhor. , portanto, 
intil...) 

Disse, numa outra crnica, que quero escola retrgrada. Retrgrado quer dizer 'que vai para trs'. Quero uma escola que v mais para trs dos 'programas' cientfica 
e abstratamente elaborados e impostos. Uma escola que compreenda como os saberes so gerados e nascem. Uma escola em que o saber v nascendo das perguntas que o 
corpo faz. Uma escola em que o ponto de referncia no seja o programa oficial a ser cumprido (inutilmente!), mas o corpo da criana que vive, admira, se encanta, 
se espanta, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra, se machuca, brinca. Uma escola que seja iluminada pelo brilho dos incios. 

Mas, repentinamente, desfaz-se o encanto da perda da memria e nos lembramos da pergunta: 'Mas, e o programa? Ele  cumprido?' 

A ESCOLA DA PONTE 5

Imaginar no faz mal. Pois imagine que voc  uma me das antigas. E sua filha vai se casar. Me responsvel que voc , voc a chama e lhe diz: 'Minha filha, voc 
vai se casar. Desejo que seu casamento seja durvel. Casamento durvel depende do amor. E voc nada sabe sobre as artimanhas do amor. O que voc est sentindo agora 
no  amor;  paixo. Paixo  fogo de palha. Acaba logo. Casamento no se sustenta com fogo que acaba logo. Vou lhe ensinar o segredo do amor permanente, o fogo 
que no se apaga nunca. Voc deve aprender o segredo do fogo que faz o corao do seu marido arder, no dia-a-dia. Pois bem, saiba que o caminho para o corao de 
um homem passa pelo estmago. O casamento no se sustenta com o fogo da cama. Ele se sustenta com o fogo da mesa. Vou lhe dar o presente mais precioso, o 'Livro 
de Dona Benta', centenas de receitas. Mas no  s isso, vou lhe ensinar todas as receitas desse livro maravilhoso.' Ditas essas palavras voc, me, d incio a 
um programa de culinria, uma receita depois da outra, na ordem certa. Cada dia sua filha deve aprender uma receita e, uma vez por ms, voc faz uma avaliao da 
aprendizagem. Ela deve ser capaz de repetir as receitas. 

 claro que isso que eu disse  uma tonteria. Ningum ensina a cozinhar assim. No  possvel saber todas as receitas. Por que ter de saber todas as receitas, se 
elas esto escritas no livro de receitas? A gente aprende uma receita quando fica com vontade de experimentar aquele prato nunca dantes experimentado. O ato de aprender 
acontece em resposta a um desejo. 'Quero fazer, amanh, uma Vaca atolada. Como  que se faz uma Vaca atolada, se nunca fiz?'  s procurar no livro de receitas, 
sob o ttulo 'Vaca atolada'. A gente l e aprende porque vai fazer Vaca atolada... 

Pois os programas de aprendizagem a que nossas crianas e adolescentes tm de se submeter nas escolas so iguais  aprendizagem de receitas que no vo ser feitas. 
Receitas aprendidas sem que se v fazer o prato so logo esquecidas. A memria  um escorredor de macarro. O escorredor de macarro existe para deixar passar o 
que no vai ser usado: passa a gua, fica o macarro. Essa  a razo por que os estudantes esquecem logo o que so forados a estudar. No por falta de memria. 
Mas porque sua memria funciona bem: no sei para que serve; deixo passar... 

Na Escola da Ponte a aprendizagem acontece a partir de pratos que vo ser preparados e comidos. Por isso as crianas aprendem e tm prazer em aprender. Mas, e o 
programa?  cumprido? Pergunta tola.  o mesmo que perguntar se a jovem casadoira aprendeu todas as receitas do Livro de Dona Benta...  claro que o Livro de Dona 
Benta no  para ser aprendido. Programas no podem ser aprendidos... So logo escorridos. 

Quando visitei a Escola da Ponte o tema quente era a descoberta do Brasil e tudo o mais que a cercava. As crianas estavam fascinadas com os feitos dos navegadores 
seus antepassados nessa aventura, mais ousada que a viagem dos astronautas  lua. Imagine agora que algumas crianas tenham ficado curiosas diante do assombro tecnolgico 
que tornou os descobrimentos possveis, as caravelas. Organizam-se num grupo para estud-las. Um diretor de escola rigoroso e cumpridor dos seus deveres torceria 
o nariz. 'O tema 'caravelas' no consta de nenhum programa nem aqui e nem em nenhum outro lugar do mundo', ele diria. E concluiria: 'No constando de nenhum programa 
no deve ser objeto de estudo. Perda de tempo. No vai cair no vestibular.' 

Acontece que uma caravela  um objeto no qual esto entrelaadas as mais variadas cincias. As caravelas so um laboratrio de fsica. Parece que a caravela brasileira, 
construda para comemorar o descobrimento, teve de retornar ao ancoradouro, por perigo de emborcar. Um famoso vaso de guerra sueco, o Wasa, se no me engano do sculo 
XVI, virou e afundou depois de navegar por no mais que 400 metros. Retirado do fundo do mar h cerca de 25 anos, ele pode ser visto hoje num museu de Estocolmo. 
O que havia de errado com o Wasa e a caravela brasileira? O que havia de errado tem, em fsica, o nome de 'centro de gravidade'. O centro de gravidade estava no 
lugar errado. O tal centro de gravidade  o que explica por que os bonequinhos chamados Joo Teimoso no caem nunca! A regra : para no emborcar, o centro de gravidade 
do navio deve estar abaixo da linha do mar. Essa  a razo por que os navios, freqentemente, tm necessidade de um lastro - um peso que faz com que o centro de 
gravidade se desloque para mais baixo. Se o centro de gravidade estiver fora do lugar, o navio vira e afunda. 

Os estudantes aprendem, em fsica, como parte do programa abstrato que tm de aprender, uma regra chamada do 'paralelogramo' - regra de composio de foras. Duas 
foras incidindo sobre um ponto, uma delas F1, a outra F2, cada uma numa direo diferente. Para onde se movimenta o objeto sobre o qual incidem? Nem na direo 
de F1, nem na direo de F2. Diz essa regra que o objeto vai se movimentar numa direo que se determina pela construo de um 'paralelogramo'.  o que se chama 
de 'resultante'. Os alunos aprendem a resolver o problema no papel mas no sabem para que ele serve na vida. E o aprendido escorre pelos furos do 'escorredor de 
macarro'... Pois  essa regra que explica, teoricamente, o mistrio de um barco que navega numa direo contrria  do vento. Se o barco estivesse  merc do vento 
ele s navegaria na direo em que o vento sopra, situao essa que tornaria a navegao impossvel. Quem se aventuraria a navegar num barco que s navega na direo 
do vento e no na direo que se deseja? Mas os navegadores descobriram que, com o auxlio de uma outra fora, de direo distinta da direo do vento,  possvel 
fazer com que o barco navegue na direo que se deseja. E  essa a funo do leme. O leme, pela resistncia da gua, cria uma outra fora que, colocada no ngulo 
adequado, produz a direo de navegao desejada. Os alunos aprenderiam melhor se, ao invs de grficos geomtricos, eles fossem instrudos na arte da navegao. 
Da fsica passamos  histria, a influncia de Veneza, dominadora do Mediterrneo com seus barcos, sobre a tecnologia lusitana de construo de caravelas. Da histria 
para a astronomia, a cincia da orientao pelas estrelas. O astrolbio. A bssola. Da, para esses assombros simblicos chamados mapas - que s fazem sentido para 
o navegador se ele conhecer a arte de se orientar, a direo do norte, mesmo quando nada pode ser visto, a no ser o oceano que o cerca por todos os lados. (Olhando 
para a lua, de noite, voc  capaz de dizer a direo do sol?). Dos mapas para a literatura, a Carta de Pero Vaz de Caminha, a poesia de Cames, a poesia de Fernando 
Pessoa: ' mar salgado, quando do seu sal so lgrimas de Portugal! Por te cruzarmos quantas mes choraram, quantos filhos em vo rezaram! Quantas noivas ficaram 
por casar para que fosses nosso,  mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma no  pequena. Quem quer passar alm do Bojador tem de passar alm da dor. Deus 
ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele  que espelhou o cu.' 

Aceitemos um fato simples: um programa cumprido, dado pelo professor do princpio ao fim,  s cumprido formalmente. Programa cumprido no  programa aprendido - 
mesmo que os alunos tenham passado nos exames. Os exames so feitos enquanto a 'gua' ainda no acabou de se escoar pelo 'escorredor de macarro'. Esse  o destino 
de toda cincia que no  aprendida a partir da experincia: o esquecimento. 

Quanto  cincia que se aprende a partir da vida, ela no  esquecida nunca. A vida  o nico programa que merece ser seguido. (Correio Popular, Caderno C, 11/06/2000 
- publicada originalmente com o ttulo: A Escola da Ponte 4.) 

A ESCOLA DA PONTE 6
Imagino que voc, que procura minhas crnicas aos domingos, deve estar cansado. Pois esse  o quinto domingo em que falo sobre a mesma coisa. Pessoas que falam sempre 
sobre as mesmas coisas so chatas. Alm do que, essa insistncia em uma coisa s  contrria ao estilo de crnicas. Crnicas, para serem gostosas, devem refletir 
a imensa variedade da vida. Um cronista  um fotgrafo. Ele fotografa com palavras. Crnicas so ddivas aos olhos. Ele deseja que os leitores vejam a mesma coisa 
que ele viu. Se normalmente no sou chato, deve haver alguma razo para essa insistncia em fotografar uma mesma coisa. Quem fotografa um mesmo objeto repetidas 
vezes deve estar apaixonado. Comporta-se como os fotgrafos de modelos, clic, clic, clic, clic, clic...: dezenas, centenas de fotos, cada uma numa pose diferente! 
Um dos meus pintores favoritos  Monet. Pois ele fez essa coisa inslita: pintou um monte de feno muitas vezes. E o curioso  que ele nem mudou de lugar, no procurou 
ngulos diferentes. Ficou assentado no seu banquinho, cavalete no mesmo lugar, e foi pintando, pintando. Porque, na verdade, o que ele estava pintando no era o 
monte de feno, uma coisa banal, de gosto bovino. O que ele estava pintando era a luz. Ele s usou o monte de feno como espelho onde a luz aparecia refletida, no 
como uma coisa fixa, mas como uma coisa mvel. A srie de telas do monte de feno bem que poderia chamar-se 'strip-tease da luz': devagar, bem devagar, ela vai se 
desnudando... 

Pois estou fazendo com as minhas crnicas o que Monet fez: ele, diante do monte de feno; eu, diante de uma pequena escola por que me apaixonei - pois ela  a escola 
com que sempre sonhei sem ter sido capaz de desenhar. 

Nunca fui professor primrio. Fui professor universitrio. O Vincius, descrevendo a bicharada saindo da Arca de No, disse: 'Os fortes vo na frente tendo a cabea 
erguida e os fracos, humildemente, vo atrs, como na vida...' Pois  exatamente assim que acontece na 'Arca de No' dos professores: os professores universitrios 
vo na frente tendo a cabea erguida, e os primrios, humildemente, vo atrs, como na vida... Professor universitrio  doutor, cientista, pesquisador, publica 
em revistas internacionais artigos em ingls sobre coisas complicadas que ningum mais sabe e so procurados como assessores de governo e de empresas. Professor 
primrio  professor de 3 classe, no precisa nem ter mestrado e nem falar ingls, d aulas para crianas sobre coisas corriqueiras que todo mundo sabe. Crianas 
- essas coisinhas insignificantes, que ainda no so... Haver atividade mais obscura? Professores universitrios gostam das luzes do palco. Professores primrios 
vivem na sombra... 

Quando entrei na universidade para ser professor senti-me muito importante. Com o passar do tempo fui sendo invadido por uma grande desiluso - tdio - um cansao 
diante da farsa. Partilhei da desiluso dos alunos que se sentiram muito importantes quando passaram no vestibular e at ficaram felizes quando os veteranos lhes 
rasparam o cabelo. Cabelo raspado  distintivo: 'Passei! Passei!' No levou muito tempo para que descobrissem que a universidade nada tinha a ver com os seus sonhos. 
E essa  a razo porque fazem tanta festa e foguetrio quando tiram o diploma. Fim do sofrimento do sem sentido. 

A velhice me abriu os olhos. Quando se chega no topo, quando no h mais degraus para subir, a gente comea a ver com uma clareza que no se tinha antes. 'Tenho 
a lucidez de quem est para morrer', dizia Fernando Pessoa na Tabacaria. Fiquei lcido! E o que eu vi com clareza foi o mesmo que viu Joseph Knecht, o personagem 
central do livro de Hesse O Jogo das Contas de Vidro: depois de chegar no topo percebeu o equvoco. E surgiu, ento, o seu grande desejo: ensinar uma criana, um 
nica criana que ainda no tivesse sido deformada (essa  a palavra usada por Hesse) pela escola. 
Tambm eu: quero voltar para as crianas. A razo? Por elas mesmas.  bom estar com elas. Crianas tm um olhar encantado. Visitando uma reserva florestal no estado 
do Esprito Santo, a biloga encarregada do programa de educao ambiental me disse que  fcil lidar com as crianas. Os olhos delas se encantam com tudo: as formas 
das sementes, as plantas, as flores, os bichos. Tudo, para elas,  motivo de assombro. E acrescentou: 'Com os adolescentes  diferente. Eles no tm olhos para as 
coisas. Eles s tm olhos para eles mesmos...' Eu j tinha percebido isso. Os adolescentes j aprenderam a triste lio que se ensina diariamente nas escolas: aprender 
 chato. O mundo  chato. Os professores so chatos. Aprender, s sob ameaa de no passar no vestibular. 

Por isso quero ensinar as crianas. Elas ainda tm olhos encantados. Seus olhos so dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o incio do pensamento: a 
capacidade de se assombrar diante do banal. Tudo  espantoso: um ovo, uma minhoca, um ninho de guacho, uma concha de caramujo, o vo dos urubus, o zinir das cigarras, 
o coaxar dos sapos, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no cu, um pio na terra. Dessas coisas, invisveis aos eruditos olhos dos professores universitrios (eles 
no podem ver, coitados. A especializao os tornou cegos como toupeiras. S vem dentro do espao escuro de suas tocas. E como vem bem!), nasce o espanto diante 
da vida; desse espanto, a curiosidade; da curiosidade, a fuao (essa palavra no est no Aurlio!) chamada pesquisa; dessa fuao, o conhecimento; e do conhecimento, 
a alegria! 

Pensamos que as coisas a serem aprendidas so aquelas que constam dos programas. Essa  a razo por que os professores devem preparar seus planos de aula. Mas as 
coisas mais importantes no so ensinadas por meio de aulas bem preparadas. Elas so ensinadas inconscientemente. Bom seria que os educadores lessem ruminativamente 
(tambm no se encontra no Aurlio) o Roland Barthes. Ele descreveu o seu ideal de aula como sendo a criao de um espao - isso mesmo! um espao! - parecido com 
aquele que existe quando uma criana brinca ao redor da me. Explico. A criana pega um boto, leva para a me. A me ri, e faz um corrupio. (Voc sabe o que  um 
corrupio?). Pega um pedao de barbante. Leva para a me. A me ri e lhe ensina a fazer ns. Ele conclui que o importante no  nem o boto e nem o barbante, mas 
esse espao ldico que se ensina sem que se fale sobre ele. 

Na Escola da Ponte o mais importante que se ensina  esse espao. Nas nossas escolas: salas separadas: o que se ensina  que a vida  cheia de espaos estanques. 
Turmas separadas e hierarquizadas: o que se ensina  que a vida  feita de grupos sociais separados, uns em cima dos outros. Conseqncia prtica: a competio entre 
as turmas, competio que chega  violncia (os trotes!). Saberes ministrados em tempo definidos, um aps o outro: o que se ensina  que os saberes so compartimentos 
estanques (e depois reclamam que os alunos no conseguem integrar o conhecimento. Apelam ento para a 'transdisciplinaridade', para corrigir o estrago feito. O que 
me faz lembrar um filme do Gordo e do Magro. Ainda falo sobre o tal filme, Queijo Suo...). Ah! Uma vez cometido o erro arquitetnico, o esprito da escola j est 
determinado! Mas nem arquitetos e nem tcnicos da educao sabem disto... 

Escola da Ponte: um nico espao, partilhado por todos, sem separao por turmas, sem campainhas anunciado o fim de uma disciplina e o incio de outra. A lio social: 
todos partilhamos de um mesmo mundo. Pequenos e grandes so companheiros numa mesma aventura. Todos se ajudam. No h competio. H cooperao. Ao ritmo da vida: 
os saberes da vida no seguem programas.  preciso ouvir os 'midos', para saber o que eles sentem e pensam.  preciso ouvir os 'grados', para saber o que eles 
sentem e pensam. So as crianas que estabelecem as regras da convivialidade: a necessidade do silncio, do trabalho no perturbado, de se ouvir msica enquanto 
trabalham. So as crianas que estabelecem os mecanismos para lidar com aqueles que se recusam a obedecer as regras. Pois o espao da escola tem de ser como o espao 
do jogo: o jogo, para ser divertido e fazer sentido, tem de ter regras. J imaginaram um jogo de vlei em que cada jogador pode fazer o que quiser? A vida social 
depende de que cada um abra mo da sua vontade, naquilo em que ela se choca com a vontade coletiva. E assim vo as crianas aprendendo as regras da convivncia democrtica, 
sem que elas constem de um programa... 

Minha cabea est coando com o sonho de fazer uma escola parecida... Voc matricularia seu filho numa escola assim? Me mande uma mensagem com sua resposta com suas 
razes. Estou curioso. Mas, para fazer essa escola tenho de resolver um problema: como  que o guaxo* coloca o primeiro graveto para construir o seu ninho? 


A ESCOLA DA PONTE - RESUMINDO


1.'Melhor  ter um nico desejo que ter muitos' (Nietzsche). 'Pureza de corao  desejar uma s coisa' (Kierkegaard). 'Melhor  ter um nico diamante que ter uma 
coleo de bijuterias' (Jesus Cristo, parfrase minha). 'A vida  composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, escolhe um tema 
que far parte da partitura da sua vida. Voltar ao tema, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o, transpondo-o, como faz um compositor com os temas de uma sonata. 
O homem, inconscientemente, compe sua vida segundo as leis da beleza, mesmo nos instante do mais profundo desespero' (Milan Kundera). Sem que o saibamos, estamos 
em busca do tema que dar sentido  nossa vida. Se vocs no sabem disso, esse  o objetivo da psicanlise, pelo menos da psicanlise que pratico: temos de descobrir 
a msica que se toca dentro do nosso corpo, inaudivelmente, a despeito dos rudos da esttica que enchem o nosso espao. 

2.Um amigo querido, Hugo Assmann, faz anos, me disse com um sorriso: 'Rubem, faz anos que voc fala sempre sobre a mesma coisa'.  verdade. No importa sobre o que 
eu esteja falando: eu falo sobre o tema que enche minha alma de alegria. 

3.Por vezes o tema  um sonho, impossvel. Os homens realistas, banqueiros, empresrios, burocratas (lembram-se da lgica dos macacos?), ao ver o nosso sonho, dizem 
com um sorriso de desdm: 'Sonhador romntico! Os sonhos nunca se realizaro.' Respondo com um poeminha do Mrio Quinatna: 'Se as coisas so inatingveis...ora!/ 
No  motivo para no quer-las.../ Que tristes os caminhos, se no fora/ A mgica presena das estrelas!' 

4.Meu nico desejo, meu tema musical, meu diamante  a educao. No acredito que exista coisa mais bela que ser um educador. Sabedoria de Nietzsche: 'A nica felicidade 
est na razo. A mais alta razo se encontra na obra do artista. Mas h algo que poderia resultar numa felicidade ainda maior: gerar e educar um ser humano.' 

5. Minha estrela  a educao. Educar no  ensinar matemtica, fsica, qumica, geografia, portugus. Essas coisas podem ser aprendidas nos livros e nos computadores. 
Dispensam a presena o educador. Educar  outra coisa. De um educador pode-se dizer o que Ceclia Meireles disse de sua av - que foi quem a educou: 'Teu corpo era 
um espelho pensante do universo.' O educador  um corpo cheio de mundos. A Ceclia olhava para o corpo de sua av e via um universo refletido nele. Lembram-se da 
estria do Gabriel Garcia Marques, O afogado mais bonito do mundo? Por isso o educador e seus discpulos esto ligados por laos de amor. 

6.A primeira tarefa da educao  ensinar a ver. O mundo  maravilhoso, est cheio de coisas assombrosas. A contemplao das coisas assombrosas que enchem o mundo 
 um motivo de riso e felicidade. Zaratustra ria vendo borboletas e bolhas de sabo. A Adlia ria vendo tanajuras em vo e um p de mato que dava flor amarela. Eu 
rio vendo conchas, teias de aranha e pipoca. Quem v bem nunca fica entediado com a vida. O educador aponta e sorri - e contempla os olhos do discpulo. Quando seus 
olhos sorriem, ele se sente feliz. Esto vendo a mesma coisa. O fato de gastarmos horas na contemplao das imagens banais e grosseiras da televiso e de no gastarmos 
nenhum tempo comparvel na contemplao dos assombros da natureza  uma indicao do ponto a que a nossa cegueira chegou. As coisas no so assombrosas para todos. 
S para aqueles que aprenderam a ver. A viso tem de ser aprendida. Os olhos precisam ser educados. Alberto Caeiro disse que a primeira coisa que o Menino Jesus 
lhe ensinou foi 'a olhar para as coisas.' O Menino Jesus lhe 'apontava todas as coisas que h nas flores' e lhe mostrava 'como as pedras so engraadas quando a 
gente as tem na mo e olha devagar para elas.' Ver bem  uma experincia mstica, sagrada. Quando digo que minha paixo  a educao estou dizendo que desejo ter 
a alegria de ver: os olhos dos meus discpulos, especialmente os olhos das crianas. 


7.Ver no  o bastante. O assombro das coisas vistas provoca o pensamento. Queremos entender o que vemos. As crianas no se cansam de perguntar: 'Por qu?' Os olhos 
buscam o entendimento, a razo. Aristteles estava certo ao iniciar a sua Metafsica dizendo que 'todos ns temos, naturalmente, o desejo de entender.' Mas,  claro, 
o desejo de entender, que freqentemente tem o nome de curiosidade, s aparece quando a inteligncia  espicaada pelo assombroso das coisas. Se no houver essa 
experincia de assombro a inteligncia fica dormindo. O educador  um mostrador de assombros. Tudo  assombroso. Por exemplo: os flamboyants floridos pela cidade, 
fogo saindo das flores, grande incndio. Pergunto: Que professor levou seus alunos a ver os flamboyants incendiados? Primeiro, o prazer esttico diante do assombroso. 
Depois, o prazer de compreender. Mas, para compreender,  preciso pensar. O pensamento  um filho do assombroso. Quando passamos do assombro das coisas para o desejo 
de pensar, passamos do visvel para o invisvel. Compreender  ver o invisvel. Foi assim que nasceram as cincias. Coprnico: primeiro, o assombro dos cus estrelados; 
depois a compreenso matemtica (invisvel!) dos movimentos das estrelas. Darwin: primeiro, o assombro diante da variedade das espcies vegetais e animais; depois, 
a compreenso (invisvel!) da sua origem. 

8.Diz Manoel de Barros: 'Deus deu a forma. Os artistas desformam.  preciso desformar o mundo.' Um jardim  uma 'desformao' do mundo. Tambm uma moqueca. Uma bicicleta. 
Um balano. Um par de culos. Um sapato. Uma casa. Uma lmpada. Um forno. Nenhuma dessas coisas apareceu naturalmente, ao lado de pedras e rvores. Coisa maravilhosa 
essa: que os seres humanos, vendo as coisas assombrosas de que o mundo  feito e compreendendo o seu assombro, no fiquem satisfeitos. Querem fazer com as coisas 
assombrosas que esto no mundo outras coisas assombrosas que no se encontram l. A educao, assim, alm de implicar a aprendizagem da arte de ver, a aprendizagem 
da arte de pensar, implica tambm a aprendizagem da arte de inventar. Coisa deliciosa  ver a alegria da criana que aprendeu a dar um lao no sapato. Lao no sapato 
tambm  uma inveno, desformao. 

9.Ver, pensar, inventar: essas so ferramentas e brincadeiras do corpo. O corpo v, pensa e inventa em funo da necessidade de viver. Dizem que os esquims so 
capazes de identificar vrias dezenas de nuances do branco. No mundo em que vivem, de neve permanente, a percepo das sutilezas do branco  vital. O branco do urso 
adormecido, sua caa, comida e sobrevivncia,  diferente do branco do monte de neve em que ele se esconde. A inteligncia dos bedunos nmades dos desertos jamais 
vai tentar entender as leis da navegao e nem se ocupar da cincia da construo de barcos. O conhecimento surge sempre em resposta a desafios vitais prticos. 

10.Metfora: o corpo carrega sempre duas caixas. Numa mo, uma caixa de ferramentas. Na outra mo, uma caixa de brinquedos. Essas duas caixas definem os objetivos 
da educao. 

11.Caixa de ferramentas: nela se encontram os objetos necessrios para compreender e inventar. teis, indispensveis  sobrevivncia. Na caixa de ferramentas se 
encontram guardadas desde coisas concretas como fogo, redes, facas, machados, hortas, bicicletas, computadores, at coisas abstratas como palavras, operaes matemticas, 
teorias cientficas. 

12.Caixa de brinquedos: nela se encontram objetos inteis que, sendo inteis, so usados pelo prazer e alegria que produzem: msica, literatura, pintura, dana, 
brinquedos, jardins, instrumentos musicais, poemas, livros, pinturas, culinria, dana... 

13.Com a caixa de ferramentas e a caixa de brinquedos os seres humanos no s sobrevivem, mas sobrevivem com alegria. A caixa de ferramentas, sozinha, produz poder 
sem alegria. Vida forte mas vida boba, sem sentido. Os seres humanos ficam embrutecidos. O conhecimento, sozinho,  embrutecedor. A caixa de brinquedos, sozinha, 
est cheia de prazeres e alegrias. Mas os prazeres e alegrias, sozinhos, so fracos. E a vida, sem poder,  vida fraca, incapaz de responder aos desafios prticos 
da sobrevivncia. E vem a morte. Sbio  aquele que possui as duas caixas... O homem sbio planta hortas - coisas boas para comer e viver - e planta jardins - coisas 
boas de se ver, cheirar, degustar... 

14. Tarefa do educador: ajudar os discpulos a construir suas caixas de ferramentas e suas caixas de brinquedos... Pergunto se as escolas fazem isso. Talvez seja 
necessrio ver, pensar e inventar - uma escola diferente... Esse  o meu sonho! (Correio Popular, Caderno C, 05/11/2000.) 


A INUTILIDADE DA INFNCIA

O pai orgulhoso e slido olha para o filho saudvel e imagina o futuro. 
- Que  que voc vai ser quando crescer? 

Pergunta inevitvel, necessria, previdente, que ningum questiona. 

- Ah! Quando eu crescer, acho que vou ser mdico! 

A profisso no importa muito, desde que ela pertena ao rol dos rtulos respeitveis que um pai gostaria de ver colados ao nome do seu filho (e ao seu, obviamente)... 
Engenheiro, Diplomata, Advogado, Cientista... 

Imagino um outro pai, diferente, que no pode fazer perguntas sobre o futuro. Pai para quem o filho no  uma entidade que "vai ser quando crescer", mas que simplesmente 
, por enquanto ...  que ele est muito doente, provavelmente no chegar a crescer e, por isso mesmo, no vai ser mdico, nem mecnico e nem ascensorista. 

Que  que seu pai lhe diz? Penso que o pai, esquecido de todos "os futuros possveis e gloriosos" e dolorosamente consciente da presena fsica, corporal, da criana, 
aproxima-se dela com toda a ternura e lhe diz: "Se tudo correr bem, iremos ao jardim zoolgico no prximo domingo..." 

, so duas maneiras de se pensar a vida de uma criana. So duas maneiras de se pensar aquilo que fazemos com uma criana. 

Eu me lembro daquelas propagandas curtinhas que se fizeram na televiso, por ocasio do ano da criana deficiente, para provar que ainda havia alguma esperana, 
para dizer que alguma coisa estava sendo feita. E apareciam l, na tela, as crianas e adolescentes, cada uma excepcional a seu modo, desde Sndrome de Down at 
cegueira, e aquilo que ns estvamos fazendo com eles... Ensinando, com muito amor, muita pacincia. E tudo ia bem at que aparecia o idelogo da educao dos excepcionais 
para explicar que, daquela forma, esperava-se que as crianas viessem a ser teis, socialmente... E fiquei a me perguntar se no havia uma pessoa sequer que dissesse 
coisa diferente, que aquelas escolas no eram para transformar cegos em fazedores de vassouras, nem para automatizar os mongolides para que aprendessem a pregar 
botes sem fazer confuso... Ser que  isto? Sou o que fao? Ali estavam crianas excepcionais, no-seres que virariam seres sociais e receberiam o reconhecimento 
pblico se, e somente se, fossem transformados em meios de produo. No encontrei nem um s que dissesse: "Atravs desta coisa toda que estamos fazendo esperamos 
que as crianas sejam felizes, dem muitas risadas, descubram que a vida  boa... Mesmo um excepcional pode ser feliz. Se uma borboleta, se um pardal e se uma ignorada 
rzinha podem encontrar alegria na vida, por que no estas crianas, s porque nasceram um pouco diferentes ...?" 

Voltamos ao pai e ao seu filhinho leucmico. 

Que temos a lhes dizer? 

Que tudo est perdido? Que o seu filho  um no-ser porque nunca chegar a ser til, socialmente? E ele nos responder: "Mas no pode ser... Sabe? Ele d risadas. 
Adora o jardim zoolgico. E est mesmo criando uns peixes, num aqurio. Voc no imagina a alegria que ele tem, quando nascem os filhotinhos. De noite ns nos sentamos 
e conversamos. Lemos estrias, vemos figuras de arte, ouvimos msica, rezamos... Voc acha que tudo isto  intil? Que tudo isto no faz uma pessoa? Que uma criana 
no , que ela s ser depois que crescer, que ela s ser depois de transformada em meio de produo?" 

E eu me pergunto sobre a escola ... Que crianas ela toma pelas mos? 

Claro, se a coisa importante  a utilidade social temos de comear reconhecendo que a criana  intil, um trambolho. Como se fosse uma pequena muda de repolho, 
bem pequena, que no serve nem para salada e nem para ser recheada, mas que, se propriamente cuidada, acabar por se transformar num gordo e suculento repolho e, 
quem sabe, um saboroso chucrute? Ento olharamos para a criana no como quem olha para uma vida que  um fim em si mesma, que tem direito ao hoje pelo hoje... 
Ora, a muda de repolho no  um fim.  um meio. O agricultor ama, nas mudinhas de repolho, os caminhes de cabeas gordas que ali se encontram escondidas e prometidas. 
Ou, mais precisamente, os lucros que delas se obtero...utilidade social. 

Reconheamos: as crianas so inteis... 

Entre ns inutilidade  nome feio. J houve tempo, entretanto, em que ela era a marca de uma virtude teologal. Duvidam? Invoco Santo Agostinho, mestre venervel 
que declara em De Doctrina Christiana: "H coisas para serem usufrudas, e outras para serem usadas." E ele acrescenta: "Aquelas que so para serem usufrudas nos 
tornam bem-aventurados." Coisas que podem ser usadas so teis: so meios para um fim exterior a elas. Mas as coisas que so usufrudas nunca so meio para nada. 
So fins em si mesmas. Elas nos do prazer. So inteis. 

Uma sonata de Scarlatti  til? E um poema? E um jogo de xadrez? Ou empinar papagaios? 

Inteis. 

Ningum fica mais rico. 

Nenhuma dvida  paga. 

Por que nos envolvemos nessas atividades, se lhes faltam a seriedade do pragmatismo responsvel e os resultados prticos de toda atividade tcnica?  que, muito 
embora no produzam nada, elas produzem o prazer. 

O primeiro pai fazia ao filho a pergunta da utilidade: "Qual o nome do meio de produo em que voc deseja ser transformado?" O segundo, impossibilitado de fazer 
tal pergunta, descobriu um filho que nunca descobriria, de outra forma: "Vamos brincar juntos, no domingo?\'" 

E as nossas escolas? Para qu? 

Conheo um mundo de artifcios de psicologia e de didtica para tomar a aprendizagem mais eficiente. Aprendizagem mais eficiente: mais sucesso na transformao do 
corpo infantil brincante no corpo adulto produtor. Mas para saber se vale a pena seria necessrio que comparssemos os risos das crianas com os risos dos adultos, 
e comparssemos o sono das crianas com o sono dos adultos. Diz a psicanlise que o projeto inconsciente do ego, o impulso que vai empurrando a gente pela vida afora, 
essa infelicidade e insatisfao indefinvel que nos faz lutar para ver se, depois, num momento do futuro, a gente volta a rir... sim, diz a psicanlise que este 
projeto inconsciente  a recuperao de uma experincia infantil de prazer. Redescobrir a vida como brinquedo. J pensaram no que isso implicaria?  difcil. Afinal 
de contas as escolas so instituies dedicadas  destruio das crianas. Algumas, de forma brutal. Outras, de forma delicada. Mas em todas elas se encontra o moto: 

"A criana que brinca  nada mais que um meio para o adulto que produz." (Estrias de quem gosta de ensinar, pg. 49.) 


O IP E A ESCOLA

O Manoel Moraes  meu amigo. Engenheiro por diploma,  amante da natureza por vocao. Grande devorador de livros, est sempre  procura de "conspiradores", isto 
, pessoas que respiram o mesmo ar que ele. Faz uns dias ele me trouxe um artigo xerografado. Autor: Bruno Bettelheim. Bettelheim era um homem amorvel e inteligente. 
Amava as crianas. Passou a vida pensando no que fazer para tornar as crianas mais felizes. O artigo tem o ttulo Os livros essenciais da nossa vida. Falou sobre 
os livros que tiveram um significado especial para ele. Fiquei feliz ao ver que ele citou Martin Buber. Feliz por saber que ns dois bebemos da mesma fonte. Buber 
tambm amava as crianas. Conta-se que, numa festa em que ele estava sendo homenageado, viu-se cercado por professores e filsofos que tentavam impression-lo, falando 
coisas profundas e complicadas.  sempre assim: todo mundo quer impressionar bem. Buber, cansado daquilo tudo, delicadamente interrompeu a conversa com um comentrio: 
"Cada vez eu me sinto mais distante dos adultos e mais prximo das crianas..." 

Eu me lembro perfeitamente bem da primeira vez que li Buber. Era de tarde, deitado numa rede, l em Minas...  medida em que eu lia a alegria ia tomando conta de 
mim. Ficava alegre porque as palavras de Buber traziam luz ao meu mundo interior. Naquilo que ele dizia, eu me reconhecia. 

O seu livro mais importante  Eu-Tu. No seria aceito como tese em nossas universidades. No tem notas de rodap. No cita fontes. No enuncia teorias. No explica 
o mtodo. Curto demais para uma tese. Mas, como sabia Nietzsche, "pensamentos que chegam em ps de pombas guiam o mundo..." 

Lendo "Eu-Tu" os meus olhos se abriram. Compreendi aquilo que eu vivia sem compreender. Eu quero contar a vocs o que eu vi. 

Aqui o meu pensamento ficou paralisado. No sabia como contar a vocs o que vi. Resolvi dar uma caminhada. E l ia eu, absorto em meus pensamentos, quando, de repente, 
bem  minha frente, uma exploso de cores: a terra ejaculando flores - flores que estavam escondidas dentro dela! Um ip rosa florido! J pensaram nisso? Que as 
flores so os pensamentos da terra? A terra pensa flores! Dentro dela, as flores ficam guardadas, dormindo, mergulhadas na escurido. Mas, pela magia de uma rvore, 
os pensamentos da terra se oferecem aos nossos olhos sob a forma de flores! Dentro da terra esto todas as flores do mundo,  espera de rvores... A terra sonha 
ips! As rvores so os psicanalistas da terra! 

A descobri um jeito de explicar Martin Buber... Aquilo que aconteceu, aconteceu comigo. S comigo. Tive vontade de abraar aquela rvore, de comer as suas flores. 
Fiquei agradecido por ser a natureza coisa to maravilhosa, sagrada! Mas sei que muitas pessoas j haviam passado, estavam passando e iro passar por aquele ip 
sem se assombrar. Para elas aquele ip  apenas um objeto a mais, ao lado de postes, casas e carros. J contei de uma mulher que odiava um manso e maravilhoso ip 
amarelo que havia  frente de sua casa. Ela odiava o ip porque suas flores sujavam o cho! Cho de ouro, coberto de flores amarelas, flores que deveriam ficar l! 
Seria necessrio tirar os sapatos dos ps para andar sobre elas! Mas aquela mulher no via com os olhos. Via com a vassoura. E uma vassoura d sempre a mesma ordem: 
varrer, varrer! Tudo o que pode ser varrido  lixo! E ela, para se livrar do trabalho, envenenou o manso ip. O ip morreu. No mais suja a calada da mulher. 

Agora explico Buber. Para Buber as coisas, as rvores, os bichos, as pessoas, no so coisas, rvores, bichos e pessoas, nelas mesmas. Elas so a partir da relao 
que estabelecemos com elas. Para a mulher da vassoura o ip amarelo era um objeto inerte, sem mistrio. Ela podia fazer com ele o que quisesse. Mas para mim os ips 
so um assombro, beleza, alegria, revelao do mistrio do universo. 

H um tipo de relao que transforma tudo em objetos mortos. Uma mulher se transforma em objeto para o homem que faz uso dela para ter prazer. Um homem se transforma 
em objeto para a mulher que o usa para obter status ou segurana. Uma criana se transforma em objeto quando seus pais a manipulam para realizar os seus sonhos. 
Para um professor que s pensa no cumprimento do programa todos os seus alunos so objetos. Para quem est atrs de milagres Deus  um objeto que faz milagres. O 
eleitor  um objeto que o poltico usa para ganhar poder. Um doente, para o mdico, pode ser apenas um "portador de uma doena". (Ah! Os professores e alunos,  
volta de um doente sobre quem nada sabem, nem mesmo o nome, numa enfermaria de hospital! Ali no est um ser humano! Ali est um "caso" interessante...). Buber deu 
a esse tipo de relao o nome de "eu-isso". Tocadas pela relao eu-isso, todas as coisas, pessoas, animais, rvores, Deus, se transformam em coisas que uso para 
atingir os meus propsitos. Eu sou o centro do mundo. Tudo o que me cerca so utenslios que uso para os meus propsitos. 

Quando, ao contrrio, meus olhos esto abertos para o assombro e o mistrio das coisas que me rodeiam, eu refreio minha mo. No posso us-los como se fossem ferramentas 
para os meus propsitos. So meus companheiros - no importa se um ip florido, um cozinho, um poema, uma criana que quer me vender um drops no semforo... Buber 
deu o nome de "eu-tu" a essa relao. 

J falei que as nossas escolas so planejadas  semelhana das linhas de montagem: as crianas so "objetos" a serem "formados" segundo normas que lhe so exteriores. 
Ao final, formadas, so objetos portadores de saberes, centenas, milhares, todos iguais. Pertencem ao mundo do eu-isso. Na relao eu-tu cada criana  nica - por 
ser uma companheira na minha vida, companheira que nunca se repetir, nunca haver uma igual. 

No mundo do eu-isso se usa o poder porque o que desejo  manipular o objeto. No mundo do eu-tu o poder nunca  usado porque o que desejo  acolher, dentro de mim, 
o objeto  minha frente. 

Escrevi tudo isso porque tenho estado pensando na magia da Escola da Ponte. Qual o seu segredo? Sua magia se encontrar, por acaso, nos seus princpios pedaggicos? 
No. Definitivamente no. Princpios, quaisquer que sejam, so normas gerais. Por isso eles pertencem ao mundo do eu-isso. Se tentssemos reduplicar a Escola da 
Ponte usando os mesmos princpios pedaggicos como receitas, apenas consegussemos construir uma linha de montagem mais gentil e, talvez, mais eficiente. Me parece 
que o segredo da Escola da Ponte se encontra em outro lugar. Ele se encontra no mesmo lugar do ip florido: o absoluto abandono do uso do poder e da manipulao. 
Imaginem uma escola onde no h um diretor. Todos os professores so diretores. Pela simples razo de no haver quem tome as decises finais; onde "diretores" no 
ousam e nem querem usar do poder para fazer valer suas idias. Onde as decises so todas compartilhadas. Onde os professores no valem mais que as crianas. Onde 
os professores no do ordens e as crianas obedecem. Sabedoria, disse Roland Barthes,  "nada de poder, uma pitada de saber e o mximo possvel de sabor..." 

Qual a receita? No h receitas. No h receitas para fazer o ip florir. No sei como o ip floresce e nem por que alguns tm flores rosa, outros flores amarelas 
e outros flores brancas. Certo estava Angelus Silsius: "A rosa no tem por qus; ela floresce porque floresce." Assim  Escola da Ponte. 

DICAS 

A coisa mais importante para se fazer nesse domingo: ver os ips floridos! Mas, por favor: no olhe para eles de dentro do carro. Saia. Fique debaixo deles e olhe 
para cima. Se o cu estiver azul voc ver aquelas bolas de flores rosa contra o azul do cu. Voc j ensinou seu filho a ver? Pois trate de ensinar. Mostre a rvore 
de longe. Mostre de perto. Mostre uma flor. Explique a sua simetria: pentagonal.... Olhando para as flores se aprende matemtica, se aprende a pensar abstratamente... 

A propsito, esse poema de Emily Dickinson (1830-86): "Alguns guardam o Domingo indo  Igreja - / Eu o guardo ficando em casa - / Tendo um Sabi como cantor - / 
E um Pomar por Santurio./ - Alguns guardam o Domingo em vestes brancas - / Mas eu s uso minhas Asas - / E ao invs do repicar dos sinos na Igreja - / nosso pssaro 
canta na palmeira./ -  Deus que est pregando, pregador admirvel - / E o seu sermo  sempre curto. / Assim, ao invs de chegar ao Cu, s no final - / eu o encontro 
o tempo todo no quintal." 

"Deus  assunto delicado de pensar; faz de conta um ovo: se apertamos com fora parte-se; se no seguramos bem cai." (Dito do av Celestino). (Correio Popular, Caderno 
C, 10/06/2001.) 


O RELGIO
Eu tinha medo de dormir na casa do meu av. Era um sobrado colonial enorme, longos corredores, escadarias, portas grossas e pesadas que rangiam, vidros coloridos 
nos caixilhos das janelas, ptios calados com pedras antigas... De dia, tudo era luminoso. Mas quando vinha a noite e as luzes se apagavam, tudo mergulhava no sono: 
pessoas, paredes, espaos. Menos o relgio... De dia, ele estava l tambm. S que era diferente. Manso, tocando o carrilho a cada quarto de hora, ignorado pelas 
pessoas, absorvidas por suas rotinas. Acho que era porque durante o dia ele dormia. Seu pndulo regular era seu corao que batia, seu ressonar, e suas msicas eram 
seus sonhos, iguais aos de todos os outros relgios. De noite, ao contrrio, quando todos dormiam, ele acordava, e comeava a contar estrias. S muito mais tarde 
vim a entender o que ele dizia: "Tempus fugit". E eu ficava na cama, incapaz de dormir, ouvindo sua marcao sem pressa, esperando a msica do prximo quarto de 
hora. Eu tinha medo. Hoje, acho que sei por qu: ele batia a Morte. Seu ritmo sem pressa no era coisa daquele tempo da minha insnia de menino. Vinha de muito longe. 
Tempo de musgos crescidos em paredes hmidas, de tbuas largas de assoalho que envelheciam, de ferrugem que aparecia nas chaves enormes e negras, da senzala abandonada, 
dos escravos que ensinaram para as crianas estrias de alm-mar "dinguele-dingue que eu vou para Angola, dingue-ledingue que eu vou para Angola" de grandes festas 
e grandes tristezas, nascimentos, casamentos, sepultamentos, de riqueza e decadncia... O relgio batera aquelas horas - e se sofrera, no se podia dizer, porque 
ningum jamais notara mudana alguma em sua indiferena pendular. Exceto quando a corda chegava ao fim e o seu carrilho excessivamente lento se tomava num pedido 
de socorro: "No quero morrer..." A, aquele que tinha a misso de lhe dar corda - (pois este no era privilgio de qualquer um. S podia tocar no corao do relgio 
aquele que j, por muito tempo, conhecesse os seus segredos) - subia numa cadeira e, de forma segura e contada, dava voltas na chave mgica. O tempo continuaria 
a fugir... Todas aquelas horas vividas e morridas estavam guardadas. De noite, quando todos dormiam, elas saam. O passado s sai quando o silncio  grande, memria 
do sobrado. E o meu medo era por isto: por sentir que o relgio, com seu pndulo e carrilho, me chamava para si e me incorporava naquela estria que eu no conhecia, 
mas s imaginava. J havia visto alguns dos seus sinais imobilizados, fosse na prpria magia do espao da casa, fosse nos velhos lbuns de fotografia, homens solenes 
de colarinho engomado e bigode, famlias paradigmticas, maridos assentados de pernas cruzadas, e fiis esposas de p, ao seu lado, mo docemente pousada no ombro 
do companheiro. Mas nada mais eram que fantasmas, desaparecidos no passado, deles, no se sabendo nem mesmo o nome. "Tempus fugit". O relgio toca de novo. Mais 
um quarto de hora. Mais uma hora no quarto, sem dormir... Sentia que o relgio me chamava para o seu tempo, que era o tempo de todos aqueles fantasmas, o tempo da 
vida que passou. Depois o sobrado pegou fogo. Ficaram os gigantescos barrotes de pau-blsamo fumegando por mais de uma semana, enchendo o ar com seu perfume de 
tristeza. Salvaram-se algumas coisas. Entre elas, o relgio. Dali saiu para uma casa pequena. Pelas noites adentro ele continuou a fazer a mesma coisa. E uma vizinha 
que no suportou a melodia do "Tempus fugit" pediu que ele fosse reduzido ao silncio. E a alma do relgio teve de ser desligada.

Tenho saudades dele. Por sua tranqila honestidade, repetindo sempre, incansvel, "Tempus fugit". Ainda comprarei um outro que diga a mesma coisa. Relgio que no 
se parea com este meu, no meu pulso, que marca a hora sem dizer nada, que no tem estrias para contar. Meu relgio s me diz uma coisa: o quanto eu devo correr, 
para no me atrasar. Com ele, sinto-me tolo como o Coelho da estria da Alice, que olhava para seu relgio, corria esbaforido, e dizia: "Estou atrasado, estou atrasado..."

No  curioso que o grande evento que marca a passagem do ano seja uma corrida, corrida de So Silvestre?

Correr para chegar, aonde?

Passagem de ano  o velho relgio que toca o seu carrilho.

O sol e as estrelas entoam a melodia eterna: "Tempus fugit".

E porque temos medo da verdade que s aparece no silncio solitrio da noite, reunimo-nos para espantar o tenor, e abafamos o rudo tranqilo do pndulo com enormes 
gritarias. Contra a msica suave da nossa verdade, o barulho dos rojes...

Pela manh, seremos, de novo, o tolo Coelho da Alice: "Estou atrasado, estou atrasado..."

Mas o relgio no desiste. Continuar a nos chamar  sabedoria:

Quem sabe que o tempo est fugindo descobre, subitamente, a beleza nica do momento que nunca mais ser... (Tempus Fugit, pg. 08.) 


ESTRIAS  BEIRA DO FOGO

Minhas netas: Olhem ao redor de vocs. Que coisas vocs esto vendo? As coisas que vocs esto vendo existem. Esto l. Mas ns temos olhos que vem coisas que no 
esto l. Mesmo coisas que no existem. So os olhos da imaginao. Por exemplo: se eu escrever a palavra "unicrnio", vocs vo ver, na sua imaginao, um cavalo 
com um chifre na testa. Ora, cavalos com chifre na testa no existem na realidade. Cavalos reais no tm chifre. Mas, na imaginao, eles existem. E eu posso, ento, 
inventar uma estria de uma princesa que cavalgava um unicrnio! No  fascinante isso? Na imaginao tudo  possvel! Cavalos com asas, vacas azuis, elefantes cor 
de rosa com bolinhas roxas, abboras que viram carruagens, ratos que falam... Ns, crianas, homens e mulheres, somos capazes de viver no mundo das coisas que no 
existem. E  a que se encontra o poder mgico dos livros: eles nos transportam para o mundo das coisas que no existem e ns vivemos estas coisas como se elas existissem. 
Vocs no se emocionaram lendo a estria do Harry Potter? E no choraram lendo a estria do amor triste de Romeu e Julieta? E no vibraram com as aventuras do Bastian 
Baltazar Bux e do Atreiu, do livro Histria sem fim? Pois eu quero levar vocs a visitar o mundo encantado da imaginao que havia l na roa onde vivi quando criana... 

Era uma vez uma casinha de paredes brancas, com portas e janelas azuis, sozinha no meio do campo. Sozinha, nenhuma outra por perto, como a casinha da estria do 
Joo e Maria. Solitria, no meio dos pastos verdes, pastos que terminavam numa floresta, l no fundo. Da chamin da casinha saa fumaa. A fumaa que sai pela chamin 
nos conta que, l dentro, h um fogo de lenha aceso. E se h um fogo aceso  porque algum est fazendo comida. O sol est descendo, e j est prximo do horizonte. 
 o fim da tarde. Os homens que trabalhavam no campo com enxadas, foices e machados, esto voltando para casa. Esto cansados, suados e sujos. Suas mos so grossas, 
duras, cheias de calos. Os pssaros pararam de voar. Tambm eles esto voltando para suas casas. Menos as andorinhas, que gostam de revoar no final da tarde. No 
fundo da mata um sabi canta seu canto triste. Vocs j ouviram o canto de um sabi, no fim da tarde?  to bonito! As vacas deixaram os pastos e esto no curral. 
De vez em quando uma delas solta um mugido grosso e comprido. E as galinhas que passaram o dia ciscando a terra  procura de bichinhos pararam de ciscar. Tambm 
elas voltaram para o galinheiro. E os galos no cantam mais. Galos e galinhas espicham os seus pescoos na direo dos poleiros ou galhos de rvores, acho que para 
medir a distncia do vo que tero de voar para se empoleirar. O poleiro alto  garantia de estarem a salvo, longe dos bichos que procuram comida durante a noite. 
Menos as galinhas chocas, que continuam deitadas nos seus ninhos. Por 21 dias elas chocaro seus ovos, at que deles saiam os pintinhos. Se algum gamb aparecer, 
era uma vez uma galinha choca... Em casa os homens lavam as mos, os braos, os ps. Antigamente era assim. No havia chuveiros com gua quente para o banho. Banho 
era coisa rara. E h mesmo, na Bblia, a estria de Jesus, que lavou os ps dos seus discpulos. E at o Papa, uma vez por ano, lava os ps de alguns fiis. Limpos, 
chegou a hora de comer. H o cheiro bom da lenha que queima. Sopa de abbora, feijo, arroz, costelinha de porco, abobrinha refogada.  preciso comer enquanto o 
sol no se pe, enquanto h claridade. Porque depois que o sol se esconder atrs das montanhas, tudo ficar escuro. No h luz eltrica. S a luz das lamparinas, 
com seu cheiro fedido de querosene. Todos comidos, caf na canequinha de lata, l fora j  noite, escurido, lua, estrelas, vaga-lumes.  a hora quando os bichos 
da noite saem para fora: as corujas, os morcegos, os curiangos. Na escurido, os olhos no vendo nada, a imaginao comea a ver coisas. Coisas que do medo. Cada 
pio de coruja, cada barulho de rvore sacudida pelo vento, cada estalo de bambu  um susto. Na escurido a imaginao comea a ver monstros.  por isso que o escuro 
d medo. O escuro lhe d medo? Quando voc acorda no meio da noite e no consegue dormir... Sem luz, sem rdio, sem televiso,  preciso fazer alguma coisa com o 
vazio da noite. Vocs se lembram? J escrevi sobre o vazio.  preciso fazer alguma coisa com ele, para a gente se tranquilizar. Quem est com medo no quer ficar 
sozinho. Todo mundo se reunia na cozinha. A cozinha era o melhor lugar. Todos se assentavam  roda do fogo. Como as chamas do fogo da lenha danam sem parar, as 
sombras que elas projetam nas paredes tambm danam sem parar. Era ento que os adultos comeavam a contar casos. Contavam casos de onas, de cobras enormes, de 
macacos que roubavam crianas, de crianas perdidas dentro da mata escura... E havia tambm as estrias do lobisomem, da mula-sem-cabea que soltava fogo pelas ventas, 
do saci, de almas do outro mundo... O lobisomem, o nome est dizendo, era um homem que, nas noites de lua cheia, se transformava em lobo. Contavam de uma mulher 
com o filhinho no colo e que foi atacada por um lobisomem. Ela subiu numa rvore para se defender, mas o lobisomem saltava e abocanhava a ponta do cobertor que cobria 
o nenezinho. Quando a madrugada foi chegando o lobisomem se foi e ela pde voltar para casa. Mas qual no foi o seu susto ao ver que havia fiapos de cobertor nos 
dentes do seu carinhoso marido... E se contavam estrias de almas do outro mundo, espritos dos mortos que voltavam para pr medo nos vivos. Razo por que, naqueles 
tempos, todo mundo tinha medo de passar perto dos cemitrios tarde da noite. Pois era ali que as almas do outro mundo ficavam  espreita... Se vocs acham que isso 
 bobeira, eu digo que no  no. Pois  justo isso que fazem os filmes e a televiso. Naquele tempo no era preciso ir ao cinema e ligar a televiso. Porque cada 
um tinha cinema e televiso dentro da sua imaginao. 

Foi assim que surgiram muitas das estrias infantis que hoje esto escritas em livros. A princpio no estavam escritas; eram s contadas, certamente  noite, ao 
redor do fogo. Se as estrias eram boas aqueles que as ouviam as aprendiam e, numa outra roda, quando chegasse a sua vez, eles contavam as estrias que tinham ouvido. 
Assim as estrias iam andando pelo mundo, de boca em boca, seguindo a regra de que "quem conta um conto aumenta um ponto". Jesus foi um grande contador de estrias. 
As estrias que ele contava tm o nome de parbolas. Mas ele mesmo nunca escreveu nenhuma. Por muitos anos elas foram passadas adiante por aqueles que as haviam 
ouvido. Esse passar de uma estria de boca em boca tem o nome de "tradio oral". At que algum, com medo de que elas se perdessem, resolveu escrev-las. A gente 
escreve algo para que aquilo no seja esquecido, porque julgamos digno de ser preservado. Quando eu era menino gostava de ler estrias que estavam escritas num livro 
Contos de Grimm. Grimm era o sobrenome de dois irmos que se puseram a colecionar e escrever estrias que andavam de boca em boca, h vrios sculos. Quando as estrias 
saem do "de boca em boca" e so escritas, elas se transformam em literatura. 

O encanto da literatura est nisso: ela nos tira do mundo das coisas reais e nos faz entrar no mundo da fantasia. Eu posso viver num lugarzinho apertado e sem interesse. 
Mas se tomo um livro, eu viajo para espaos longnquos e tempos distantes, no passado ou no futuro. O escritor Isaac Asimov escreveu estrias fantsticas a acontecer 
daqui a 1.000 anos... E o escritor Jlio Verne fez uma viagem  lua muitos anos antes que houvesse avies e foguetes. A literatura, assim, tem o poder mgico de 
abolir o espao e o tempo. Na imaginao tudo  possvel. 

Na roa os livros eram raros, no havia dinheiro para compr-los. Mas o meu pai, que tinha sido rico antes de ser pobre, guardou uma coleo de livros chamada Biblioteca 
Internacional de Obras Clebres. Eram livros grossos, as capas escritas com letras douradas. Eu no sabia ler, mas meu pai me contava a estria do Robinson Cruso, 
mostrando-me a figura do Robinson Cruso, naufragado e sozinho numa ilha deserta, caminhando pela praia, horrorizado diante das marcas de um p diferente na areia... 
Voc j leu a estria do Robinson Cruso? Pois trate de ler! 

Mas de todas as estrias a de que eu mais gostava era a do Jeca Tatuzinho. Sem saber ler, eu a sabia de cor. Jeca Tatu era um pobre caboclo que vivia numa casinha 
de sap... Doente, cheio de lombrigas, andando sempre descalo, ele no tinha nimo para nada. Mas depois que tomou os remdios, se livrou das doenas, ps as lombrigas 
para fora e passou a usar sapatos, ele ficou um espanto de fora, disposio e coragem. Na fazenda dele at os bichos passaram a usar botina. Mas a cena de que eu 
mais gostava era quando, indo pelo meio do mato, ele se encontrou com duas onas. Ele no teve medo. Deu murro na cara da ona dizendo: "Conheceu, papuda!" Pois 
diz a estria que as onas esto correndo at hoje... 

(Correio Popular, 14/07/2002) 


O DENTE DE CAMILA

Minhas netas: viajei para longe, de avio. Fui para outros espaos. Vi coisas que todo mundo v, coisas que esto l e podem ser fotografadas: praas, igrejas, mosteiros, 
castelos, cenrios. Todo turista que se preza tem uma cmera fotogrfica. Eles pensam que a cmera fotogrfica  uma gaiola onde se podem prender as coisas que se 
viu. Mas a fotografia no prende nada. Porque aquele momento, quando eu estava olhando atravs do visor da cmera, com o dedo no boto, no existe mais. Agora  
passado. 

As coisas que vi, embora bonitas, no me fizeram feliz. No me fazem falta. Mas as pessoas que conheci me fizeram feliz. Fazem-me falta. Tambm elas podem ser fotografadas. 
Mas, na fotografia delas, o que traz felicidade no  a fotografia:  a memria, a saudade, o desejo de estar junto de novo. O que realmente importa no pode ser 
fotografado. O Pequeno Prncipe disse: "o essencial  invisvel para os olhos". O jeito de sorrir, o carinho escondido nos gestos, a msica da fala (j notaram que 
toda fala tem uma msica? Algumas falas so suaves como o som de um obo; trazem felicidade. Outras mais se parecem com o barulho dos pratos; causam espanto e medo...). 
Essas coisas no se guardam em fotografias. Se guardam na alma, num quarto chamado "saudade". No quarto "saudade" ficam guardadas as coisas que queremos que existam 
para sempre, pessoas e lugares/tempo para os quais gostaramos de voltar... Quero voltar para l. No para ver museus, praas, castelos e shoppings. Quero voltar 
para me reencontrar com aquelas pessoas que me deram alegria. Sobre elas vou falar num outro dia. 

Hoje temos de voltar a um outro lugar de saudade - pelo menos saudade minha: quando eu era menino. Tenho saudades do meu tempo de menino, sem luz eltrica, sem sorvete, 
sem brinquedos comprados, sem tnis, sem chicletes, sem telefone. Dentro de todos os adultos mora o desejo secreto de voltar  infncia. Dizia o poeta portugus 
Fernando Pessoa: "Grande  a poesia, a bondade e as danas... Mas o melhor do mundo so as crianas..." 

Um avio pode me levar  Europa, em dez horas de vo. Mas no h avio que me leve  infncia, porque ela mora no passado. No existe mais. Existe no quarto da saudade. 
E, como j disse, para se viajar pelo espao da saudade  preciso voar numa mquina de tempo. A mquina de tempo que nos leva ao espao da saudade se chama poesia. 
Os poetas so seres que constrem mquinas de tempo chamados "poemas" - e por meio deles entramos no mundo encantado do nunca mais. 

Vocs se lembram: estvamos na horta e sua alegria, em meio a ps de couve, abboras, quiabo, cebolinhas, tomatinhos, mandioca, gil, abobrinhas verdes, agrio, 
ora-pro-nobis... Meu plano era continuar pela horta, pelo galinheiro, pelo chiqueiro, pelo curral... Mas aconteceu algo importantssimo que fez minha poesia andar 
por outros caminhos. 

A Camila, priminha de vocs, minhas netas, completou sete anos. Telefonou-me. "- Vov!" Havia entusiasmo, alegria, deciso e urgncia na sua voz. "i, Camila!" - 
eu respondi. "- Meu dente caiu!" - ela me comunicou triunfante! E com razo. Que acontecimento extraordinariamente importante na vida de uma criana  a queda do 
primeiro dente! Ela estava me dizendo, sem saber: "-Vov! Eu estou ficando grande!" 

Na minha infncia havia muitas coisas boas que no existem mais. Isso  triste. Mas havia muitas coisas ruins que no existem mais. Isso  bom. Eu viajei na minha 
mquina de tempo para a minha infncia e me lembrei de algo ruim de que no tenho saudades e nem quero que se repita: eu tinha dor de dentes! Naquele tempo no se 
sabia que os dentes so importantes e que devem ser cuidados com carinho. 

Eu disse que o corpo, para viver, precisa tirar da natureza aquilo que ele no tem mas de que necessita. Ele no pode viver sem ar. Os pulmes chupam da natureza, 
o ar de que o corpo necessita. Ele precisa comer. A criancinha, para comer, s precisa saber chupar. A natureza foi sbia. No deu dentes s criancinhas. Porque, 
se tivessem dentes, na gula de comer acabariam por morder o seio da me. E a me comearia a ter medo de amamentar o nenezinho. Chega um momento quando o leite no 
basta. O corpo quer comer. A, os dentes vo aparecendo, devagarinho.  uma festa quando o primeiro dente, rompendo a gengiva depois de muita coceira e dor, aparece. 
Enxadas, enxades, rastelos e ps so ferramentas para se cultivar uma horta. Os dentes so as ferramentas de que o corpo dispe para comer o que a horta produz. 
Sem dentes voc conseguiria comer uma cenoura? 

A sabedoria da natureza me assombra. Tudo acontece to certinho. A boca  uma oficina perfeita. E os dentes so ferramentas. Na frente, h os dentes que funcionam 
como o fio de uma faca. Imagine o fio da faca cortando nabos, cenouras, carne, po. Deram o nome de "incisivos" a estes dentes. "Incisivo" vem de "inciso", que 
significa "corte". Ao lado deles esto os "caninos" - de "co", dentes pontiagudos, de vampiro, prprios para fazer buracos, ponta de faca, instrumento de perfurao. 
E, l no fundo, os molares. Antigamente havia uma profisso que desapareceu: os moleiros. Os moleiros eram donos de moinhos. Moinhos so mquinas de moer gros. 
H moinhos movidos a vento, como aqueles da Holanda e os moinhos contra os quais D. Quixote investiu com sua lana cavalgando seu corcel Rocinante (se voc no sabe 
o que  um corcel consulte o dicionrio. Se voc no tem um dicionrio, trate de comprar um.  muito divertido... na Escola da Ponte, que visitei em Portugal, as 
crianas, to logo aprendam a ler, aprendem a consultar o dicionrio). E h os moinhos movidos pela fora da gua, que so os que eram comuns no Brasil. O moinho 
 uma melhoria do pilo. Ele mi os gros fazendo com que eles passem por baixo de uma pedra redonda, muito pesada, chamada "m", que vai girando e moendo. Da o 
nome dos ltimos dentes da oficina da boca serem "molares": so as ms, os moinhos da boca, que moem as coisas duras. Milho maduro, s cavalo come. Modo vira fub. 
Bolo de fub, polentinha frita, que delcia! 

O dente da Camila caiu. Que felicidade! Lembro-me de quando meu primeiro dente caiu. Primeiro ele ficou mole. Com o dedo, eu o fazia ir para um lado e para outro. 
Isso me dava aflio. Os grandes me ensinaram o truque: amarrar uma linha no dente e puxar com fora. Amarrei a linha mas faltava-me coragem. A linha ficou pendurada, 
saindo pela boca. De vez em quando dava um puxozinho. At que, de repente, peguei a linha e puxei forte. O dente saiu. Ganhei uma pratinha de dois mil ris. 

Fiquei feliz quando meu dente caiu porque ele me fez sofrer muito. Dor-de-dente. Doa tanto que eu tinha inveja das galinhas, por no terem dente. Sofri porque, 
naquele tempo, a gente no fazia como se faz hoje, escovar os dentes pela manh,  noite e aps cada refeio, com pasta e usando fio dental. A gente no sabia que 
era preciso cuidar. E nem sabia como cuidar. Chupava bala, comia rapadura, chupava cana e s escovava de manh e  noite, quando escovava. Os pobres mesmo, no escovavam 
nunca. Sofriam dor-de-dente e s pensavam em ir ao dentista para arrancar o dente. Dentista era ... Tiradentes... Desejavam a felicidade galincea de no terem dentes. 
L havia um homem pobre, sem um dente sequer: o Sapucaia. Queria ter dentes mas no tinha dinheiro para ir ao dentista e fazer dentadura. Uns malvados disseram a 
ele que comer pimenta diariamente, daquelas vermelhas, fazia nascer dente. Diariamente ele comia colheradas de pimenta. O Sapucaia morreu sem um s dente com a boca 
quente... 

Quando caiu o meu dente ficou um buraco na frente... 

Os grandes riam de mim. Diziam que eu tinha uma porteira aberta na boca. Eu nem ligava. Estava feliz por meu dente ter cado. Ficava passando a ponta da lngua no 
buraco, para ter certeza de que ele, o buraco, estava l. Eu sabia que um outro iria nascer. Mas os grandes, que riam de mim, com seus dentes esburacados, tinham 
um destino parecido com o do Sapucaia. Se no quisessem comer pimenta o remdio era botar dentadura, que se tirava da boca quando se ia dormir. O pior era que, perdidos 
os dentes, estavam tambm perdidos os beijos... 


DICAS: 

Pea que seu professor lhe explique esse milagre: que a rvore que est do lado de fora, com o apertar de um boto, se transforme em fotografia. Que coisa mais esquisita: 
fotografamos o tempo todo sem entender o que est acontecendo e sem ficar pasmos diante disso! 

Pegue um mapa. Veja o espao entre o Brasil e a Europa. Na Europa, Portugal. Em Portugal, Braga. Perto de Braga, se o seu mapa for bom, um lugarzinho bem pequeno: 
Vila das Aves. Nome lindo! Foi l que eu fui... 

Saiu o livro que eu tanto esperava! Foi lanado em Portugal. Acaba de ser lanado aqui. Sobre a Escola da Ponte: A escola com que sempre sonhei, sem imaginar que 
pudesse existir. Pela editora Papirus. Ficou lindo. Parabns e obrigado  maravilhosa equipe da Papirus. (Correio Popular, Caderno C, 06/05/2001.) 


O QUARTO DO MISTRIO
Passei boa parte de minha infncia no sobrado do meu av. Era um sobrado colonial, daqueles que se vem nas fotos de Ouro Preto e So Joo dei Rei. A gente entrava 
por uma porta enorme. Nunca pude entender as razes para portas to altas, to largas, to grossas, como se gigantes fossem os que moravam naquelas casas... A porta 
se abria para um longo e sombrio corredor, ao fim do qual havia uma escada de trs lances.
Terminada a escada os caminhos se bifurcavam.  frente, outro longo corredor, que conduzia para dentro do sobrado. Ao lado, a sala de visitas, lugar nobre da casa 
onde se entrava por uma porta envidraada, de vidros coloridos azuis, vermelhos, amarelos e verdes, importados. Dentro era o teto esculpido, os frisos dourados, 
os candelabros, os consolos de mrmore com vasos de cristal, estatuetas e bibels, os espelhos enormes, o piano Pleyel, os sofs e as cadeiras de palhinha, smbolos 
de nobreza e riqueza que eram exibidos aos visitantes. Portas com sacadas de ferro fundido se abriam para a praa com seu jardim de palmeiras, tipuanas e ips. Dali 
se via passar no somente a banda, como tambm enterros e lgubres procisses da Semana Santa.
A sala de visitas era imperativa. O arranjo dos mveis no dava lugar a dvidas. Os visitantes eram obrigados a se assentar nos lugares certos e a ver as coisas 
determinadas. No havia ali lugar para imprevistos. Tudo estava em ordem. Cada coisa no seu lugar.
O corredor levava para dentro da casa onde s eram admitidas pessoas ntimas. Uma ampla sala de jantar, com oito janelas envidraadas se abrindo para o poente e 
uma outra janela solitria, que se abria para o sul. As janelas eram protegidas pela sombra de uma velha trepadeira que,  noite, se transformava em passarela de 
gambs.
E havia os quartos enormes, em fila. Era preciso atravessar o primeiro para ir ao segundo, e pelo primeiro e o segundo se se desejava ir ao terceiro.
As noites eram assombradas, regidas pelo carrilho que batia, indiferente e sem pressa, os quartos de hora - informao intil que s servia para tornar a insnia 
ainda mais torturante.
Era um fascnio andar por aqueles quartos, salas, corredores, escadas. Mas o que me fascinava era um quarto proibido, trancado o tempo todo, onde ningum entrava. 
Em outros tempos, quando a casa estivera cheia de filhos e de empregadas, todos os quartos eram quartos normais, simplesmente. Mas aconteceu o que sempre acontece: 
os filhos se casaram, os tempos de vacas magras chegaram, foram-se as empregadas, morreram os pais, s ficaram trs filhas solteironas. Sem uso, aquele quarto foi 
transformado em depsito de coisas velhas, onde no
entrava nem vassoura nem espanador, porque no era preciso.
Era proibido entrar nele e a chave enorme ficava escondida. Eu compreendo a proibio. Para as tias o quarto era o lugar das coisas feias, da poeira que se acumulava, 
das teias de aranha. Menino no devia brincar num lugar como aquele.
Mas para mim era o quarto do mistrio. Se no houvesse mistrio, a chave no ficaria escondida nem haveria a proibio de entrar. O quarto proibido  sempre aquele 
em que a gente quer entrar. A mulher do Barba Azul no se contentou com os 99 quartos e as 99 chaves: foi logo para o centsimo quarto com a centsima chave, o nico 
quarto onde ela no tinha permisso para entrar. Assim somos ns, seres fascinados pelo mistrio e pelo proibido. A razo para esse gosto eu no entendo, mas sei 
que  com ele que a alma humana  feita.
Pois eu roubava a chave e, silenciosamente, entrava no quarto do mistrio e me trancava l dentro. Pelo silncio as tias imaginavam que eu deveria estar longe, 
no jardim ou na rua. Mal sabiam...
O quarto do mistrio era um lugar encantado. At mesmo aquilo que as tias consideravam horror ajudava a compor a cena: a poeira acumulada sobre os mveis, as teias 
de aranha, o cheiro de mofo - tudo dizia que ali o tempo havia parado. O que era confirmado por um enorme relgio redondo, dependurado na parede: ao contrrio do 
carrilho da varanda, que em Minas  aquela sala de jantar imensa, que tocava a cada quarto de hora, o relojo redondo estava parado desde sempre.
Tudo era mgico. Os objetos emergiam de um mundo de sonhos. As duas ctaras, com incrustaes de madreprola: por quanto tempo teriam estado naquele limbo de silncio? 
E as paletas de pintura? Estavam cobertas com tinta dura. Qual teria sido o ltimo toque do pincel, antes da morte? A interrupo devia ter sido repentina, pois 
as bisnagas de tinta endurecida ainda estavam pela metade. J no serviam para nada, mas ainda se podia sentir o seu perfume. Um gramofone, discos velhos, revistas 
maravilhosas, canastras que haviam cruzado o oceano, bolsas, culos Trotzki, instrumentos de medicina que no mais se usavam, lbuns de retratos amarelados de homens 
de colarinho engomado e mulheres de anquinhas.
Acho que meu fascnio pelo quarto do mistrio se deveu ao fato de que, por dentro, eu sou como ele. Minha alma  um quarto onde os objetos mais estranhos esto colocados, 
um ao lado do outro, sem ordem, sem nenhuma inteno de fazer sentido. Por oposio  sala, onde cada objeto est colocado numa ordem precisa em relao aos outros, 
no quarto do mistrio no h ordem, no h arranjo: cada objeto  um universo completo, no depende dos outros. E est explicada a razo para a minha profisso 
de psicanalista:  que cada pessoa, com sua sala de visitas limpa e ordenada, aberta  visitao geral, tem um fascinante quarto de mistrio onde s se penetra roubando 
a chave. Minha profisso  roubar chaves... E at mandei gravar em madeira as palavras de um verso de Drummond: "Trouxeste a chave?"
Alguns analistas h que pensam como as minhas tias: acham que o quarto proibido est cheio de coisas terrveis, restos de naufrgios, corpos esquartejados detritos, 
excrementos, fedores. E  isso que encontram, pois a gente s encontra o que est buscando. Mas, para mim, menino naquele lugar proibido, as coisas terrveis so 
apenas molduras para coisas encantadas, imobilizadas em sono, fora do tempo, como a Bela Adormecida, em meio ao p, s teias de aranha, s heras e plantas selvagens, 
 espera de algum que dar o beijo que quebrar o feitio...
Assim  esse quarto da minha casa. Nele cabe tudo: psicanlise, poesia, idias em gestao. E poderei mesmo
incluir coisas que outras pessoas me enviarem. Como o "Quarto do mistrio" do sobrado do meu av, no so todos que gostaro de ficar nele. S os amigos... (O quarto 
do mistrio, p. 9 - os dois ltimos pargrafos originais foram substitudos neste texto).



O JARDINEIRO

Faz tempo ganhei um presente maravilhoso: por conta da Fundao Rockefeller passei um ms na "Villa Serbelloni". A "Villa Serbelloni"  um palcio, em tempos idos 
morada de prncipes e princesas. Dizem as - no sei se boas ou ms - lnguas que o presidente John Kennedy teve um encontro amoroso com Sophia Loren naquele lugar. 
Se teve, o lugar foi bem escolhido. Hoje ela est destinada a fins menos romnticos:  um centro de estudos e conferncias. Para se ganhar presente igual ao meu 
basta que se tenha um projeto acadmico passvel de ser realizado em um ms. Se for aprovado o candidato passa um ms na "Villa Serbelloni"... 

Quando cheguei foi um deslumbramento! L embaixo, o lago de Como, azul, suas margens pontilhadas com pequenas vilas. Ao fundo, os Alpes cobertos de neve. Ao redor, 
bosques e jardins - dezessete quilmetros para se caminhar em meio  beleza. E a cada quarto de hora se ouviam os sinos, os mesmos sinos que eram tocados h sculos. 
A beleza era prenncio de um ms de felicidade! 

Mas, passados uns poucos dias, a tristeza bateu. A beleza dos bosques e jardins era a mesma mas no me dava alegria. Comecei a ter saudades do meu jardim, jardinzinho 
que podia ser atravessado com duas dzias de passos. Os jardins do palcio eram lindos, lindssimos, muito mais lindos do que o meu. Mas no eram o MEU jardim. Eu 
no os amava. O jardim que eu amava era aquele onde estavam as plantas que eu havia plantado. 

Senti-me igual ao Pequeno Prncipe. No seu pequeno asteride ele tinha um jardim com uma rosa s. E ele imaginava que sua rosa era nica, no havia nenhuma igual 
em todo o universo. Agora, cado nesse mundo, longe da sua rosa, ele estava aflito. Sozinha, quem cuidaria dela? Havia o perigo de que o carneiro a comesse... Foi 
ento que, andando pelo mundo, ele passou por um mercado de flores. E l ele viu o que nunca imaginara ver: centenas, milhares de rosas, todas iguais  sua rosa, 
sendo vendidas aos maos. O seu primeiro sentimento foi de espanto. "-Ento, minha rosa no  a nica! Ela me mentiu quando me fez acreditar que no havia outra 
igual... " Ao espanto seguiu-se a tristeza: rosas, centenas, milhares... Seu jardinzinho era ridiculamente pequeno... Levou tempo para que ele compreendesse que 
sua rosa lhe dissera a verdade. "- No! Essas rosas no so iguais  minha rosa. No so iguais porque a minha rosa  a rosa de quem eu cuidei! Tirei as lagartas 
de suas folhas - nem todas  verdade, por causa das borboletas - , eu a reguei e pus uma mordaa na boca do carneiro, para que ele no comesse as suas folhas..." 

Os adultos tm dificuldade de entender. As crianas so mais inteligentes, elas tm a inteligncia do corao. Quando morre um cachorrinho e a criana chora, os 
grande se apressam em consolar: "- No chore! Vamos comprar um outro cachorrinho igualzinho ao seu!" S a criana sabe que nenhum outro cachorrinho do mundo ser 
igual ao seu cachorrinho que morreu... 

Foi assim que me senti em meio aos jardins da "Villa Serbelloni": eu queria voltar para casa para cuidar do meu jardinzinho! Aprendi ento a primeira lio da jardinagem. 
Jardins bonitos h muitos. Mas s traz alegria o jardim que nascer dentro da gente. Vou repetir, porque  importante: s traz alegria o jardim que nascer dentro 
da gente. Plantar um jardim  como parir um filho.  preciso que o jardim se forme primeiro, como sonho. Li isso pela primeira vez nos escritos do mstico Angelus 
Silesius: "Se voc no tiver um jardim dentro de voc,  certo que voc nunca encontrar o Paraso!" Traduzindo: se o jardim no estiver dentro o jardim de fora 
no produzir alegria. 

Rickert tem um poeminha que diz assim: "Nossos dias so curtos mas com alegria os vemos passando se no seu lugar encontramos uma coisa mais preciosa crescendo: uma 
flor rara, extica, alegria de um corao jardineiro... Uma criana que estamos ensinando. Um livrinho que estamos escrevendo." Se tivermos um corao jardineiro 
a passagem do tempo, a velhice chegando, a morte espreitando, deixam de ser uma experincia de dor. Plantar um jardim  uma liturgia para exorcizar a morte. Eu me 
alegro olhando para as rvores pequenas que estaro grandes depois que eu ficar encantado. 

Conheci um homem muito rico, seu apartamento era imenso. Tendo muito dinheiro, ele contratou um decorador que encheu o seu apartamento com objetos caros e bonitos. 
Mas todos os objetos eram belos e mortos. Haviam sido comprados em lojas de objetos de decorao. No haviam sado da alma daquele homem. No havia "aconchego". 
Aconchego existe quando os objetos tm o calor do corpo de algum. O mesma coisa eu sinto quando olho para certos jardins. Especialmente os jardins dos edifcios 
de apartamentos. So todos iguais: pedras, troncos, bromlias, palmeiras, as mesmas plantas, que no precisam de cuidados. Os moradores passam por ele sem nada ver. 
Eles tm razo. O jardim no diz nada. Ele no  de ningum. O jardim no faz diferena. Nem sequer pensam em cuidar dele. No sofrem quando uma planta morre. 

Um psicanalista tem de ser um jardineiro a procura de um "jardim secreto". Ele sabe da existncia do "jardim secreto" pelas plantas minsculas que brotam nas fendas 
das nossas paredes de cimento. Toda pessoa tem um "jardim secreto". Ceclia Meireles descrevia o corpo de sua av morta como um lugar onde cresciam "jardins de malva 
e trevo, com seus perfumes brancos e vermelhos". Rilke, mais selvagem, via dentro de si mesmo um "bosque antiqussimo e adormecido..." 

Um paisagista tem de ser um psicanalista que procura adivinhar o jardim que cresce dentro das pessoas. Fazer jardins convencionais  fcil. A marca de um jardim 
convencional  que logo os olhos se acostumam...  preciso ter sensibilidade potica para ver o "jardim secreto". 

Todos estamos em busca de um jardim antiqussimo. Todos queremos voltar para um jardim antiqussimo. A alma no deseja novidades. A alma deseja aquilo que ela amou 
e perdeu. A alma quer sempre voltar. O "jardim secreto"  o lugar para onde se volta... 

Voc gostaria de plantar um jardim mas o seu espao  pequeno. Mas isso no  impedimento. Pode-se plantar um jardim em qualquer lugar. H jardins que se plantam 
 volta das janelas e das portas. So lindas as trepadeiras floridas caindo pelas sacadas. Haver coisa mais delicada que as efmeras "Manhs gloriosas"? Walt Whitman 
dizia que a flor de uma "Manh Gloriosa" lhe dava mais alegria que todos os livros de filosofia! As sacadas coloridas com gernios vermelhos so, numa cidade, a 
revelao da alma dos seus habitantes! 

"Sndrome do grande"  uma perturbao oftlmica ainda no bem compreendida. Quem sofre dela s v coisas grandes - no v coisas pequenas. Para essa doena existe 
remdio.  s consultar um poeta japons. Os japoneses sabem como educar os olhos para que eles se assombrem diante do pequeno. Por exemplo: minha amiga Meire, esposa 
do Joo Francisco,  uma poeta das dobraduras. Faz origamis minsculos, maravilhosos, perfeitos. So hai-kais de papel. As borboletas grandes chamam logo a ateno. 
Mas os desenhos mais elaborados e delicados, eu os encontrei nas borboletas pequenas. E as minsculas flores silvestres, que passam desapercebidas aos olhos que 
sofrem da "sndrome do grande", exibem cores e simetrias assombrosas. 

Com coisas pequenas, plantas e flores minsculas,  possvel fazer cenrios e jardins dentro de um garrafa de boca larga (12 centmetros). Deita-se a garrafa. Dentro 
dela a gente constri uma paisagem: pedras, areia, terra, cascas de rvore, musgos, mini-bromlias, plantas-miniatura, um pouco de gua... Tapa-se a garrafa e est 
pronto o jardim. Ele assim vive por meses - e voc poder t-lo na sua mesa de trabalho! Vamos! Anuncie o Paraso! Plante um jardim! 


APERITIVOS 

Veja o filme O Jardim Secreto. 

Hans Born,  marido da Tomiko, japonesa. Aquela do Blazer Vermelho e da estria do jardineiro que se apaixonou pela Frulein. Mandou-me um e-mail. Sobre o filme 
Viver, do Kurosawa. Cena de que no me lembrava: o burocrata, no fim, j perto de morrer, balana no balano do jardim que ajudara a construir, com o rosto transfigurado 
de paz. Se no me engano o filme do Bergman, Gritos e Sussurros, tambm termina numa cena de balano. Peo ajuda ao Marcel, especialista em Bergman... Informou-me 
tambm o Hans que em Munique h uma rea destinada a pequenos jardins que a prefeitura aluga  populao. O povo cultiva flores e verduras. E coisa parecida existe 
tambm na Holanda. 

Se vocs estiverem  cata de idias para fazer um jardim, telefonem para 3243 6572.  o telefone da Raquel, minha filha, arquiteta-paisagista, com quem troco idias 
sobre jardins. Ela  boa nisso! 

Vocs podem imaginar uma cidade em que o "lixo" alimenta um parque maravilhoso, bem ao seu lado, onde o povo vai para passear, fazer piqueniques e churrascos, s 
margens dos lagos com patos e gansos? Existe. No Brasil. Ipatinga/MG: www.ipatinga.mg.com.br 

Gramado, cidade das hortnsias, do inverno charmoso, do inverno com fondue. L aconteceu um assassinato horrvel. O senhor Knorr, muitos anos atrs comeou a plantar 
um parque. Fui visit-lo. Lugar fantstico, misterioso... Lembrei-me dos versos de Frost: "Os bosques so belos, sombrios, fundos..." Voltei a Gramado. Eu s queria 
visitar o Parque Knorr de novo. Foi assassinado. Transformaram-no na morada de Papai Noel, com renas, trens, 500.000 (isso mesmo!) lmpadas que se acendem  noite. 
O sonho do senhor Knorr foi assassinado por gente que nada entende do mistrio sagrado da natureza e pensa com idias de playcenter. No voltarei l para no sofrer. 
(Correio Popular, Caderno C, 08/07/2001.) 



JARDINS

Comecei a gostar dos livros mesmo antes de saber ler. Descobri que os livros eram um tapete mgico que me levavam instantaneamente a viajar pelo mundo... Lendo, 
eu deixava de ser o menino pobre que era e me tornava um outro. Eu me vejo assentado no cho, num dos quartos do sobrado do meu av. Via figuras. Era um livro, 
folhas de tecido vermelho. Nas suas pginas algum colara gravuras, recortadas de revistas. No sei quem o fez. S sei que quem o fez amava as crianas. Eu passava 
horas vendo as figuras e no me cansava de v-las de novo. Um outro livro que me encantava era o "Jeca Tatu", do Monteiro Lobato. Comeava assim: "Jeca Tatu era 
um pobre caboclo..." De tanto ouvir a estria lida para mim, acabei por sab-lo de cor. "De cor": no corao. Aquilo que o corao ama no  jamais esquecido. E 
eu o "lia" para minha tia Mema, que estava doente, presa numa cadeira de balano. Ela ria o seu sorriso suave, ouvindo minha leitura. Um outro livro que eu amava 
pertencera  minha me criana. Era um livro muito velho. Faam as contas: minha me nasceu em 1896... Na capa havia um menino e uma menina que brincavam com o globo 
terrestre. Era um livro que me fazia viajar por pases e povos distantes e estranhos. Gravuras apenas. Esquims, em suas roupas de couro, dando tiros para o ar, 
saudando o fim do seu longo inverno. Embaixo, a explicao: "Onde os esquims vivem a noite  muito longa; dura seis meses." Um crocodilo, bocarra enorme aberta, 
com seus dente pontiagudos, e um negro se arrastando em sua direo, tendo na mo direita um pau com duas pontas afiadas. O que ele queria era introduzir o pau na 
boca do crocodilo, sem que ele se desse conta. Quando o crocodilo fechasse a boca estaria fisgado e haveria festa e comedoria! Na gravura dedicada aos Estados Unidos 
havia um edifcio, com a explicao assombrosa: "Nos Estados Unidos h casas com 10 andares..." Mas a gravura que mais mexia comigo representava um menino e uma 
menina brincando de fazer um jardim. Na verdade, era mais que um jardim. Era um mini-cenrio. Haviam feito montanhas de terra e pedra. Entre as montanhas, um lago 
cuja gua, transbordando, se transformava num riachinho. E, s suas margens, o menino e a menina haviam plantado uma floresta de pequenas plantas e musgos. A menina 
enchia o lago com um regador. Eu no me contentava em ver o jardim: largava o livro e ia para a horta, com a idia de plantar um jardim parecido. E assim passava 
toda uma tarde, fazendo o meu jardim e usando galhos de hortel como as rvores da floresta... Onde foi parar o livro da minha me? No sei. Tambm no importa. 
Ele continua aberto dentro de mim. 

Bachelard se refere aos "sonhos fundamentais" da alma. "Sonhos fundamentais": o que  isso?  simples. H sonhos que nascem dos eventos fortuitos, peculiares a cada 
pessoa. Esses sonhos so s delas: sonhos acidentais, individuais. Mas h certos sonhos que moram na alma de todas as pessoas. Jung deu a esses sonhos universais 
o nome de "arqutipos". Esses so os sonhos fundamentais. O fato de termos, todos, os mesmos sonhos fundamentais, cria a possibilidade de "comunho". Ao compartilhar 
os mesmos sonhos descobrimo-nos irmos. Um desses sonhos fundamentais  um "jardim". 

Faz de contas que a sua alma  um tero. Ela est grvida. Dentro dela h um feto que quer nascer. Esse feto que quer nascer  o seu sonho. Quem engravidou a sua 
alma eu no sei. Acho que foi um ser de um outro mundo... Imagino que o tal de "Big-Bang" a que se referem os astrnomos foi Deus ejaculando seu grande sonho e soltando 
pelo vazio milhes, bilhes, trilhes de sementes. Em cada uma delas estava o sonho fundamental de Deus: um jardim, um Paraso... Assim, sua alma est grvida com 
o sonho fundamental de Deus... 

Mas toda semente quer brotar, todo feto quer nascer, todo sonho quer se realizar. Sementes que no nascem, fetos que so abortados, sonhos que no so realizados, 
se transformam em demnios dentro da alma. E ficam a nos atormentar. Aquelas tristezas, aquelas depresses, aquelas irritaes - vez por outra elas tomam conta de 
voc - aposto que so o sonho de jardim que est dentro e no consegue nascer. Deus no tem muita pacincia com pessoas que no gostam de jardins... 

Menino, os jardins eram o lugar de minha maior felicidade. Dentro da casa os adultos estavam sempre vigiando: "No mexa a, no faa isso, no faa aquilo..." O 
Paraso foi perdido quando Ado e Eva comearam a se vigiar. O inferno comea no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianas so seres paradisacos, 
eu fugia para o jardim. L eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espao da minha liberdade. O jardim era o espao da minha liberdade. 
As rvores eram minhas melhores amigas. A pitangueira, com seus frutinhos sem vergonha. Meu primeiro furto foi o furto de uma pitanga: "furto" - "fruto" -  s trocar 
uma letra.... At mesmo inventei uma maquineta de roubar pitangas... Havia uma jabuticabeira que eu considerava minha, em especial. Fiz um rego  sua volta para 
que ela bebesse gua todo dia. Jabuticabeiras regadas sempre florescem e frutificam vrias vezes por ano. Na ocasio da florada era uma festa. O perfume das suas 
flores brancas  inesquecvel. E vinham milhares de abelhas. No p de nspera eu fiz um balano. J disse que balanar  o melhor remdio para depresso. Quem balana 
vira criana de novo. Razo por que eu acho um crime que, nas praas pblicas, s haja balancinhos para crianas pequenas. H de haver balanos grandes para os grandes! 
J imaginaram o pai e a me, o av e a av, balanando? Riram? Absurdo? Entendo. Vocs esto velhos. Tm medo do ridculo. Seu sonho fundamental est enterrado debaixo 
do cimento. Eu j sou av e me rejuveneso balanando at tocar a ponta do p na folha do caquizeiro onde meu balano est amarrado! 

Crescido, os jardins comearam a ter para mim um sentido potico e espiritual. Percebi que a Bblia Sagrada  um livro construdo em torno de um jardim. Deus se 
cansou da imensido dos cus e sonhou... Sonhou com um ... jardim. Se ele - ou ela - estivesse feliz l no cu, ele ou ela no teria se dado ao trabalho de plantar 
um jardim. A gente s cria quando aquilo que se tem no corresponde ao sonho. Todo ato de criao tem por objetivo realizar um sonho. E quando o sonho se realiza, 
vem a experincia de alegria. Nos textos de Gnesis est dito que, ao trmino do seu trabalho, Deus viu que tudo "era muito bom." O mais alto sonho de Deus  um 
jardim. Essa  a razo porque no Paraso no havia templos e altares. Para que? "Deus andava pelo meio do jardim..." Gostaria de saber quem foi a pessoa que teve 
a idia de que Deus mora dentro de quatro paredes! Um coisa eu garanto: no foi idia dele. Seria bonito se as religies, ao invs de gastar dinheiro construindo 
templos e catedrais, usassem esse mesmo dinheiro para fazer jardins onde, evidentemente, crianas, adultos e velhos poderiam balanar e tocar os ps nas folhas das 
rvores. Ningum jamais viu a Deus. Um jardim  o seu rosto sorridente... E se vocs lerem as vises dos profetas, vero que o Messias  jardineiro: vai plantar 
de novo o Paraso: nascero regatos nos desertos, nos lugares ermos crescero a murta (perfumada!), as oliveiras, as videiras, as figueiras, os ps de rom, as palmeiras... 
E l,  sombra das rvores, acontecer o amor... Leia o livro dos "Cnticos dos Cnticos"! 

Pensei, ento, que o ato de plantar uma rvore  um anncio de esperana. Especialmente se for uma rvore de crescimento lento. E isso porque, sendo lento o seu 
crescimento, eu a plantarei sabendo que nem vou comer dos seus frutos e nem vou me assentar  sua sombra.... Eu a plantarei pensando naqueles que comero dos seus 
frutos e se assentaro  sua sombra. E isso bastar para me trazer felicidade! 






APERITIVOS 

Faz tempo, - eu j estava aposentado - encontrei-me com o professor Hermgenes, diretor do horto da UNICAMP. Ele me sorriu e disse:"Aquele seu sonho vai ser realizado..." 
O meu sonho a que ele se referia era uma antiga proposta minha  direo da universidade: que houvesse, no campus, um espao onde se plantassem rvores para os professores, 
funcionrios e alunos mortos. Cada cadver seria uma semente. Seria o "Jardim dos Encantados". Uma semana depois desse encontro o Hermgenes morreu, em meio s rvores 
que ele tanto amava. E o sonho foi esquecido... 

A Prefeitura poderia criar estmulos para que os terrenos vazios, baldios, se transformassem em jardins abertos aos moradores dos bairros. Os prprios moradores, 
vizinhos, seriam os jardineiros.  to simples. E estmulos para que todos fizessem um jardinzinho - ainda que seja um jardinzinho de janela... 

Kurosawa fez um filme maravilhoso sobre isso: um burocrata que, sabendo que ia morrer, tomou a deciso de gastar seus ltimos meses lutando contra a burocracia, 
a fim de permitir que os moradores de um bairro pudessem plantar um jardim. Se no me equivoco o nome do filme era "Viver". Filme velho, preto e branco. Acho que 
no se encontra nas locadoras. 

Recebi um presente delicioso do sr. Moacyr G. Palhares: um exemplar do "Jeca-Tatu", de Monteiro Lobato, 34 edio, 80 milhes de exemplares distribudos. Obrigado, 
Moacyr! (Correio Popular, Caderno C, 01/07/2001.) 

JARDINS 2
Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu 
no tinha. De meu, eu s tinha o sonho. Sei que  nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim  um sonho que virou realidade, 
revelao de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, so coisas 
fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pssaros sem asas... So como as canes, que nada so at que algum as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, 
 espera de algum que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra no me pertencia.
O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espao, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar 
onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.
Com os olhos eu via as coisas feias. Com o nariz sentia o seu fedor. Era o que estava l, a dura "realidade" presente. Mas a imaginao  coisa mgica. Tem o poder 
para ver e cheirar o que est ausente. Assim, graas aos seus poderes mgicos, eu via o meu jardim ausente e sentia os cheiros de suas flores e ervas. Pensava que, 
de alguma forma, coisa semelhante deveria ter acontecido com Deus Todo Poderoso. Pois o que dizem os textos sagrados  que,  sua volta, s existiam escurido e 
confuso. Coisas que o deixavam triste. Foi ento que ele sonhou com um jardim e compreendeu que era aquilo que o deixaria feliz, se existisse. E se ps a trabalhar 
para plantar um Paraso. Terminado o trabalho, dizem os poemas, o Criador descansou, e se entregou ao puro prazer. Viu que tudo era muito bom. E, ao contrrio do 
que dizem dele os religiosos, (que mora no cu infinito, em meio s estrelas, entre os anjos...) resolveu que lugar melhor para se morar que um jardim no existe. 
E l ficou, tomando prazer especial em passar em meio s plantas,  hora da brisa quente da tarde...
Eu no acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E at andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes 
para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pssaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado 
 infelicidade.
Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
No chamei paisagista. Paisagistas so especialistas em jardins bonitos. mas no era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois voc no sabe que os 
jardins falam? Quem diz isto  o Guimares Rosa: "So muitos e milhes de jardins, e todos os jardins se falam. Os pssaros dos ventos do cu - constantes trazem 
recados. Voc ainda no sabe. Sempre  beira do mais belo. Este  o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma 
Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia voc ter saudades... Vocs, ento, sabero..."  preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades 
entende os recados dos jardins. No chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele no podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele no eram 
as saudades minhas. At que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas so especialistas em esttica: tomam as cores e as formas e constrem 
cenrios com as plantas no espao exterior. A natureza revela ento a sua exuberncia num desperdcio que transborda em variaes que no se esgotam nunca, em perfumes 
que penetram o corpo por canais invisveis, em rudos de fontes ou folhas... O jardim  um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como  bom!
Mas no era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava no era a esttica dos espaos 
de fora; era a potica dos espaos de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias j idas. "Em busca 
do tempo perdido..." Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melanclico. Dele no mais se pode esperar coisa alguma..." 
No entendeu. Pois melancolia  justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperana de que elas possam ser de novo criadas. 
Aceitar como palavra final o veredito da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade  a dor que se sente quando se percebe a distncia que existe entre o 
sonho e a realidade. Mais do que isto:  compreender que a felicidade s voltar quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em 
realidade. Entendem agora por que um paisagista seria intil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...
Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de fico cientfica onde a vida acontece 
em meio aos metais,  eletrnica, nas naves espaciais que navegam pelos espaos siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbao que levou aqueles homens 
a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demnio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da 
humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou tambm metlico, eletrnico, sideral e vazio... E com isto, a esperana do Paraso se perdeu. Pois, como o disse 
o mstico medieval Angelus Silsius: Se, no teu centro / um Paraso no puderes encontrar, / no existe chance alguma de, algum dia, / nele entrar.
Este pequeno poema de Ceclia Meireles me encanta,  o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelao do nosso lugar e do nosso destino: No mistrio 
do Sem-Fim, / equilibra-se um planeta. / E, no planeta, um jardim, / e, no jardim, um canteiro: / no canteiro, urna violeta, / e, sobre ela, o dia inteiro, / entre 
o planeta e o Sem-Fim, / a asa de uma borboleta.
Metfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma poltica. Pois poltica  isto: a arte da jardinagem aplicada 
ao mundo inteiro. Todo poltico deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrrio: todo jardineiro deveria ser poltico. Pois existe apenas um programa poltico 
digno de considerao. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para alm de todas as misrias, um destino de felicidade. O homem deve 
reencontrar o Paraso."


A MINA D'GUA
Minhas netas: O mundo de quando eu era criana era to diferente do mundo em que vocs e eu vivemos agora que parece que ele aconteceu h muito, muito tempo mesmo, 
no tempo daquelas estrias antigas que comeavam sempre assim: "Era uma vez, numa terra distante, h muito tempo atrs..." Ser que eu vivi no tempo do "era uma 
vez"? A nossa viagem na minha mquina de tempo nos fez viajar 62 anos na direo do passado, quando eu era um menino de 5 anos. Vocs vo dizer: "Mas vov, 62 anos 
 muito tempo mesmo! Voc viveu no tempo do era uma vez!" Vocs so crianas de 10, 11 anos de idade. 62 anos , para vocs, muito tempo, um tempo que vocs nem 
podem imaginar. Quando eu tinha a idade de vocs eu sentia do mesmo jeito. Mas no  muito tempo quando pensamos nos milhares de anos, nas centenas de milhares de 
anos que medem o tempo em que os nossos antepassados comearam a povoar o mundo. Vocs j ouviram falar sobre eles na escola, os homens pr-histricos, o homem de 
Neandertal... Pois eu vou dizer uma coisa muito esquisita: eu acho que o mundo em que eu vivia estava mais prximo do mundo desses nossos antepassados, h milhares 
de anos, que do mundo de vocs, o mundo em que ns vivemos!  que, no passado, o tempo andava muito devagar, porque as mudanas aconteciam muito devagar. Vocs podem 
imaginar quantas centenas de anos levou para que os homens descobrissem a maneira de produzir fogo? Ou o tempo que levou para que eles aprendessem a fazer cermica? 
Durante milhares de anos os homens s usavam instrumentos de madeira e de pedra. Podem imaginar o tempo que se passou at que eles descobrissem os metais - e mais 
- o tempo que se passou at que eles aprendessem a usar os metais? Para usar metais, para transformar os metais em ferramentas, eles tinham de j dominar a tecnologia 
do fogo - porque  preciso fogo para fundir os metais. E qual teria sido o acidente que fez com que eles descobrissem que os metais, colocados no fogo, a altas temperaturas, 
derretiam? Que momento extraordinrio deve ter sido aquele quando um homem, pela primeira vez, produziu uma lmina afiada que podia cortar o couro, cortar a madeira, 
cavar a terra! Os seus companheiros devem ter olhado para ele com assombro, respeito - quase como se ele fosse um deus!
Quando as mudanas acontecem muito devagar o tempo anda muito devagar. Ao contrrio, quando as mudanas acontecem depressa, o tempo anda depressa. E foi isso que 
aconteceu: desde que eu nasci as mudanas comearam a acontecer de maneira cada vez mais rpida. E a razo por que as mudanas passaram a acontecer de forma cada 
vez mais rpida se deve a isso: antes as descobertas aconteciam por acidente. Mas, de repente, os homens aprenderam a fazer as mudanas de propsito. No precisavam 
esperar que acidentes acontecessem. Aprenderam que, usando o pensamento, eles podiam fazer as coisas que desejavam. No lugar/tempo da minha infncia as mudanas 
andavam de carro de boi. No nosso tempo as mudanas andam de avio a jato! A distncia que um avio a jato percorre em uma hora, um carro de boi, andando sem parar, 
dia e noite, levaria 270 horas para percorrer! Assim, eu posso dizer que o mundo em que eu vivia quando menino de 5 anos estava mais prximo do mundo dos nossos 
antepassados que do mundo em que vivemos agora. Em 62 anos o mundo experimentou mais transformaes - voou mais - que durante todos os milhares de anos passados 
em que nossos ancestrais viveram!
Eu vivi, assim, muito perto do incio da histria do homem! O jeito como as coisas eram feitas no meu tempo de menino era o mesmo jeito pelo qual elas eram feitas 
muitos sculos antes. Vou dar um exemplo. No meu tempo de menino a gente fazia sabo em casa. Para isso se usava sebo de vaca e um lquido preto que era obtido fazendo 
filtrar gua atravs da cinza. Faz alguns anos visitei, nos Estados Unidos, uma aldeia que  uma rplica (rplica = cpia) de uma das aldeias onde viviam os primeiros 
norte-americanos, nos sculos XVI e XVII. Pois encontrei, num canto da aldeia, o lugar onde eles faziam sabo com a descrio de como eles o faziam. Pois eles faziam 
sabo do mesmo jeito como se fazia na minha casa! Ento era como se eu, h 62 anos, vivesse no mesmo tempo em que viveram os tais norte-americanos, 400 anos antes!
No meu mundo a gente vivia perto do nascimento do coisas. Vou explicar. Veja o caso do fogo, sobre que j falamos. Na minha infncia o fogo tinha que renascer a 
cada manh. Ele nunca estava pronto. A dona de casa que, de manh, tirava as brasas de sob a cinza e arranjava os paus, os gravetos, os pauzinhos e o capim em volta 
e sobre as brasas, estava fazendo o fogo nascer. Porque as brasas no so fogo. No produzem chamas. So fracas demais para cozinhar. As brasas so apenas sementes 
de fogo que podem virar fogo se houver algum que saiba como incendi-las! E a dona de casa ento soprava as brasas para que o capim se incendiasse, e o capim incendiado 
acendesse os pauzinhos que, por sua vez, acenderiam os paus! Quando isso acontecia era uma alegria. O fogo nascia porque ela sabia faz-lo nascer! Ela conhecia os 
seus segredos! Aquela mulher era uma parteira do fogo!
Nas casas de hoje o fogo j aparece pronto. No  preciso saber coisa alguma do mistrio do seu nascimento. A gente torce um boto e aperta outro: o fogo a gs 
se acende. Basta apertar um boto do isqueiro para que o fogo aparea. A gente esfrega o fsforo na lixa ao lado da caixa e o pauzinho pega fogo. O fogo j vem pronto. 
A gente nunca v o fogo sendo parido pela arte de uma pessoa.
Nunca vi uma criana assentada quieta olhando o fogo de um fogo a gs. Fogo de fogo a gs no tem graa. Mas vejo vocs, crianas, olhando, fascinadas, o fogo 
da fogueira, o fogo do fogo de lenha, o fogo da lareira! Por que ser? Vocs tm uma explicao?
E a gua? A gua, nas nossas casas, no tem mistrio. A gente abre a torneira e a gua sai. Ou vai ao supermercado e compra gua engarrafada. Olhem agora, a minha 
casa de pau-a-pique e fogo de lenha: onde esto as torneiras? No h torneiras! Se no h torneiras, como  que a gente vai ter gua? Se a gente quisesse ter gua 
a gente tinha de ir at o lugar onde a gua nascia! Pois a gua nasce! Nasce de dentro da terra. O nosso corpo est cheio de veias. Nas veias corre o sangue. Quando 
a gente corta um dedo, o sangue jorra. Pois a terra  igual ao nosso corpo. Dentro dela h veias. Dentro das veias da terra corre a gua: os veios d'gua! A gua 
 o sangue da terra.  a gua que faz a terra viver. O lugar onde as veias da terra so cortadas e a gua jorra se chama mina. Na mina a gente v a gua saindo de 
dentro da terra. Na mina a gente v a gua nascendo. Vocs j viram uma mina? J viram a gua nascendo? No. Vocs nunca viram a gua nascendo. O que vocs vem 
 a gua saindo da torneira, a gua dentro da garrafa. gua sem mistrio! Porque quando a gente olha para a mina, e v a gua saindo de dentro da terra, a gente 
sente que est diante de um milagre. Se vocs quiserem ver um milagre acontecendo, tratem de procurar uma mina...
A gua saindo de dentro da terra vai, aos poucos, cavando um buraco  sua volta. Como se fosse uma bacia. Nessa bacia se acumula a gua pura, cristalina, transparente, 
fresca. Olhando l no fundo e gente v o lugar exato onde a gua sai de dentro da terra. Coisa parecida com uma erupo vulcnica: erupo de gua. E nesse lugar 
onde a gua jorra, as areinhas so jogadas para cima.  volta da mina tudo  vida, tudo  verde. Terra e gua fazem vida. Crescem as avencas, crescem samambaias, 
crescem plantas de todos os tipos. E se a gente est com sede,  s fazer as mos em concha, mergulhar na gua da mina, pegar a gua e beber.  impossvel beber 
gua numa mina sem ter pensamentos de gratido por haver na natureza coisa to bela.
Meu pai trabalhava no campo. Com foice e enxada. O sol era forte. O corpo coberto de suor. Ficava com sede. Pensava na mina. Mas no ia beber. Trabalhava mais. Queria 
ficar com mais sede. E a, quando a sede era insuportvel, ele ia para a beirada da mina, e bebia a gua friinha... Ele me contou que isso, ele, com sede insuportvel, 
bebendo a gua da mina, era uma das maiores felicidades de que ele se recordava, em toda a sua vida...  preciso que vocs dem um jeito de conhecer uma mina. Eu 
juro: uma mina  uma coisa mais maravilhosa que tudo aquilo que vocs possam ver num Playcenter. A gua nascendo...A vida nascendo...A natureza nascendo. Pois, se 
vocs no o sabem,  nas minas que a natureza nasce... 

"... E O VENTO FRESCO DA TARDE..."
Um bem-te-vi me visita todas as manhs. Assenta-se no peitoril da janela e se pe a dar bicadas no vidro. Por que ele bica o vidro? Porque ele v um bem-te-vi assentado 
no peitoril da janela, bem  sua frente. Inimigo. Como se atreve a invadir o seu espao? No conhece ele as regras dos pssaros, que cada pssaro tem um espao que 
 s seu e que no pode ser invadido por estranhos? Umas valentes bicadas vo ensinar-lhe quem  que manda ali. E l vo as bicadas... Mas o danado do invasor  
muito rpido. Parece adivinhar o que ele vai fazer. Ele tambm bica, no exato momento, no exato lugar da sua bicada. Os dois bicos se chocam e o outro no se abala. 
Depois de vrias tentativas frustradas ele se sente derrotado e vai embora. No dia seguinte, esquecido do que aconteceu, ele volta e repete tudo o que havia feito 
na vspera. O bem-te-vi no aprende. Ele no desconfia... Bem-te-vis no sabem o que so espelhos.
Nem todos sabem o que so espelhos. Jorge Luis Borges conta de um selvagem que caiu morto de susto ao ver pela primeira vez sua imagem refletida no espelho. Ele 
pensou que seu rosto havia sido roubado por aquele objeto mgico.  verdade que, vez por outra, tambm nos assustamos ao ver nossa prpria imagem refletida num espelho 
- mas por outras razes. Nem sempre  prazeroso ver o nosso prprio rosto. 
O mstico ngelus Silsius disse, num poema, que ns temos dois olhos. Com um olho ns vemos as coisas do mundo de fora, efmeras. Com o outro nos vemos as coisas 
do mundo de dentro, eternas. 
Efmeras so as nuvens, efmeras so as floraes dos ips, efmero  o nosso prprio rosto. Herclito, filsofo grego, para falar do efmero das coisas, disse que 
elas so rio, que elas so fogo. O rio  sempre outro. O fogo  sempre outro. A cada momento que passa as coisas que eram no so mais. Todas as coisas do mundo 
de fora, efmeras, se refletem em espelhos. Olhamos para a superfcie do lago, espelho. Nele aparecem refletidas as nuvens, os ips, o nosso rosto. E sabemos que 
so reflexos. Ao v-las no nos comportamos como o bem-te-vi.
Mas dentro de ns existe um outro mundo que est fora do tempo. Na memria ficam guardadas as coisas que amamos e perdemos. No existem mais, no mundo de fora. Mas 
so reais, no mundo de dentro. Como disse a Adlia Prado, "aquilo que a memria ama fica eterno". Na alma as coisas ficam eternas porque ela, a memria,  o lugar 
do amor. E o amor no suporta que as coisas amadas sejam engolidas pelo tempo.
As coisas que existem no mundo de dentro aparecem refletidas no espelho da fantasia. A fantasia  o espelho da alma. Muitas pessoas, contemplando as imagens que 
aparecem refletidas no espelho da fantasia, as tomam como realidade. Comportam-se como o bem-te-vi. Quem se comporta como o bem-te-vi, confundindo imagens com a 
realidade,  louco.
Muitas so as expresses do espelho da fantasia. Os sonhos, por exemplo. Ningum confunde os sonhos com a realidade de fora. Os sonhos so imagens do mundo de dentro. 
Reflexos da alma. Tambm a arte. Um quadro de Van Gogh no  um reflexo do mundo de fora. Pintores no pintam o mundo de fora. Por que pint-lo, se ele j existe? 
Um quadro de Van Gogh  o mundo, tal como ele aparece refletido na alma do pintor. Em qualquer quadro est refletido o rosto da alma. O mesmo  verdadeiro das imagens 
da religio. As imagens da religio no so imagens de um mundo que existe do lado de fora. So imagens do mundo que existe do lado de dentro. Retratos da alma. 
Conte-me sobre a sua religio e eu lhe direi como  a sua alma. Muitas pessoas, possudas pela loucura do bem-te-vi, tomam as imagens da religio como reflexos de 
coisas que existem no mundo de fora. E, assombrados ou embriagados por elas, fazem as coisas mais incrveis.
Dentre as mais belas imagens jamais produzidas pela religio esto os poemas da Criao. Os bem-te-vis lem os poemas da criao e pensam que eles so descries 
de eventos que aconteceram do lado de fora, efmeros, no tempo. E a se pe a brigar com a cincia. A cincia, essa sim, so os reflexos do mundo de fora. E acontece 
que os reflexos da cincia so diferentes dos reflexos da religio: um Big-Bang, milhes de galxias, a progressiva evoluo da vida, o homem emergindo dos animais 
ditos inferiores, atravs de um longo processo, no tempo. Os bem-te-vis brigam com a cincia, sem se dar conta de que os poemas sagradas nada sabem sobre o mundo 
de fora. Eles s sabem sobre o mundo de dentro. Esses poemas no so cincia. No pretendem dizer aquilo que aconteceu l fora, no mundo do tempo. So poesia. Descrevem 
o eterno caminho da alma em busca da felicidade, em busca do Paraso. A alma  bela porque nela mora, eternamente um Paraso perdido... Deus  o nosso reflexo, no 
espelho... Est dito no prprio poema que Deus nos criou como imagem de si mesmo. Deus se v ao nos contemplar. E ns nos vemos, ao contempla-lo. Deus  a nossa 
imagem refletida no espelho da fantasia. Como disse ngelus Silsius, "o olho com que Deus nos v  o mesmo olho com que o vemos..."
O que teria levado Deus a criar? Quando estamos felizes no pensamos em criar. No  preciso. O gozo da felicidade nos basta. O impulso criativo nos vem quando sentimos 
que algo est faltado, que a vida poderia ser melhor. Criamos para curar nossa infelicidade. O poeta alemo Heine escreveu um poema "A cano do Criador", no qual 
ele diz que Deus criou porque estava doente. Criou para ficar com sade. Deus s pode ter criado porque o seu mundo de espritos, anjos e realidades espirituais 
no lhe bastava. Ele tinha fome de formas, cores, perfumes, sons, gostos. A Criao  o banquete que Deus preparou para sua fome. Deus tem fome de matria. Deus 
tem fome de beleza. A Criao  o poema que descreve a culinria divina. Aquilo que Ele criou, isso  o que lhe d prazer. Ningum ir pensar que Deus pode criar 
algo pior do que o que j existia. Se criou algo novo,  porque esse novo era melhor: o nosso mundo  melhor do que aquilo que havia desde toda eternidade...
"No princpio de todas as coisas a terra era sem forma, vazia, e o Esprito de Deus pairava sobre a face das guas... E disse Deus: 'Haja luz'. E houve luz! E viu 
Deus que era bom". Assim se inicia o poema: com o que de mais espiritual existe. Haver coisa mais espiritual que a luz? Era bom, mas no o suficiente. Se fosse 
suficiente, Deus teria ficado feliz. Mas no ficou. E conta o poema que a criao vai acontecendo, num processo de afunilamento - dos espaos espirituais infinitos 
para espaos cada vez mais limitados e definidos: o sol, a lua, as estrelas, a terra seca, as guas. Tudo muito bom, mas no o suficiente. At que chega o momento 
culminante: Deus cria um pequeno espao, um jardim - um Paraso.
Um jardim  uma excitao aos sentidos. De que adiantariam as cores das flores se no houvesse olhos que as percebessem? De que adiantariam os seus perfumes se no 
houvesse narizes que os sentissem? De que adiantariam os gostos das frutas se no houvesse bocas que se deleitassem com eles? Um jardim  um objeto de felicidade. 
Terminada a sua criao, diz o texto sagrado: " ... e viu Deus que era muito bom." Nada de melhor poderia existir. Diz ainda o texto sagrado que aquele jardim era 
"um lugar de deleites." O movimento do esprito  na direo da matria. Como esprito puro ele est infeliz, incompleto. Como uma cano que nunca  cantada. Quando 
o esprito d forma  matria, a temos a beleza. E, com a beleza, a alegria. Deus nos criou para a alegria. E a felicidade de Deus foi tanta que ele abandonou os 
espaos infinitos e eternos e passou a "passear pelo jardim no vento fresco da tarde." Ah! Ento Deus tem prazer no vento fresco da tarde... Se Deus tem prazer no 
vento fresco da tarde o vento fresco da tarde  divino. Ser espiritual  gozar o vento fresco da tarde, gozar o perfume dos jasmins, sentir o gosto das frutas, deleitar-se 
na forma e nas cores das flores, amar as montanhas distantes, entregar-se ao frio da gua das cachoeiras, sentir o arrepio nas carcias da pele. Deus amou tanto 
esse mundo de prazeres que ele mesmo criou - melhor no poderia ter sido criado - que resolveu tornar-se homem. Ser homem, de carne e osso, com olhos, ouvidos, nariz, 
boca, pele  melhor que ser esprito puro. Voc quer ser espiritual? Abra os olhos e ande pelo jardim. No universo inteiro no existe nada mais divino...
Michelangelo por acaso pensaria que o mrmore  coisa inferior? Mas como? Sem o mrmore a Piet nunca seria vista e amada! E ele ficaria feliz se no tivesse mos, 
porque assim a Piet permaneceria para sempre esprito puro! Deus por acaso acharia que o corpo  coisa inferior? Mas como? Sem o corpo o Verbo nunca viveria como 
carne e ele, Deus, amaria a morte. Porque com a morte o homem permaneceria para sempre esprito puro...
Espiritual  o jardineiro que planta o jardim, o pintor que pinta o quadro, o cozinheiro que faz a comida, o arquiteto que faz a casa, o casal que gera um filho, 
o poeta que escreve o poema, o marceneiro que faz a cadeira. A criatividade deseja tornar-se sensvel. E quando isso acontece, eis a beleza!


A GUA
Todo mundo tem saudade de uma mina - ainda que nunca tenha visto uma.  que na alma... Ah! Voc no sabe o que  alma! Eu explico. Alma  um lugar, dentro do corpo, 
onde ficam guardadas as coisas que a gente amou e se foram. Elas se foram mas no morreram. O amor no deixa que elas morram. Ele as guarda nesse lugar chamado alma. 
Ficam l, esquecidas, dormindo... Mas, de repente, a gente se lembra! E quando a gente se lembra, vem a saudade... Saudade  o que a gente sente ao se lembrar de 
uma coisa gostosa que foi embora... Onde esto as minas? Voc nunca viu uma. Mas eu garanto: em algum lugar da sua alma, e na alma de todo mundo, h uma mina de 
gua cristalina. E a gente gostaria de beber da sua gua, com as mos em concha...
O Pequeno Prncipe... Voc j deve ter lido o livro. Se no leu, trate de ler. No veja vdeo nem oua o CD com a estria. Leia. Os vdeos so ruins porque eles 
no deixam a gente imaginar a imaginao da gente. O que est no vdeo  a imaginao de um outro. E os CDs no so humanos. Eles vo contando a estria sem parar, 
mesmo quando a gente gostaria que eles fizessem uma pausa. Quando a gente est lendo, ao contrrio, a alma vai produzindo o seu prprio vdeo: a imaginao  um 
vdeo s nosso. Lendo, a estria fica sendo minha;  a minha estria. E  possvel parar, quando quer, voltar atrs, ler de novo. O Pequeno Prncipe vivia num asteride. 
Caiu, por acidente, aqui na terra e foi andando, encontrando-se com homens, conhecendo costumes, com olhos de criana. Tudo lhe parecia espantoso! Pois ele se encontrou 
com um homem que lhe tentou vender plulas de matar a sede. "Para que servem as plulas de matar a sede?" - perguntou o principezinho. O vendedor se espantou. Como 
era possvel algum to ignorante, que no percebesse os benefcios da tcnica e da cincia? E tratou de explicar: "Os cientistas e pesquisadores verificaram que, 
durante um ms, as pessoas perdem 30 minutos, s indo aos filtros, geladeiras e bebedouros para beber gua. Gastam esse tempo porque tm sede. Se no tiverem sede 
elas no gastaro mais esse tempo. A plula de matar a sede, como diz o nome, mata a sede. No sentindo sede, no precisam beber gua. No indo beber gua, economizam, 
por ms, 30 minutos." O Pequeno Prncipe ficou espantado. "E o que  que eu fao com esses 30 minutos?", ele perguntou. "Com esses 30 minutos voc faz o que voc 
quiser", respondeu o vendedor. "30 minutos para fazer com eles o que eu quiser! Que coisa maravilhosa! E o que eu quero fazer com esses 30 minutos? Ah! J sei! Se 
eu tivesse 30 minutos para fazer com eles aquilo que eu quero, eu iria tranqilamente, andando at uma mina, para beber gua..." Eu tambm gostaria de poder ir at 
aquela mina sobre que lhes falei, na ltima vez em que lhes contei sobre o mundo em que vivi na minha infncia...
Mas as minas apresentam um problema: sede a gente tem o tempo todo; mas no h minas em todos os lugares. Isso era um problema srio para os homens que tinham de 
fazer longas caminhadas por lugares que no conheciam, para caar. Eles no podiam ficar na dependncia de encontrar minas que eles no sabiam se existiam, ao longo 
dos caminhos desconhecidos. E era tambm um problema para aqueles que trabalhavam na agricultura. Freqentemente as minas ficavam muito longe do lugar do trabalho. 
E havia tambm o problema das pessoas doentes, fracas e velhas, que no tinham foras para caminhar at as minas.
Tem um ditado que diz: " a necessidade que faz o sapo pular". Traduo: " a necessidade que faz a cabea pensar". Quando a gente no sente necessidade a inteligncia 
no se move. Fica paradona, preguiosa. E se recusa a aprender um punhado de coisas que, na escola, querem que ela aprenda. s vezes a inteligncia se recusa a aprender 
precisamente porque ela  inteligente! Ela pergunta: para que aprender uma coisa de que no necessito? Mas a sede  uma necessidade. Sem gua a gente morre. E a 
inteligncia logo se deu conta de que, se no houver um jeito de levar a gua aos lugares onde no h minas por perto, h o perigo de morrer. E a, ps-se a pensar.
As mos em concha so a soluo simples para quem est ajoelhado ao lado da mina. Mas, e se a pessoa no puder se ajoelhar, por reumatismo ou velhice? Os homens 
observadores viram que h umas grandes folhas nas quais a gua fica depositada, depois da chuva. Folhas de inhame. ( lindo ver as gotas de chuva, redondas e brilhantes, 
guardadas nas folhas de inhame. Quem viu uma vez no esquece. Fica guardado na alma...). Perceberam, ento, que as folhas de inhame podiam ser usadas para substituir 
as mos. Com duas vantagens. Elas so muito maiores que as mos: guardam mais gua. E, por no terem dedos, a gua no escorre pelo meio deles. Folhas de inhame 
substituem as mos, quando aquilo de que se necessita  a gua. Assim, passaram a usar folhas de inhame para pegar a gua da mina.
Folhas de inhame para substituir as mos... Quando a gente fala em tecnologia a gente pensa sempre em mquinas complicadas. No  nada disso. Tcnica  tudo o que 
se faz para melhorar algum rgo do corpo. culos so melhorias dos olhos. Facas so melhorias dos dentes. Arcos e flechas so melhorias dos braos. Sapatos so 
melhorias dos ps. Bicicletas so melhorias das pernas. Cotonetes so melhorias dos dedos. Pois foi assim que a tcnica nasceu: quando os homens aprenderam que podiam 
usar coisas que encontravam na natureza como ferramentas para atender s suas necessidades.
Mas no  possvel ir viajar levando gua numa folha de inhame! Para levar gua longe seria necessrio um objeto que prendesse a gua. A eles observaram uns frutos 
curiosos, parecidos com abboras, que no serviam para comer, vazios por dentro, que nasciam de trepadeiras. Cabaas, cuias. A imaginao funcionou: cabaas so 
muito melhores que folhas de inhame. Cortadas no meio, funcionam como se fossem conchas grandes. Ou copos. (Os ndios fazem lindos artesanatos sobre cuias. E os 
gachos, movidos pela necessidade de tomar mate, aprenderam que cuias so maravilhosas para nelas se preparar o chimarro...).  fcil guardar gua numa cuia. Inteiras, 
com um furinho que se tampa com uma sabugo de milho, vira um cantil. Cantis e garrafas so cabaas melhoradas. Mas, para no se ter o trabalho de ficar segurando 
a cabaa de gua com a mo, pode-se amarr-la com um cip ou uma embira,  volta da cintura. Cips e embiras so melhorias das mos: as mos ficam livres para segurar 
as armas ou as ferramentas. (Sei que voc no deve saber o que  embira. Mas no vou explicar. De propsito. Se voc estiver curioso, v consultar o dicionrio. 
Uma das coisas mais importantes que voc deve aprender na escola  consultar um dicionrio ou uma enciclopdia. Mais importante que "saber"  "saber achar". O bom 
professor no  aquele que ensina coisa pronta;  aquele que ensina voc a achar.)
Difcil era levar a gua da mina at a casa. No havia canos. Havia uma rvore que podia ser usada como cano, por ser oca por dentro: a embaba. Ela se parece com 
um mamoeiro. Viajando por a a gente a reconhece no meio das matas pelo prateado das suas folhas. Mas embabas no crescem em todos os lugares! Foi pela observao 
do jeito das guas correr que a inteligncia encontrou uma soluo. Os homens perceberam que a gua sempre anda por conta prpria.  s lhe dar um leito por onde 
correr que ela corre, sem que a gente precise fazer fora. A veio a idia de se fazerem miniaturas de rios que levassem a gua de onde ela estava at o lugar onde 
queriam que ela estivesse. Assim se inventaram os "regos". Um rego  um riosinho artificial, para a gua correr. Mas h uma coisa que a gua no faz: ela no sobe 
morro...
Da se deduz a primeira regra de como fazer a gua chegar at perto da casa:  preciso que a mina d'gua esteja mais alta que a casa. Estando mais alta, faz-se o 
rego e a gua corre, at chegar  casa... Se estiver mais abaixo, o jeito  ir at l e trazer a gua num pote ou jarro...Potes ou jarros so vazios cercados de 
argila por todos os lados, menos o de cima... O importante no pote  aquilo que no existe: o vazio que est dentro dele. A cermica s tem a funo de segurar o 
vazio... Porque  do vazio que a gente precisa.  o vazio que contm a gua.
Difcil era tomar banho. Especialmente no tempo de frio. Era preciso esquentar gua no fogo de lenha, e como no havia banheiro e chuveiro dentro da casa, o jeito 
era tomar banho de bacia, com canequinha. Complicado. O que significa que no se tomava banho todo dia. Banho dirio  inveno moderna, felicidade no conhecida 
naqueles tempos. O que se usava, mesmo, era lavar os ps numa bacia. Foi assim durante milhares de anos. Jesus lavou os ps dos seus discpulos. Muitas vezes eu 
lavei os ps do meu pai.


A ARTE DE ENGOLIR SAPOS 

O Ado, meu amigo, professor de biologia, j encantado, amava os sapos. Dedicou sua vida a estud-los. Estudava e admirava. Era capaz de identific-los no s por 
sua aparncia fsica como tambm pelo seu canto. Acho que o Ado achava os sapos bonitos. E  certo que eles tm uma beleza que lhes  peculiar. O filsofo Ludwig 
Feuerbach diria que para os sapos no existe nada mais belo que o sapo e, se entre eles houvesse telogos, haveriam de dizer que Deus  um sapo. Cada forma de vida 
 o Bem Supremo para si mesma. 

Eu mesmo, sem ter a sensibilidade do Ado, escrevi um livro para crianas em que um dos heris  o sapo Gregrio. Mas desejo confessar que no acho os sapos bonitos. 
Bonita eu acho a sua cantoria durante a noite, a despeito da sua falta de imaginao e monotonia. Mas o que ela perde em riqueza esttica  plenamente compensado 
pelo seu poder hipntico, o que  bom para fazer dormir. 

Mas o fato  que ns, humanos, no consideramos os sapos como animais com que gostaramos de conviver. Ter um cozinho, um gato ou um coelho como bichinho de estimao, 
tudo bem. Mas se o menino quisesse ter um sapo como bichinho de estimao, os pais tratariam de lev-lo logo a um psiclogo para saber o que havia de errado com 
ele. Sapo  bicho de pesadelo. 

Quem sugere isso so as Escrituras Sagradas. Est relatado, no captulo oitavo do livro de xodo que Deus, para dobrar a obstinao do fara egpcio que no queria 
deixar que o povo de Israel se fosse, enviou-lhe uma srie de pragas de horrores, uma delas sendo a dos sapos. Diz o texto que a praga era de rs, mas no faz muita 
diferena. "Eis que castigarei com rs todos os teus territrios, o rio produzir rs em abundncia, que subiro e entraro em tua casa, no teu quarto de dormir, 
e sobre o teu leito, e nas casas dos teus oficiais, e sobre o teu povo, e nos teus fornos e nas tuas amassadeiras." J imaginaram o horror? A gente entra debaixo 
das cobertas e sente o frio das rs que l esto. Morde o po e dentro dele est uma r assada. 

Nas estrias infantis  a mesma coisa. A bruxa poderia ter transformado o prncipe numa girafa, num tatu ou num gato. Escolheu transform-lo no mais nojento, um 
sapo. E h aquela outra estria em que o sapo queria dormir na cama com a princesinha. To horrorizada ficou de ter de dormir com um sapo que ela, para evitar os 
beijos e seus desenvolvimentos inevitveis, pegou-o pela perna e o jogou contra a parede. Esse ato teve efeito mgico pois que, ao cair no cho, o sapo transformou-se 
em prncipe. J aconselhei pessoas a lanar contra a parede seus sapos e sapas conjugais, para ver se o contra-feitio funciona tambm para os humanos. Parece que 
no. 

O horror do sapo aparece tambm numa sugestiva expresso popular: "ter de engolir sapo". Por que no "ter de engolir gato", "ter de engolir borboleta", "ter de engolir 
tico-tico"? Porque mais nojento que sapo no existe. 

Essa expresso traz o sapo para o campo das atividades alimentares. Engolir  comer. O ato de comer  presidido pelo paladar. O paladar  uma funo discriminatria. 
Ele separa o saboroso do no saboroso. O saboroso  para ser engolido com prazer. O no saboroso, o corpo se recusa a comer. Cospe. "Ter de engolir sapo": ser forado 
a colocar dentro do corpo aquilo que  nojento, repulsivo, viscoso, frio, mole. 

No h forma de engolir sapo com prazer. Engolir um sapo  ser estuprado pela boca. H um ditado ingls que diz: "If you are going to be raped, and there is nothing 
you can do about it, relax and enjoy it": se voc vai ser estuprado e voc no pode fazer nada para impedi-lo, relaxe e trate de gozar o mais que puder. Esse ditado 
sugere a possibilidade de se sentir prazer em ser estuprado. Pode at ser. A psicanlise me ensinou a aceitar a possibilidade dos mais estranhos prazeres perversos. 
Mas no h relaxamento que faa do ato de engolir um sapo uma experincia prazerosa. 

Por que engolir um sapo? 

H pessoas que engolem sapos por medo. Bem que seria possvel evitar a repulsiva refeio: o sapo  um sapinho. Mas elas preferem engolir o sapo a enfrent-lo. No 
tm coragem de peg-lo e jog-lo contra a parede. Pessoas que fizeram do ato de engolir sapos um hbito acabam por ficar parecidas com eles: andam aos pulos, sempre 
rente ao cho e coaxam monotonamente. 

Mas h situaes em que  inevitvel engolir o sapo. Eu mesmo j engoli muitos sapos e disto no me envergonho. O meu desejo, com esta crnica,  dar uma contribuio 
ao saber psicanaltico, que at agora fez silncio sobre o assunto. Muitos dos sintomas neurticos que afligem as pessoas resultam de sapos engolidos e no digeridos. 

Tudo comea com um encontro:  minha frente um sapo enorme, ameaador, com boca grande. A prudncia me diz que  melhor engolir o sapo a ser engolido por ele.  
melhor ter um sapo dentro do estmago (sapos engolidos nunca vo alm do estmago) do que estar no estmago do sapo. 

A, impotente e sem opes, deixo que ele entre na minha boca, aquela massa mole nojenta.  muito ruim. O estmago protesta, ameaa vomitar. Explico-lhe as razes. 
Ele cessa os seus protestos, resignado ao inevitvel. No consigo mastigar o sapo. Seria muito pior. Engulo. Ele escorrega e cai no estmago. 

Alimentos no digerveis so eliminados pelo aparelho digestivo de duas formas: ou so expelidos pelo vmito ou so expelidos pela diarria. Os sapos so uma exceo. 
No so digeridos mas no so nem expelidos pelas vias superiores e nem pelas vias inferiores. Os sapos se alojam no estmago. Transformam-no em morada. Ficam l 
dentro. Por vezes hibernam. Mas logo acordam e comeam a mexer. 

Ningum engole sapo de livre vontade. Engole porque no tem outro jeito. Tem sempre algum que nos obriga a engolir o sapo,  fora. A pessoa que nos obriga a engolir 
o sapo, a gente nunca mais esquece. Diz a Adlia que "aquilo que a memria amou fica eterno". A eu acrescento algo que aprendi no Grande Serto. Conversa de jagunos 
matadores. Diz um: "Mato mas nunca fico com raiva". Retruca o outro, espantado: "Mas como?" Explica o primeiro: "Quem fica com raiva leva o outro para a cama."  
isso. A gente leva, para a cama, a pessoa que nos obrigou a engolir o sapo. A raiva tambm eterniza as pessoas. No adianta falar em perdo. A gente fica esperando 
o dia em que ela tambm ter de engolir um sapo. Ou como dizia uma propaganda antiga de loteria, a gente reza: "O seu dia chegar..." (O amor que acende a lua, pg. 
105.)


A COZINHA 
Qual  o lugar mais importante da sua casa? Eu acho que essa  uma boa pergunta para incio de uma sesso de psicanlise. Porque quando a gente revela qual  o lugar 
mais importante da casa, a gente revela tambm o lugar preferido da alma. Nas Minas Gerais onde nasci o lugar mais importante era a cozinha. No era o mais chique 
e nem o mais arrumado. Lugar chique e arrumado era a sala de visitas, com bibels, retratos ovais nas paredes, espelhos e tapetes no cho. Na sala de visitas as 
crianas se comportavam bem, era s sorrisos e todos usavam mscaras. Na cozinha era diferente: a gente era a gente mesmo, fogo, fome e alegria.
"Seria to bom, como j foi...", diz a Adlia. A alma mineira vive de saudade. Tenho saudade do que j foi, as velhas cozinhas de Minas, com seus foges de lenha, 
cascas de laranja secas, penduradas, para acender o fogo, bule de caf sobre a chapa, lenha crepitando no fogo, o cheiro bom da fumaa, rostos vermelhos. Minha alma 
tem saudades dessas cozinhas antigas...
Fogo de fogo de lenha  diferente de todos os demais fogos. Veja o fogo de uma vela acesa sobre uma mesa.  fogo fcil. Basta encostar um fsforo aceso no pavio 
da vela para que ela se acenda. No  preciso nem arte nem cincia. At uma criana sabe. S precisa um cuidado: deixar fechadas as janelas para que um vento sbito 
no apague a chama. O fogo do fogo  outra coisa. Bachelard notou a diferena: "A vela queima s. No precisa de auxlio. 
A chama solitria tem uma personalidade onrica diferente da do fogo na lareira. O homem, diante de um fogo prolixo pode ajudar a lenha a queimar, coloca uma acha 
suplementar no tempo devido. O homem que sabe se aquecer mantm uma atitude de Prometeu. Da seu orgulho de atiador perfeito..." Fogo de lareira  igual ao fogo 
do fogo de lenha. Antigamente no havia lareiras em nossas casas. O que havia era o fogo do fogo de lenha que era, a um tempo, fogo de lareira e fogo de cozinhar.
As pessoas da cidade, que s conhecem a chama dos foges a gs, ignoram a arte que est por detrs de um fogo de lenha aceso. Se os paus grossos, os paus finos 
e os gravetos no forem colocados de forma certa, o fogo no pega. Isso exige cincia. E depois de aceso o fogo  preciso estar atento.  preciso colocar a acha 
suplementar, do tamanho certo, no lugar certo. Quem acende o fogo do fogo de lenha tem de ser tambm um atiador.
O fogo de lenha nos faz voltar "s residncias de outrora, as residncias abandonadas mas que so, em nossos devaneios, fielmente habitadas" (Bachelard). Exupry, 
no tempo em que os pilotos s podiam se orientar pelos fogos dos cus e os fogos da terra, conta de sua emoo solitria no cu escuro, ao vislumbrar, no meio da 
escurido da terra, pequenas luzes: em algum lugar o fogo estava aceso e pessoas se aqueciam ao seu redor.
J se disse que o homem surgiu quando a primeira cano foi cantada. Mas eu imagino que a primeira cano foi cantada ao redor do fogo, todos juntos se aquecendo 
do frio e se protegendo contra as feras. Antes da cano, o fogo. Um fogo aceso  um sacramento de comunho solitria. Solitria porque a chama que crepita no fogo 
desperta sonhos que so s nossos. Mas os sonhos solitrios se tornam comunho quando se aquece e come.
Nas casas de Minas a cozinha ficava no fim da casa. Ficava no fim no por ser menos importante mas para ser protegida da presena de intrusos. Cozinha era intimidade. 
E tambm para ficar mais prxima do outro lugar de sonhos, a horta-jardim. Pois os jardins ficavam atrs. L estavam os manacs, o jasmim do imperador, as jabuticabeiras, 
laranjeiras e hortalias. Era fcil sair da cozinha para colher xuxs, quiabo, abobrinhas, salsa, cebolinha, tomatinhos vermelhos, hortel e, nas noites frias, folhas 
de laranjeira para fazer ch.
Ah! Como a arquitetura seria diferente se os arquitetos conhecessem tambm os mistrios da alma! Se Niemeyer tivesse feito terapia, Braslia seria outra. Braslia 
 arquitetura de arquitetos sem alma. Se eu fosse arquiteto minhas casas seriam planejadas em torno da cozinha. Das coisas boas que encontrei nos Estados Unidos 
nos tempos em que l vivi estava o jeito de fazer as casas: a sala de estar, a sala de jantar, os livros, a escrivaninha, o aparelho de som, o jardim, todos integrados 
num enorme espao integrado na cozinha. Todos podiam participar do ritual de cozinhar, enquanto ouviam msica e conversavam. O ato de cozinhar, assim, era parte 
da convivncia de famlia e amigos, e no apenas o ato de comer. Eu acho que nosso costume de fazer cozinhas isoladas do resto da casa  uma reminiscncia dos tempos 
em que elas eram lugar de cozinheiras negras escravas, enquanto as sinhs e sinhazinhas se dedicavam, em lugares mais limpos, a atividades prprias de dondocas como 
o ponto de cruz, o frivolit, o crivo, a pintura e a msica. Se algum me dissesse, arquiteto, que o seu desejo era uma cozinha funcional e prtica, eu imediatamente 
compreenderia que nossos sonhos no combinavam, delicadamente me despediria e lhes passaria o carto de visitas de um arquiteto sem memrias de cozinhas de Minas.
As cozinhas de fogo de lenha no resistiram ao fascnio do progresso. As donas de casa, em Minas, por medo de serem consideradas pobres, dotaram suas casas de modernas 
cozinhas funcionais, onde o limpssimo e apagado fogo  gs tomou o lugar do velho fogo de lenha. As cozinhas, agora, so extenses da sala de visitas. Mas isto 
 s para enganar. A alma delas continua a morar nas cozinhas velhas, agora transferidas para o quintal, onde a vida  como sempre foi. L  to bom, porque  como 
j foi.
Eu gostaria de ser muitas coisas que no tive tempo e competncia para ser. A vida  curta e as artes so muitas. Gostaria de ser pianista, jardineiro, artista de 
ferro e vidro - talvez monge. E gostaria de ter sido um cozinheiro. Babette. Tita. Meu pai adorava cozinhar. Eu me lembro dele preparando os peixes, cuidadosamente 
puxando a linha que percorre o corpo dos papa-terras, curimbas, para que no ficassem com gosto de terra. E me lembro do seu rosto iluminado ao trazer para a mesa 
o peixe assado no forno.
Faz tempo, num espao meu, eu gostava de reunir casais amigos uma vez por ms para cozinhar. No os convidava para jantar. Convidava para cozinhar. A festa comeava 
cedo, l pelas seis da tarde. E todos se punham a trabalhar, descascando cebola, cortando tomates, preparando as carnes. Dizia Guimares Rosa: "a coisa no est 
nem na partida e nem na chegada, mas na travessia." Comer  a chegada. Passa rpido. Mas a travessia  longa. Era na travessia que estava o nosso maior prazer. A 
gente ia cozinhando, bebericando, beliscando petiscos, rindo, conversando. Ao final, l pelas onze, a gente comia. Naqueles tempos o que j tinha sido voltava a 
ser. A gente era feliz.
Sinto-me feliz cozinhando. No sou cozinheiro. Preparo pratos simples. Gosto de inventar. O que mais gosto de fazer so as sopas. Vaca atolada, sopa de fub, sopa 
de abbora com maracuj, sopa de beringela, sopa da mandioquinha com manga, sopa de coentro... Voc j ouviu falar em sopa de coentro?  sopa de portugueses pobres, 
deliciosa, com muito azeite e po torrado. A sopa desce quente e, chegando no estmago, confirma...A culinria leva a gente bem prximo das feiticeiras. Como a Babette 
(A festa de Babette) e a Tita (Como gua para chocolate)... (Correio Popular, Caderno C, 19/03/2000.)

A HORTA

Uma horta  uma festa para os cinco sentidos. Boa de cheirar, ver, ouvir, tocar e comer.  coisa mgica, ertica, o cio da terra provocando o cio dos homens. 

Cheguei de viagem e antes de entrar em casa fui ver a minha horta. O mato crescera muito. Mas minhas plantas tambm. O verde anunciava uma exuberncia de vida, nascida 
do calor e das chuvas que se alternavam sem parar. O meu corao se alegrou. Pode parecer estranho, mas  pelo corao que me ligo  minha horta. Da a alegria... 
Estranho porque para muitos a relao acontece atravs da boca e do estmago. Horta como o lugar onde crescem as coisas que, no momento prprio, viram saladas, refogados, 
sopas e sufls. Tambm isso. Mas no s. Gosto dela, mesmo que no tenha nada para colher. Ou melhor: h sempre o que colher, s que no pra comer. 


Semente, smen 

Horta se parece com filho. Vai acontecendo aos poucos, a gente vai se alegrando a cada momento, cada momento  hora de colheita. Tanto o filho quanto a horta nascem 
de semeaduras. Semente, smen: a coisinha  colocada dentro, seja da me/mulher, seja da me/terra, e a gente fica esperando, pra ver se o milagre ocorreu, se a 
vida aconteceu. E quando germina - seja criana, seja planta -  uma sensaao de euforia, de fertilidade, de vitalidade. Tenho vida dentro de mim! E a gente se sente 
um semideus, pelo poder de gerar, pela capacidade de despertar o cio da terra. 

No   toa que povos de tradies milenares ligavam a fertilidade da terra  fertilidade dos homens e das mulheres. Faziam suas celebraes religiosas em meio aos 
campos recm-semeados, para que o cio humano provocasse a inveja da terra, e ela tambm se excitasse para o recebimento das sementes. O cio dos homens provocando 
o cio da terra. Mas o inverso tambm  verdadeiro: o cio da terra pode provocar o cio dos homens... 

Cio  desejo intenso, no d descanso, invade tudo e provoca sonhos, semente que no se esquece do seu destino, vida querendo fertilizar e ser fertilizada, para 
crescer. Pois a horta  assim tambm. No  coisa s para boca. Se apossa do corpo inteiro, entra pelo nariz, pelos olhos, pelos ouvidos, pela pele, toma conta da 
imaginao, invoca memrias... 


Cheirao beatfica 

Horta  coisa boa de se cheirar. Estranho o desprezo com que tratamos o nariz. Os telogos de outros tempos falavam da "viso beatfica de Deus". Mas nunca li, em 
nenhum deles, coisa alguma sobre "a cheirao beatfica de Deus". Como se fosse indigno que Deus tivesse cheiros, que ele entrasse pelos nossos narizes adentro, 
por escuros canais at as origens mais primitivas do nosso corpo. 

Pois, se eu pudesse, faria uma teologia inspirada na horta, e o meu Deus teria o cheiro das folhas do tomateiro depois de regadas, e tambm da hortel, do manjerico, 
do organo, do coentro. Essa coisa indefinvel, invisvel, que entra fundo na nossa alma e da se irradia para o corpo inteiro como uma onda embriagante, o cheiro 
 a aura ertica do objeto, sua presena dentro de ns, emanao mgica por meio da qual ns o possumos. Quem cheira fundo - e para isso at fecha os olhos, porque 
o cheiro vai mais dentro que os olhos - est dizendo o quanto ama... 

E fico pensando nessa coisa curiosa: que a horta s seja percebida como produtora de coisas boas para comer. Isso s pode ser devido a uma degenerao do nosso corpo, 
de sua imensa riqueza ertica,  monotonia canibalesca que s reconhece o comer como forma de apropriao do objeto. Os cheiros moram na horta, e quem no se d 
o trabalho de cultiv-la no pode ter a alegria de reconhec-los. H pessoas que se renem para ouvir msica; outras pelo puro prazer do paladar. Mas ainda no se 
convidam pessoas para concertos e banquetes de perfumes. O mais prximo seria, talvez, convid-las para passear pela nossa horta, e ali nos deliciar com a sua perplexidade 
na medida em que lhes oferecemos folhinhas para cheirar e lhes perguntamos: "Sabe o que  isto? Veja como  gostoso..." 


Olhares para a vida 

Horta  coisa boa de se ver. 
Dizem os poemas sagrados que Deus Todo-Poderoso, depois de criar todas as coisas, parou, deixou cair os braos e foi invadido pelo puro deleite de ver a beleza de 
tudo o que existia. Ver  experincia esttica, no serve para coisa alguma. Diferente do comer. Comer  til. A me insiste com a criana: "Coma o espinafre, meu 
bem, ele faz voc ficar forte." O "ficar forte" justifica suportar o gosto ruim:  a utilidade da coisa. 

Mas nada disso se pode dizer do ato de ver. Ver os espinafres, as couves, as alfaces, os tomates no  til para coisa alguma, no serve para nada. Mas faz bem  
alma. "No s de po viver o homem", diz o texto sagrado. Vivemos tambm das coisas belas. 

H o belo das cores: o vermelho dos pimentes, das pimentinhas ardidas, dos tomatinhos... Ah! Os tomatinhos... Falo daqueles pequenos, minsculos, que no se encontram 
em lugar civilizado, no se vendem em feiras (quanto poderiam valer?). Mas eu os descobri numa velha fazenda, e no resisti  tentao de trazer uma mudas. Sua maior 
utilidade, alm de serem redondinhos e vermelhos,  serem planta da minha infncia. De modo que, na minha horta, eu tenho um arbusto mgico, que me leva atravs 
do tempo, e, quando eu os apanho e os como, sinto renascer dentro do meu corpo o corpo de um menino que mora nele. 

H o verde tambm dos pimentes, que se comprazem em brincar com as cores das cebolinhas, das alfaces, das couves, dos espinafres, da salsa. O amarelo das cenouras, 
e de novo dos pimentes (vocs j viram pimentes amarelos? So raros, brilhantes, maravilhosos. Eu at tive uma rvore de Natal enfeitada s com pimentes verdes, 
verrnelhos e amarelos). O roxo das beterrabas, dos rabanetes, das berinjelas. O branco dos nabos. 

E ao ver essa abundncia de cores imagino que a natureza  brincalhona, ela se compraz na exuberncia e no excesso. E enquanto meus olhos vo andando pela variedade 
das cores, coisas vo acontecendo dentro de mim. Porque isso significa que elas existem dentro de mim. Se eu fosse cego para as cores, no me aperceberia de nenhuma 
diferena. O objeto que vejo revela um objeto que existe dentro de mim. Os olhos s vem fora aquilo que j existe dentro como desejo. Tenho tambm um p de ora-pro-nbis, 
coisa de gente pobre, em Minas Gerais. S vi referncias a ele em dois lugares. Primeiro, no livro Fogo de lenha, de Maria Stella Libnio Christo, como uma receita 
culinria no meio de uma celebrao de 300 anos de cozinha mineira, que vale pelo puro deleite de ler. E depois num poema de Adlia Prado - ela sabe muito bem do 
encanto das hortas. Ora-pro-nbis, nome que parece responso litrgico,  um arbusto que se planta uma vez na vida. Ele  to amigo que fica l, soltando folhas sem 
parar. 

Pois : uma festa. Cores e formas, tudo diferente, natureza brincalhona, artista, imaginao sem fim. Morangas gomosas; abobores e abobrinhas; quiabos escorregadios; 
berinjelas roxo-pretas, engraadas em tudo, at no nome; mandiocas cars de debaixo da terra; cars do ar, pendentes; inhames; chuchus; nabos redondos; nabos flicos; 
alcachofras; folhas de todos os desenhos; alfaces; almeiro; acelgas; brcolis; couve; bertalha; repolhos brancos; repolhos roxos; agrio; espinafre. Diante desse 
esbanjamento de inventividade o jeito  o espanto, o riso e a gratido de que este seja um mundo onde o enfado  impossvel. 


Sons e toques 

Horta tambm  coisa boa de se ouvir. Ora, direis, ouvir a horta... Plantas no dizem nada, no cantam! Se fosse passarinho, ou o mar, ou as casuarinas, se compreenderia. 
Mas a horta? Horta  coisa calma e silenciosa. E isso  bom. Ouvir o silncio. 

As pessoas exigem sempre uma palavra. Tm medo de ficar quietas. Entram em pnico quando o assunto acaba, comeam a falar bobagens s por falar, porque  melhor 
dizer besteira que ficar ali na presena do outro, sem nada dizer e sem nada ouvir. 

Com as plantas  diferente. Elas nos tranqilizam. Se quisermos falar com elas, tudo bem. Acho que gostam. Mas o melhor de tudo  que, ao falar com elas, no  preciso 
fingir, porque as plantas so extremamente discretas. Guardam os segredos com uma fidelidade vegetal... 

E as hortas so tambm coisas boas de se tocar. Sentir o capim molhado, enfiar a mo na terra... Se voc tiver a felicidade rara de ter uma aginha que escorre e 
cai, voc ter uma das experincias mais calmas que se pode ter. Ouvir o barulhinho da gua. Ele trar memrias ou fantasias de regatos escondidos no meio do mato, 
correndo entre pedras, fazendo crescer o limo verde. E a voc enfiar seus ps dentro dela. Difcil um prazer igual pela tranqilidade, pela pureza, pela profundidade. 
Porque a gua nos reconduz s nossas origens. 

E a terra. No, no  sujeira. Terra preta com esterco: ali a vida est acontecendo, invisivelmente. Meu destino. Um dia serei terra, de mim a vida poder nascer 
de novo. As crianas, sem que ningum as ensine, sabem dessas coisas. Somos ns que dizemos que terra  sujeira, porque preferimos os carpetes asspticos e mortos 
e os pisos vitrificados onde mo nenhuma pode penetrar. Brincar com a terra, conquistar sua dureza, misturar o esterco esfarelado, senti-la leve e solta, esguichar 
a gua. Ali, diante dos nossos olhos, uma metamorfose vai acontecendo, e a terra, de coisa estril, dura, virgem,  agora mulher em cio, pedindo as sementes. Vamos 
abrindo os sulcos, canteiros, e neles colocamos a vida que o nosso desejo escolheu. Coisa gostosa. Estamos muito prximos de nossas origens. Nossos pensamentos ficam 
diferentes. Deixam de perambular pelos desertos de ansiedade e ficam cada vez mais prximos, colados  mo, colados  terra. Os pensamentos fantasmas voltam ao aqui 
e ao agora do corpo, passam a ser coisas amigas e alegres. 

Segundo filsofos de outros tempos, tudo o que existe se reduz a quatro elementos: a terra, a gua, o vento e o fogo. E ali estamos ns, mos na terra, terra molhada, 
e a brisa sopra. Horta, pedao de ns mesmos, me. Se compreendermos que ela  no s a nossa origem como tambm nosso destino, e se a amarmos, ento estaremos amando 
a ns mesmos, como seremos. No, no tenho uma horta para economizar na feira. Tenho uma horta porque preciso dela, como preciso de algum a quem amo. 


Sabores amigos 

H, por fim, o ato supremo de comer. 
Comer: dizer que o que estava fora pode entrar, ser bem recebido, eu o desejo, tenho fome. Para isso examino o que ainda no conheo, pois todo cuidado  pouco. 
Nem tudo  bom de se comer: h coisas de nojo e de vmito, venenosas e de morte. Provo a coisa: primeiro a aparncia, a cor, o cheiro e, cuidadosamente, na ponta 
da lngua, o gosto, para o veredito final - amigo ou inimigo...  assim que a criana aprende sua primeira lio sobre o mundo, mundo reduzido a coisas boas que 
devem ser engolidas e coisas ms que devem ser vomitadas. Assim nasceu a tica, na boca, pois  ela a primeira a dizer " bom", " mau". E a sua sabedoria  imensa, 
pois o corpo  o grande juiz. 

A horta  lugar de coisas boas para comer, ali onde se planta a amizade pelo corpo, onde se plantam os objetos do nosso desejo, que nos fazem alegres quando esto 
de fora e mais alegres ainda quando os colocamos na boca e dizemos: "Que gostoso...\" Sem saber, estamos afirmando nossa solidariedade com a terra. A horta  parte 
do meu corpo, do lado de fora, e  por isso que pode ser comida, entrar para dentro, transformar-se em vida, minha vida. Eu dou vida  horta, preparo a terra, planto 
as sementes, rego, elas vivem, e depois se oferecem a mim, atravs do meu desejo. 

E como elas so brincalhonas. Jil amargo, careta pra quem no est acostumado; o picante da pimenta; o duro amarelo adocicado da cenoura recm-arrancada da terra; 
o estranho gosto dos nabos obscenos; as ervilhas, brincalhonas e redondas; e a pea que os alhos e as cebolas nos pregam, fica o cheiro, evidncia do crime... 

E ns tomamos os frutos da horta e os transformamos pelo poder alqumico do fogo. J disse dos quatro elementos dos sbios de outro tempo, terra, gua, ar e fogo. 
Sem o fogo s podemos juntar as coisas, do jeito como a terra nos deu. Mas o fogo nos d um outro poder, tudo fica diferente. Misturamos, alteramos, inventamos. 
No peixe branco e plido, o vermelho do urucum, extrado da frutinha pelo poder do calor. vermelho pra excitar: na cor mora o quente. Junta-se mais: a cebola, os 
pimentes verdes e vermelhos, o tomate, o coentro. E a pimenta, magia estranha, ainda no entendi por que gosto dela. Talvez por ser metfora de certos amores que 
de to ardentes viram ardume, e machucam. E a tudo junto, pelo poder do fogo, a moqueca, a horta transformada em culinria, em gosto inventado. 

Comer  ato complicado, h nele uma mistura de amor e de destruio. As mandbulas mastigando, infatigveis, o movimento brusco da cabea para frente e para baixo, 
boca aberta, para abocanhar o naco que o garfo espetou, as bochechas estufadas de comida. O ato de comer  como os sonhos - pode ser psicanalisado, porque revela 
nossos segredos de dio e de amor, nosso nojo ou nossa voracidade, nossa mansido ou nossa violncia. 

Ao comer ns nos revelamos. E nisto est a diferena entre a comida crescida na horta e a comprada na feira: na primeira est um pouco de ns mesmos - e ao sentir 
seu gosto bom  como se eu estivesse sentindo meu prprio gosto. "Eu plantei, eu colhi...\" O que est em jogo no  o tomate, a alface -  o eu que est sendo servido, 
disfarado de hortalia. A refeio fica meio sacramental. Come-se um pedao da prpria pessoa, que se oferece, de forma vegetal, num banquete canibal. "Tomai, comei, 
isto  o meu corpo. Tomai, bebei, isto  o meu sangue..." 


Alegria do encontro 

Pois , horta  algo mgico, ertico, onde a vida cresce e tambm ns, no que plantamos. Da a alegria. E isso  sade, porque d vontade de viver. Sade no mora 
no corpo, mas existe entre o corpo e o mundo -  o desejo, o apetite, a nostalgia, o sentimento de uma fome imensa que nos leva a desejar o mundo inteiro. Algum 
j disse que somos infelizes s porque no podemos comer tudo aquilo que vemos. Concordo em parte, pois h aqueles que vem tudo, mas no desejam nada. Esto doentes, 
prisioneiros deles mesmos. Sade: quando o desejo pulsa forte, cio por coisas amadas, e o corpo vai, em busca do objeto desejado - a horta podendo ser um pequeno 
(e delicioso) fragmento dos nossos maiores e infinitos desejos. O mundo bem poderia ser uma grande horta: canteiros sem fim, terra frtil, nossas sementes se espalhando, 
nosso corpo ressuscitando de sua grande e mortal letargia. 

E penso esta coisa inslita: h lies de kama-sutra a serem aprendidas na horta, no despertar dos sentidos que ela provoca. O caminho da sade, o caminho da libertao 
do corpo para copular com os objetos do desejo (e uso a palavra copular no seu preciso sentido gramatical de "fazer conexo" e tambm no sentido ertico de unio 
entre duas pessoas que se querem e, por isso, se interpenetram, transgredindo os limites do prprio corpo) passa pelo caminho do despertamento ertico dos nossos 
sentidos adormecidos. A capacidade sutil de distinguir os perfumes, o olhar extasiado que diz, para a planta ou para a pessoa, no importa: \"Como  bom que voc 
existe!"; o ouvido que tem a tranqilidade para morar no silncio, sem se perturbar; a pele que se deleita com o vento, com a gua, com a terra; e a boca que sente 
o gosto da coisa como quem prova um vinho. 

Uma horta  um bom lugar para comear. E pra continuar, at acabar. Seria bom saber que algum colher coisas que ns semeamos, depois da nossa partida, e as plantas 
continuaro, como um gesto nosso de amor. 

(O quarto do mistrio, Papirus, 1995) 



A MQUINA DO TEMPO

Minhas netas: Hoje eu sou velho. Mas j fui criana como vocs. E eu quero convidar vocs a dar um passeio pelo mundo do jeito como ele era quando eu era criana. 
Era um mundo muito diferente! 

Imaginem que eu convido vocs a dar um passeio no Jardim Zoolgico.  muito simples. A gente pega um carro e vai at o Jardim Zoolgico.  assim no mundo do Espao. 
A gente vai de um espao para outro viajando. 

Mas o mundo em que eu vivi no se encontra em nenhum lugar do espao. No  possvel pegar um carro e ir at ele. O meu mundo de menino est no Tempo - um tempo 
que passou, que no existe mais. Para se ir para um Tempo diferente, carros e avies no adiantam.  preciso um outro meio de transporte.  preciso embarcar numa 
Mquina do Tempo. 

Vocs nunca viajaram numa Mquina de Tempo? Pois vo viajar agora! A Mquina de Tempo est dentro da nossa cabea. Ela se chama Imaginao. Quando vocs se lembram 
das ltimas frias e do risadas imaginando o que aconteceu, vocs esto viajando na Mquina do Tempo: vocs foram para o passado. O passado ficou vivo de novo nos 
seus pensamentos. 

Ento, por favor: entrem na minha Mquina de Tempo! Tomem os seus lugares. Apertem os cintos porque vamos decolar - como os avies decolam. Olhem com ateno para 
fora das janelas. Prestem ateno no mundo l de fora, tal como ele  agora, o mundo em que vocs vivem. Quando comearmos nossa viagem na Mquina de Tempo ele vai 
desaparecer. Sabem por qu? Porque quando entramos no passado entramos num tempo em que elas no existiam. A prova de que estamos realmente viajando para o passado 
 o desaparecimento das coisas que existem e o aparecimento de coisas que no existem mais. Vocs j viram filmes de dinossauros. O mundo dos dinossauros  diferente 
do nosso. L no existem as coisas do nosso mundo - por exemplo relgios e bicicletas. Mas existem coisas que no existem no nosso mundo: plantas diferentes, bichos 
diferentes. 

Vamos decolar! Prestem ateno nas coisas que vo desaparecendo. Primeiro vo desaparecer as coisas grandes. Depois, as coisas da nossa casa. Finalmente, as coisas 
que nos pertencem. 

Vejam: os grandes prdios esto sumindo! Esto virando fumaa que o vento sopra at que desaparecem. . No mundo da minha infncia no havia grandes prdios. Agora 
 a vez dos shopping centers. Esto virando fumaa tambm e o vento est soprando. Vejam o vazio que fica no seu lugar, depois que o vento sopra a fumaa! Esfumaam-se 
tambm os super-mercados. 

Voc pode imaginar-se vivendo num mundo onde no havia shopping centers e super-mercados? Onde  que voc iria fazer compras e passear? 

Milhes de garrafas de coca-cola, milhes de hamburgers, milhes de saquinhos de batatas fritas, milhares de McDonald's! Tudo transformado em fumaa. Plstico: tudo 
se faz com plstico no nosso mundo: saquinhos, garrafas, canetas, copos, piscinas, barracas! Tudo esfumaado. 

Epa! Isso tambm  demais!  o asfalto que est virando vapor. Sai dele uma fumacinha e era uma vez as ruas asfaltadas. Carros! Esfumaaram-se tambm. As ruas sem 
asfalto esto vazias de carros. Como  possvel viver sem carros? Ir de um lugar para outro - para a escola, para a casa das amigas, para a praia - sem carro? No 
mundo da minha infncia no havia carros. No mundo da minha infncia a gente usava muito as pernas. A gente andava. Andava tanto que no era preciso sair para dar 
caminhadas e nem andar em esteiras em academias de ginstica e clubes. E, por falar em clubes, veja! Tambm os clubes esto virando fumaa. E aquele enorme avio, 
levando mais de trezentos passageiros! Entrou numa nuvem e no saiu. Virou nuvem! Mas tem um aviozinho voando solitrio no cu! Aquilo no  um avio:  um aeroplano. 
Mas at o pequeno aeroplano virou nuvem. O tempo comeu at o nome. 

Prestem ateno agora. Minha Mquina de Tempo vai entrar na sua casa. Veja como as coisas vo desaparecendo. Desaparece, primeiro, a televiso. No meu mundo de criana 
as pessoas viviam sem televiso. Veja como o aparelho de som vai se transformando. Agora ele toca CDs. Esfumaado, ele se transforma e passa a tocar discos de vinil. 
Mais esfumaado ainda, vira um gramofone  manivela. Ah! Voc no sabe o que  um gramofone  manivela? Um dia eu conto. E a, ento, at o gramofone some. Fica 
s a fumaa! Desaparece tambm o aparelho de rdio. 

Veja como sua casa est ficando vazia! Geladeira, fogo a gs, mquina de lavar roupa, forno de microondas, liquidificador, torradeira - tudo desaparece. 

Sem geladeira no h gelo. Sem gelo no h sorvete. . Tambm os sorvetes viraram fumaa... 

Meu Deus! Isso no! Tudo, menos isso! Telefone, no vire fumaa! Eu te amo! No posso viver sem voc! Sem voc, como  que vou conversar com minhas amigas? Como 
 que vou marcar encontros? Como  que vou namorar? Primeiro vai-se o telefone celular. Puff! Esfumaado! Depois, os outros telefones. Mas, o que  aquilo pregado 
na parede? Tem um homem girando uma manivela e gritando! Aquilo era o bisav dos telefones de agora. Mas nem telefones como aquele havia no meu mundo de criana. 

Tudo ficou escuro de repente. O que aconteceu? Foi a eletricidade que virou fumaa. Como voc sabe, sem eletricidade no h luz eltrica. Mas no fique aflito. A 
luz vai logo voltar. Algum vai acender uma lamparina ou uma vela. Graas a Deus havia fsforos! Mas, se andarmos mais para o passado vamos chegar a um tempo em 
que as caixas de fsforo tambm vo desaparecer. Como  que se fazia fogo sem fsforos? Como se acendiam as coisas? Quem sabe ainda vamos falar sobre isso! 

Sem eletricidade, sem luz, sem televiso, sem rdio, sem som, sem telefone: as noites deviam ser terrveis! O que  que se fazia  noite? Onde est a esferogrfica 
colorida que estava na sua bolsa? To fcil escrever com esferogrfica. Acabou, joga fora. Compra outra. Pois ela sumiu. Era de plstico. E a sua bolsa? Sumiu tambm. 
Tambm era de plstico. Voc veio nesta viagem sem sapatos? Veio de tnis? Onde foram parar os seus tnis? Sumiram tambm. Ah! Que vontade de mascar chicletes! Voc 
tem um no seu bolso? No est mais no bolso? S tem uma fumacinha saindo do seu bolso? Vamos ao seu quarto de brinquedos. Epa! Que fumaceira! Deve estar havendo 
algum incndio... No.  que tudo se esfumaou. Computador, vdeo games, bonecas, jogos comprados em lojas, bichinhos eletrnicos... 

Que coisa poderosa  o Tempo! Andando para trs o mundo em que vivemos vai desaparecendo.  preciso que as coisas que existem agora desapaream para que as coisas 
que existiam naquele tempo apaream! A imaginao nos faz ver que outras formas de vida so possveis. O nosso mundo no  o nico. E foi nesse mundo passado, quando 
no existiam as coisas que o progresso criou e que achamos que no podemos viver sem elas, que coisas maravilhosas aconteceram! 

Foi nele que viveram sbios como Buda, Scrates, Jesus. Cientistas como Kepler, Galileu, Newton, Pasteur, Darwin, Mendel. Artistas como Miguel ngelo, Rafael, Leonardo 
Da Vinci. Filsofos como Plato, Aristteles, Descartes, Rousseau. Santos como So Francisco. Escritores como Esopo, La Fontaine, Shakespeare, Goethe, Cames, Machado 
de Assis. Msicos como Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven. 

Pea ao seu pai ou sua me ou sua professora para lhe contar estrias sobre esses homens. Se eles no souberem, que tratem de saber! Se nos programas da sua escola 
no houver lugar para se falar sobre esses homens, reclame com a diretora! Envie uma carta  secretaria de educao, reclamando! Voc tem o direito de saber. Eles 
tm o dever de ensinar. 

Que coisa fascinante essa: que tantas coisas maravilhosas tenham surgido nesse mundo passado to vazio daquelas coisas que ns achamos indispensveis para viver! 
Talvez no sejam to indispensveis assim! (Correio Popular, Caderno C, 21/01/2001.) 




A PIPOCA

A culinria me fascina. De vez em quando eu at me at atrevo a cozinhar. Mas o fato  que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho 
mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de 'culinria literria'. J escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo 
da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijo e arroz, bacalhoada, sufls, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro 
potico-filosfico a uma meditao sobre o filme A festa de Babette, que  uma celebrao da comida como ritual de feitiaria. Sabedor das minhas limitaes e competncias, 
nunca escrevi como 'chef'. Escrevi como filsofo, poeta, psicanalista e telogo - porque a culinria estimula todas essas funes do pensamento. 

As comidas, para mim, so entidades onricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer 
sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, gros redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimenses 
metafsicas ou psicanalticas. Entretanto, dias atrs, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idias 
comearam a estourar como pipoca. Percebi, ento, a relao metafrica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de 
forma inesperada e imprevisvel. A pipoca se revelou a mim, ento, como um extraordinrio objeto potico. Potico porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento 
se ps a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. 

Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristos, religiosos, so o po e o vinho, que simbolizam o corpo e 
o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, s vida, sem alegria, no  vida...). Po e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir 
juntas. Lembrei-me, ento, de lio que aprendi com a Me Stella, sbia poderosa do Candombl baiano: que a pipoca  a comida sagrada do Candombl... 

A pipoca  um milho mirrado, sub-desenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos grados aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria 
bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato  que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca no podem competir com os milhos normais. No sei como 
isso aconteceu, mas o fato  que houve algum que teve a idia de debulhar as espigas e coloc-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os gros amolecessem 
e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experincia com gua, tentou a gordura. O que aconteceu, ningum jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os gros 
comearam a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinrio era o que acontecia com eles: os gros duros quebra-dentes se transformavam 
em flores brancas e macias que at as crianas podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, ento, de uma simples operao culinria, em uma festa, brincadeira, 
molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianas.  muito divertido ver o estouro das pipocas! 

E o que  que isso tem a ver com o Candombl?  que a transformao do milho duro em pipoca macia  smbolo da grande transformao porque devem passar os homens 
para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca no  o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos ns: 
duros, quebra-dentes, imprprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa - voltar a ser crianas! 

Mas a transformao s acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que no passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. 
As grandes transformaes acontecem quando passamos pelo fogo. Quem no passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. So pessoas de uma mesmice e dureza 
assombrosa. S que elas no percebem. Acham que o seu jeito de ser  o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo  quando a vida nos lana numa situao 
que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pnico, 
medo, ansiedade, depresso - sofrimentos cujas causas ignoramos. H sempre o recurso aos remdios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade 
da grande transformao. 

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, l dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, 
fechada em si mesma, ela no pode imaginar destino diferente. No pode imaginar a transformao que est sendo preparada. A pipoca no imagina aquilo de que ela 
 capaz. A, sem aviso prvio, pelo poder do fogo, a grande transformao acontece: pum! - e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma 
nunca havia sonhado.  a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante. 

Na simbologia crist o milagre do milho de pipoca est representado pela morte e ressurreio de Cristo: a ressurreio  o estouro do milho de pipoca.  preciso 
deixar de ser de um jeito para ser de outro. 'Morre e transforma-te!' - dizia Goethe. 

Em Minas, todo mundo sabe o que  piru. Falando sobre os pirus com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozao 
minha, que piru  palavra inexistente. Cheguei a ser forado a me valer do Aurlio para confirmar o meu conhecimento da lngua. Piru  o milho de pipoca que se 
recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinrio professor-pesquisador da UNICAMP, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro 
da pipoca. Com certeza ele tem uma explicao cientfica para os pirus. Mas, no mundo da poesia as explicaes cientficas no valem. Por exemplo: em Minas 'piru' 
 o nome que se d s mulheres que no conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: 'Fiquei piru!' Mas acho que o poder metafrico dos pirus 
 muito maior. Pirus so aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que no pode existir coisa mais maravilhosa do que o 
jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: 'Quem preservar a sua vida perde-la-.' A sua presuno e o seu medo so a dura casca do milho que no estoura. O destino 
delas  triste. Vo ficar duras a vida inteira. No vo se transformar na flor branca macia. No vo dar alegria para ningum. Terminado o estouro alegre da pipoca, 
no fundo da panela ficam os pirus que no servem para nada. Seu destino  o lixo. 

Quanto s pipocas que estouraram, so adultos que voltaram a ser crianas e que sabem que a vida  uma grande brincadeira... (O amor que acende a lua, p. 59.) 


A TERRA 
Minhas netas: coisa gostosa  brincar! Brinquedos do alegria: bonecas, pipas, pies, bolas, petecas, balanos, escorregadores... Os brinquedos podem ser feitos 
com os mais diferentes materiais: madeira, plstico, metal, pano, papel. Mas h brinquedos que so feitos com algo que a gente no pode nem tocar e nem pegar: brinquedos 
que so feitos com palavras. Uma piada  feita com palavras. 
Piadas so brinquedos porque no servem para nada mas fazem a gente rir! Aquela msica "era uma casa muito engraada, no tinha teto, no tinha nada..."  tambm 
um brinquedo feito com palavras. Poetas so as pessoas que fazem brinquedos com palavras. Pena que haja muitas pessoas que no saibam brincar com os brinquedos feitos 
com palavras chamados poemas!  uma pobreza! Eu fao brinquedos com palavras. As coisas que escrevo so brinquedos. Se vocs lem o que escrevo e gostam  porque 
vocs esto brincando com o brinquedo de palavras que fiz.
As palavras tm estranhos poderes. Um deles  tornar possvel brincar com coisas que no existem. Unicrnios, elefantes voadores, bois que falam, flores que choram, 
um p de feijo que cresce at atingir os cus: essas coisas no existem. Mas nas estrias elas existem. Shakespeare, um famoso escritor ingls, escreveu uma das 
mais lindas estrias de amor jamais escritas: Romeu e Julieta. 
Ao ler as palavras que Shakespeare escreveu, Romeu, Julieta e o seu amor ficam vivos muito embora nunca tenham existido. Nunca existiram de verdade, mas existem 
na alma da gente. A alma  esse estranho lugar onde coisas que nunca existiram existem. No final da estria todo mundo chora...
Outro brinquedo que se faz com palavras se chama Histria. Estria e Histria so palavras parecidas mas so muito diferentes. As estrias so feitas com coisas 
que nunca aconteceram. A Histria  feita com coisas que aconteceram no passado. No existem no presente. Mas, pelo poder das palavras, elas se tornam presentes. 
A Histria, assim,  um turismo que a gente faz por tempos e espaos que no existem mais.
 isso que temos estado fazendo. Entramos na minha "Mquina do Tempo" e fomos para o passado da minha infncia, que no existe mais. Mas, pela magia das palavras, 
ele est voltando a existir. Prova disso foi a carta da Dina, que publiquei no domingo passado. A Dina, menina de 86 anos, lendo o que escrevi, fez turismo pelo 
mundo da meninice dela, e ficou triste e alegre...
No nosso turismo pelo mundo das coisas que no existem mais, o mundo da Histria, ns j visitamos a casa de pau-a-pique, o fogo de lenha, a mina d'gua. Hoje vamos 
andar por um outro lugar. Mas, para chegar l, vou ter que dar uma volta.
A criancinha, durante o tempo em que est na barriga da me, no tem que fazer nada para viver. No precisa respirar. No precisa comer. A me faz tudo por ela. 
Mas  s ela sair da barriga da me para ela ter que fazer coisas para viver. A primeira coisa que a criana faz ao nascer  respirar. A primeira respirao  o 
incio da vida em que ela ter de fazer coisas para sobreviver.
Se no respirar, morre. Mas, depois de respirar, a primeira coisa a ser feita para no morrer  comer. No  preciso ensinar o corpo que  preciso respirar. Ele 
j nasce sabendo. No  preciso ensinar o corpo que  preciso comer. Ele j nasce sabendo. Prova disso  a boquinha da criana mamando o vazio, mesmo antes de ter 
sido apresentada ao seio da me.
O ar, no  preciso procurar. Ele est em todo lugar. Mas a comida no est em todo lugar. Est no seio da me.  preciso procurar. Vocs j viram aquelas ninhadas 
de cachorrinhos recm-nascidos, se arrastando, empurrando, lutando para chegar at as tetas da me? Por vezes h mais cachorrinhos que tetas e, se no houver quem 
ajude, os mais fracos morrem de fome. As criancinhas, mais incompetentes que os cachorrinhos, so incapazes de procurar o seio.  preciso que a me as ajude.
O leite das mes acaba. Mas a fome no acaba.  preciso, ento, encontrar um substituto para o seio. Os bichos e os homens vo ento procurar comida na natureza. 
A natureza  o grande seio de onde tiramos comida.
A fome  a necessidade fundamental que nos move. Vocs no se do conta disso porque a geladeira est sempre cheia. Se a geladeira estivesse vazia e no houvesse 
o que comer vocs compreenderiam. A fome di muito. Os nossos antepassados pr-histricos saam pelos campos e florestas procurando frutas, ervas e razes que servissem 
para comer. Mas, como saber o que  bom para comer? Razes, h milhares de variedades. Como foi que chegaram a descobrir aquelas que eram boas para comer?  possvel 
que tenham tido enormes indigestes e clicas, chegando mesmo a morrer, ao experimentar razes venenosas, como  o caso da mandioca.
Era uma felicidade quando, de repente, descobriam o ninho de alguma ave, cheio de ovos! Ou uma colmia de abelhas, cheia de mel. Era uma festa! Caar era mais complicado 
porque os animais no ficam parados como as frutas e as razes. Eles no so bobos. No querem virar comida. Eles tambm querem viver! Era preciso correr atrs deles. 
Mas os animais so rpidos e os homens so lerdos. E os pssaros, que voam? A inteligncia teve de trabalhar para inventar a arte de atirar pedras, de construir 
arcos e flechas, de armar armadilhas, arapucas, anzis, redes.
Quando eu era menino eu gostava de fazer arapucas e pegar passarinhos. No era por maldade. Naquele tempo era preciso. Armando uma arapuca e pegando um passarinho 
eu me sentia - sem saber - como um caador pr-histrico ou um indiozinho que consegue flechar seu primeiro pssaro. Com que orgulho ele deveria mostrar o seu feito 
aos seus pais! Estava ficando grande! Estava se tornando capaz de encontrar alimento.
Mas era uma canseira! Acordar, todo dia, sem saber o que vai comer! "Ser que vamos encontrar frutas? Ser que vamos encontrar ovos? Ser que vamos caar alguma 
coisa?" A os nossos antepassados perceberam que seria mais fcil ter os bichos presos num cercado e as plantas crescendo num lugar prximo. Assim iniciou-se a domesticao 
dos animais e a agricultura.
Quem vive de caar e de colher frutos no pode ficar num mesmo lugar. Tem de ir andando por onde esto as frutas e por onde andam os animais. Assim, no podiam ter 
casas fixas. Andavam com suas casas nas costas, feito caramujos. Viviam em tendas. Tendo as plantas e os animais num lugar fechado eles podiam construir casas fixas.
Voc acorda de manh. Est com fome. O que  que voc faz?  fcil. Vai  geladeira. Est tudo l dentro. A geladeira  um maravilhoso substituto para o seio da 
me.  o seio da casa!  s abrir a porta e comer. Falta alguma coisa?  s ir no supermercado, grande seio da cidade. L tem de tudo. No  preciso plantar, colher, 
caar. Frutas, legumes, ovos, mel, leite, po, chocolate, manteiga, presunto, mortadela, azeitona, macarro, lingias, carnes, bebidas: est tudo l. E no s as 
coisas necessrias para matar a fome. Muitas coisas que comemos sem precisar, sem estar com fome, s por prazer.
O prazer de comer  um perigo. Por causa dele muitas pessoas comem demais e vocs sabem o resultado... Compramos se tivermos dinheiro. Supermercado e geladeira no 
so seios de me. Seio de me  gratuito. Geladeiras e supermercados no so. S come quem pagar... Por isso h muitas pessoas que tm fome - que chegam a morrer 
de fome (enquanto outros ficam obesos de comer aquilo de que no precisam...)
L, no lugar onde vivi, no havia nem geladeira e nem supermercados. No havia seios prontos. Se a gente quisesse comer tinha de ir atrs da comida, tinha de construir 
o seio: fazer uma horta, plantar, criar galinhas, patos, perus, porcos, cabritos, bois... Assim, quando se fazia a pergunta "o que vamos comer?" no havia geladeira 
para ser aberta. A gente tinha de perguntar: o que  que h na terra? Claro: s havia na terra aquilo que havia sido plantado. Feito a fbula da cigarra e da formiga: 
quem no plantou vai ficar com fome.
A coisa mais importante era a terra. A terra  o seio do mundo. No  em qualquer terra que as plantas crescem. Era preciso procurar a terra boa. O pessoal que vivia 
no campo s de olhar para os matos que crescem naturalmente, sem ser plantados, sabia se a terra era boa ou no. Quando a terra era boa eles diziam e ainda dizem, 
com prazer: "Terra gorda!" Terra que tem muita vida para dar.
Na cidade as pessoas passaram a ter medo da terra, a achar que terra  sujeira. Essa  a razo por que, em muitas casas, os jardins so substitudos por lajotas. 
Deixam s um buraco bem pequeno no meio, onde plantam um arbusto solitrio e triste. A terra mesmo, com sua vida, fica debaixo das lajes que esto sempre limpas... 
Mas terra no  sujeira. Terra  vida.  na terra que a vida cresce. Na prxima vez que voc for ao supermercado, preste ateno: tudo o que est l veio da terra. 
Garrafas de vinho?
Veja as parreiras carregadas de uvas! Po? Veja os campos cobertos de trigo! Carne? Veja ao animais pastando! Iogurte? Vem do leite que vem da vaca que come capim... 
Macarro? Vem da farinha que vem do trigo que cresce nos campos... Ovos? Vm das aves que comem milho que cresce da terra.
Por isso, por compreender que toda vida vem da terra, os homens de h muitos sculos atrs perceberam que ela  sagrada. Sem terra no h vida. Terra, grande me, 
fonte de vida! E houve mesmo religies que, por ocasio do plantio da terra, faziam grandes celebraes nos campos que terminavam em orgias sexuais.
Pois plantar no  um ato sexual? Faz-se um buraco na terra e, dentro desse buraco, coloca-se uma semente. Assim, durante a semeadura, os casais faziam amor no meio 
do campo - na esperana de que a terra compreendesse que era isso que estava sendo feito com ela: um ato de amor. Esperando que, desse ato de amor, nascesse a vida!
DICAS:
 Uma boa idia para as escolas: plantar uma horta! Sei que h muitas que j fazem isso. No s o prazer de plantar! O prazer de aprender cincia enquanto se planta: 
fsica mecnica, presente no uso das ferramentas; qumica, no uso dos fertilizantes: biologia... Grande e divertida idia  fazer um minhocrio. Sade. Plantas que 
curam.

 O grande problema da sade, no Brasil, no  uma questo de remdios, mdicos e hospitais.  uma questo de educao. As pessoas no sabem as coisas do corpo, 
da natureza, da sade. No sabendo, fazem as coisas erradas e ficam doentes.

 Tanto terreno baldio intil, na cidade. Terreno baldio, onde s cresce mato,  espera de negcios imobilirios, deveria ser penalizado com impostos altos. Terrenos 
onde houvesse hortas deveriam ser premiados com reduo de impostos. Quem faz horta em terreno baldio merece at ter fotografia publicada em jornal!

 Plantar e cuidar de uma horta ou jardim tem um efeito teraputico. Muita depresso nasce de no se ter o que fazer, no ter do que cuidar. Quem ama um pedao de 
terra e cuida dele nunca est sem um objeto de amor. Pois a terra ama quem cuida dela. Meu pai dizia, vendo as plantas, na horta, sob a chuva: "Veja como esto agradecidas!" 
As plantas agradecem.
Coisa triste: ver o lixo que as pessoas jogam nos jardins pblicos: latas de cerveja, garrafas de plstico, maos de cigarro... J imaginaram? Algum fazer isso 
com a sua prpria horta? Jogar lixo no seio da prpria me? Bom seria se houvesse punio forte para quem assim ofendesse a terra! 

AS DORES...
Minhas netas: menino na roa, eu estava acostumado com as dorzinhas; dorzinhas fazem parte da vida. Solto, ps descalos, correndo sem prestar ateno por onde ia, 
o p dava topadas em pedras - por vezes ao ponto de arrancar a unha do dedo - pisava em espinhos, levava tombos. Me queimei muitas vezes, brincando com fogo. E 
brincando, martelando o dedo, me cortando com faca. Havia tambm as picadas de abelhas e marimbondos e as queimaduras de taturanas, que eram brasa pura. Minha me 
foi picada por um escorpio. Eu pensei que ela fosse morrer... 
Havia tambm as dores, maldades dos adultos: belisces, palmadas, coques... Coque  assim: voc fecha a mo e bate com a articulao pontuda e dura do pai-de-todos 
na cabea da criana. Cora Coralina foi uma mulher que viveu em Gois. Ela viveu a vida inteira vida comum de mulher, fazendo o que faziam as mulheres do interior 
naqueles tempos quando no havia nem televiso e nem eletrodomsticos, mquinas que, segundo Mrio Quintana, foram criadas por causa da preguia... Quem tem a mquina 
no precisa fazer...Pois assim viveu Cora Coralina, sem tempo para a preguia, cuidando da casa, varrendo, cozinhando, costurando, pregando botes, fazendo pes, 
roscas e doces, cerzindo meias... Cerzindo meias! Ah! Voc no sabe o que  isso! As meias, com o uso, ficavam esburacadas. Hoje meia esburacada  jogada fora. Nem 
mendigo aceita...Naqueles tempos no se jogava nada fora. O dinheiro era pouco.  noite, sem rdio ou televiso, as famlias se reuniam na sala para contar casos. 
As mes, ento, pagavam suas cestinhas de cerzir meias onde havia meias furadas, agulhas, linhas de vrias cores e um ovo de madeira! Para que o ovo de madeira? 
Enfiava-se o ovo de madeira dentro da meia at o lugar do furo, a meia ficava esticada, e a me ento tecia sobre o buraco, para que a meia continuasse a ser usada... 
Isso, at as 9 horas, quando todo mundo ia para a cama... Pois quando a Cora Coralina ficou velha aconteceu com ela o que acontece com a pipoca. Pipoca  milho duro, 
muito duro, no d para mastigar. Mas, de repente, na gordura fervente, ele d um estouro e vira uma coisa completamente diferente, branca, macia, delcia de ser 
comida com sal. Pois a Cora Coralina, depois de velha, de repente, deu um estouro e a mulher comum virou poeta. Escreveu poemas lindos, falando como era a vida. 
E ela conta que, naqueles tempos, os grandes se valiam do seu tamanho e da sua idade para maltratar as crianas, com a desculpa de que era necessrio para dar-lhes 
boas maneiras. Tive sorte. Meu pai e minha me - seus bisavs - nunca me bateram. Mas havia pais e mes cujo prazer era fazer os filhos sofrer: davam-lhes surras 
com chinelos, cintas de couro e varas. Ainda hoje h muitos que fazem coisas assim com os seus filhos. So pessoas doentes que nunca deveriam ter tido filhos. E 
as escolas! Eu me lembro de uma professora que dava reguadas na cabea das crianas. Em tempos mais antigos que os meus a educao se fazia com palmatrias. Palmatrias 
eram peas de madeira, parecidas com colheres de pau. Meu tio Agenor relatava que, na sua escola, aps o professor haver tomado as lies dos alunos, ele cheirava 
rap - fumo ralado preto que, ao entrar no nariz, faz espirrar - para, a seguir, chamar aqueles que no haviam decorado a lio para ento aplicar-lhes a correo 
dolorosa de bolos de palmatria, denominados de complementos educacionais. Eles achavam que a dor  um estmulo  aprendizagem. Os tempos mudaram, felizmente. As 
palmatrias tambm mudaram...
Dessas dores eu me lembro pouco. A primeira dor de que me lembro mesmo foi a dor de dentes. Doia, doa, doa. Eu chorava. Disse para o meu pai que felizes eram as 
galinhas, por no terem dentes. O remdio era bochechar com ch de malva quente...
Vocs se lembram que nossa viagem pelo passado se iniciou quando entramos na minha "mquina de tempo". Viajando na mquina de tempo saimos do presente e entramos 
no passado. Vocs se lembram tambm que,  medida em que entrvamos no passado, as coisas que existem agora iam desaparecendo: desapareceram os shoppings, os cinemas, 
os super-mercados, a coca-cola, os tnis...  claro. No passado eles no existiam. Mas eu me esqueci de dizer que desapareceram tambm as farmcias, os hospitais, 
os dentistas e os mdicos. A vocs me perguntam: Mas ento, no seu tempo, no havia mdicos, dentistas, farmcias e hospitais? Havia sim. Nas cidades. Mas no no 
lugar onde eu morava, a roa. E  assim que ainda hoje vivem milhes de brasileiros, perdidos em lugares muito distantes. L, no adianta gritar... A roa  o lugar 
onde se sofre muito. Quando as dores so pequenas, a gente agenta. Com o tempo elas passam. Mas, e quando as dores so grandes e no passam?
Eu j experimentei dois tipos de dores grandes. Primeiro, clculo renal. Sobre essa palavra clculo eu quero contar para vocs uma coisa divertida. Ela vem do Latim. 
Vocs devem saber que nossa lngua  filha do Latim, lngua que os conquistadores romanos, que dominaram o mundo, espalharam por onde iam. O Latim foi a primeira 
lingua da globalizao. Razo por que, no passado, na Igreja Catlica s se falava Latim. Hoje a lngua da globalizao  outra, chamada dlar... Pois em Latim "clculo" 
quer dizer "pedrinha". Mas a palavra clculo significa tambm "fazer contas", como em matemtica. H, nas universidades, um curso de clculo, horror dos estudantes, 
que  o que mais reprova e faz sofrer.  que, a princpio, antes das calculadoras e dos computadores, as contas eram feitas com auxlio de pedrinhas... Eu sofri 
a dor do clculo renal, uma pedrinha muito pequena que o organismo produz e se intromete na canalizao por onde passa a urina. Di muito, di muito. Normalmente 
a dor passa com uma injeo chamada buscopan. Na meu tercediro clculo renal eu tomei uma buscopan. No passou. Tomei outra. No passou. Fui para o hospital. Tomei 
mais trs. 
No passou. Nesse momento eu j estava esverdeado e comecei a vomitar de tanta dor. A o mdico disse para a enfermeira: " Aplique uma dolantina". Ela aplicou. Cinco 
minutos depois eu estava no cu. Nenhuma dor. Percebi, ento, a coisa absolutamente maravilhosa que  simplesmente no sentir dor. Curioso: milhes de pessoas, nesse 
momento, no esto sentindo dor e no se apercebem da felicidade que , simplesmente, no sentir dor. Mas, e se eu estivesse vivendo na roa? O que acontece com 
as pessoas que, vivendo na roa, tm um clculo renal?
A outra dor grande que tive foi de hrnia de disco. O que  hrnia de disco? A coluna vertebral, como o nome est dizendo,  uma coluna de vrtebras encaixadas umas 
nas outras. Entre elas existe um espao, para que o corpo possa se movimentar e tenha flexibilidade. Pela coluna passa um feixe de nervos - semelhante a um feixe 
de fios eltricos- que se espalham pelas vrias partes do corpo para lhes dar movimento e sensibilidade. Pois pode acontecer que um desses nervos venha a ser comprimido. 
Vem ento a dor, uma dor insuportvel, to terrvel ou mais terrvel que a dor de clculo renal. No passado, antes dos recursos mdicos que h agora, era uma dor 
sem esperana. Um amigo meu, mdico, disse-me que num livro francs do sculo XIX est escrito que a nica forma de acabar com a dor de hrnia de disco  a morte. 
A cirurgia me livrou da hrnia de disco. Eu fico a me perguntar sobre o que aconteceu com os milhares de pessoas que tiveram a dor de hrnia de disco, na roa... 
Sim, qual ter sido o fim da sua dor? 
Pensando sobre as grandes invenes da cincia, eu acho que a mais maravilhosa de todas foi o domnio da dor. Pois, de que me vale tudo o que o progresso me pode 
dar, se meu corpo est sentindo dor? Quando a gente sente dor o mundo inteiro desaparece. Nada interessa. O mundo de uma pessoa com dor de dentes se resume ... no 
dente que est doendo: ela no quer chocolate, no quer boite, no quer queijo, no quer beijo... Para que a gente sinta o prazer das coisas boas da vida  preciso 
que no se esteja sentindo dor.
Na roa se sofria muito, sem esperana. Na roa a dor mandava.  por isso que se dizia, quando uma pessoa morria: "Descansou..." 
* * *
Sabedoria bblica: "Como andaro dois juntos se no estiverem de acordo?" Sabedoria popular: "Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem s". Aliana PT-PMDB? Lula 
de mos dadas com Qurcia? 

SER QUE A LEITURA DOS JORNAIS NOS TORNA ESTPIDOS?

O nome no me era estranho. Eu j o vira de relance em algum jornal ou revista. Mas no me interessei. Aquele nome, para mim, no passava de um bolso vazio. Eu no 
tinha a menor idia do que havia dentro dele. Sou seletivo em minhas leituras. Leio gastronomicamente. Diante de jornais e revistas eu me comporto da mesma forma 
como me comporto diante de uma mesa de buf: provo, rejeito muito, escolho poucas coisas. Concordo com Zaratustra: "Mastigar e digerir tudo - essa  uma maneira 
suna."

Aquele bolso devia estar cheio de coisas dignas de serem comidas - caso contrrio no teria sido oferecido como banquete nas pginas amarelas da VEJA. Mas eu no 
comi. A um amigo me enviou via e-mail cpia de uma crnica do Arnaldo Jabor, a propsito do dito nome - crnica que eu li e gostei: sou amante de pimentas e jils.

Senti-me parecido com o Mr. Gardner, do filme "Muito alm do jardim", com Peter Sellers. Mr. Gardner jamais lia jornais e revistas. Aproximei-me ento da minha assessora 
e lhe perguntei, envergonhado, temeroso de que ela tivesse visto o dito filme, e me identificasse com o Mr. Gardner. "Natlia, quem  Adriane Galisteu?" Esse era 
o nome do bolso vazio. Ela deu uma risadinha e me explicou.  medida em que ela explicava, as coisas que eu havia lido comearam a fazer sentido, e eu me lembrei 
de uma estria que minha me me contava: uma princesinha linda que, quando falava, de sua boca saltavam rs, sapos, minhocas, cobras e lagartos... Terminada a explicao, 
fiquei feliz por no ter lido. Lembrei-me de uma advertncia de Schopenhauer: "No que se refere a nossas leituras, a arte de no ler  sumamente importante. Essa 
arte consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande pblico. Para ler o bom uma condio  no ler o ruim: porque a vida  curta e o tempo e a energia escassos... 
Muitos eruditos leram at ficar estpidos." Existir possibilidade de que a leitura dos jornais nos torne estpidos?

O que est em jogo no  a dita senhora, que pode pensar o que lhe for possvel pensar. O que est em jogo  o papel da imprensa. Qual a filosofia que a move ao 
selecionar comida como essa para ser servida ao povo?

A resposta  a tradicional: "A misso da imprensa  informar". Pensa-se que, ao informar, a imprensa educa. Falso. H milhares de coisas acontecendo e seria impossvel 
informar tudo.  preciso escolher. As escolhas que a imprensa faz revelam o que ela pensa do gosto gastronmico dos seus leitores.

Jornais so refeies, bufs de notcias selecionadas segundo um gosto preciso. Se o filsofo alemo Ludwig Feuerbach estava certo ao afirmar que "somos o que comemos", 
ser foroso concluir que, ao servir refeies de notcias ao povo os jornais esto realizando uma magia perversa sobre os seus leitores: depois de comer eles sero 
iguais quilo que leram.

Faz tempo que parei de ler jornais. Leio, sim, movido pelo esprito da leitura dinmica, apressadamente, deslizando meus olhos pelas manchetes para saber no o que 
est acontecendo, mas para ficar a par do menu de conversas estabelecido pelos jornais. Muita coisa importante e deliciosa acontece sem virar notcia, por no combinar 
com o gosto gastronmico dos leitores. Se no fizer isto ficarei excludo das rodas de conversa, por falta de informaes. Parei de ler os jornais, no por no gostar 
de ler mas precisamente porque gosto de ler. As notcias dos jornais so incompatveis com meus hbitos gastronmicos: leio bovinamente, vagarosamente, como quem 
pasta... ruminando. O prazer da leitura, para mim, est no naquilo que leio mas naquilo que fao com aquilo que leio. Ler, s ler,  parar de pensar.  pensar os 
pensamentos de outros. E quem fica o tempo todo pensando o pensamento de outros acaba por desaprender a arte de pensar seus prprios pensamentos: outra lio de 
Schopenhauer. Pensar no  ter as informaes. Pensar  o que se faz com as informaes.  danar com o pensamento, apoiando os ps no texto lido:  isso que me 
d prazer. Suspeito que a leitura meticulosa e detalhada das informaes tenha, freqentemente, a funo de tornar desnecessrio o pensamento. Pensar os prprios 
pensamentos pode ser dolorido. Quem no sabe danar corre sempre o perigo de escorregar e cair... Assim, ao se entupir de notcias - como o comilo grosseiro que 
se entope de comida - o leitor se livra do trabalho de pensar.

Confesso que no sei o que fazer com a maioria das notcias dos jornais: entendo as palavras mas no entendo a notcia. Penso: se eu no entendo a notcia que leio, 
o que acontecer com o "povo"? Outras notcias s fazem explicitar o que j se sabe. Detalhes, cada vez mais minuciosos, das tramias polticas e econmicas de 
um Maluf, de um Jader, nada acrescentam ao j sabido. Esse gosto pela mincia escabrosa se deriva da pornografia, que encontra seus prazeres na contemplao dos 
detalhes srdidos, que so sempre os mesmos, como o comprovam as salas de "imagens erticas" da Internet. A dita reportagem sobre a tal senhora e as notcias sobre 
Jader e Maluf atendem s mesmas preferncias gastronmicas. Ser que as notcias so selecionadas para dar prazer aos gostos suinos da alma? Por outro lado, h os 
suplementos culturais que, para serem entendidos,  preciso ter doutoramento. Para o povo, o futebol...

Ao final de sua crnica o Arnaldo Jabor d um grito: "Os rgos de imprensa devem ter um papel transformador na sociedade..." Dizendo do meu jeito: os rgos de 
imprensa tm de contribuir para a educao do povo. Mas educar no  informar. Educar  ensinar a pensar. Os jornais ensinam a pensar? Repito a pergunta: Ser que 
a leitura dos jornais nos torna estpidos?

(Folha de S. Paulo, Tendncias e Debates, 02/09/2001.)


"... ASTUTOS COMO AS SERPENTES..."
A histria da humanidade pode ser escrita como a histria da violncia dos fortes sobre os fracos. Os fortes sempre se valeram do poder das armas e do poder do dinheiro 
para usar os fracos como meios para atingir os seus prprios fins. A escravido , talvez, a imagem mais clara desta condio - senhores e escravos - o resto sendo 
variaes sobre o mesmo tema.
Houve, entretanto, um momento em que a humanidade deu um salto: quando se reconheceu, pela primeira vez, que todos so iguais perante a lei, sem discriminao de 
cor, raa, sexo, idade, religio, educao, riqueza, tendo todos o mesmo direito  felicidade. Numa curta sentena filosfica: os homens e mulheres so "fins" em 
si mesmos, no podendo ser usados como "meios" de quem quer que seja. Todos tm o direito de lutar por atingir sua prpria felicidade, no podendo ser usados como 
meios para a felicidade de outros.
Foi a partir dessa conscincia que se criaram leis para proteger os fracos: para que no ficassem  merc da vontade dos fortes. Isso  bom e justo: os fracos precisam 
ser protegidos.
Tem existido, atravs da histria, uma tendncia universal curiosa e perversa: a de separar os homens em dois grupos distintos e opostos: de um lado, os "bons"; 
do outro lado, os "maus": "fiis" e "infiis", "ortodoxos" e "hereges" ,"mocinhos" e "bandidos"... O que  bom  s bom; o que  mau  s mau.  uma tendncia to 
marcante que at recebeu um nome filosfico: maniquesmo.
O curioso  que nenhum grupo jamais se viu como pertencendo ao "time do mal". As ditaduras mais terrveis se acreditavam a servio de uma causa sublime, e era isso 
que justificava a sua crueldade contra os seus inimigos. Os maus so sempre os outros: aqueles que no pertencem ao "time" em que jogamos e por que torcemos. Psicologia 
de torcida de futebol: o outro time est sempre errado, o outro time sempre merece perder, ainda que, para isso, se faa uso de algumas faltas violentas. O que  
uma perna quebrada de um adversrio se isso vai permitir que meu time ganhe? O futebol  o jogo que melhor representa a realidade psicolgica e poltica da sociedade. 
Quer saber como funciona a sociedade? Estude futebol...
E foi assim que a sociedade, por obra de ideologias e teologias, foi dividida em dois times: os patres e os empregados...
E a, maniqueisticamente, os bons e os maus, os justos e os injustos, os explorados e os exploradores. O perigo surge quando, por inspirao da tentao maniquesta 
de separar tudo em bom e mau, os times so transformados em time dos injustos e exploradores e time dos justos e explorados...
Essa diviso  falsa.  uma deformao ideolgica perigosa porque tira das pessoas a capacidade de pensar racionalmente. No livro Alice no Pas das Maravilhas h 
um julgamento a propsito do roubo de uma torta em que a Rainha gritava: "A sentena primeiro; o julgamento depois..." Psicologia da torcida de futebol: a sentena 
j est dada antes do incio do jogo. Assim,  fcil chegar  concluso de que os patres so sempre injustos e exploradores e os empregados so sempre justos e 
explorados. A propsito disso desejo relatar alguns casos que conheo.
*Meu amigo, homem honesto e religioso... Apareceu na sua casa uma mulher grvida, pedindo ajuda. As grvidas comovem sempre. Ele a ajudou. A ela pediu: "O senhor 
no tem um servicinho que eu possa fazer?" Ele no tinha, mas ficou com d. "O que  que voc sabe fazer?", ele perguntou. "Sei passar roupa", ela respondeu. "Ento 
entre que a gente arranja umas roupinhas para voc passar..." Ele no precisava de algum que passasse roupa. At aquele dia as roupas da casa tinham sido passadas 
sem o auxlio da grvida. Ele s estava querendo, movido por compaixo, arranjar uma "desculpa" para ajud-la, para que ela no fosse simplesmente uma mendiga. Ela 
entrou, passou roupa por umas duas horas, ganhou seu dinheirinho e se foi. E assim aconteceu, por uma semana. A ela desapareceu por um ms. Depois de um ms, voltou. 
Explicou que tivera que faltar porque o pai estava doente. De novo o meu amigo permitiu que ela passasse roupa. Ele no precisava. Na ausncia da grvida as roupas 
haviam sido passadas. Mais uma semana, seguida de um ms de desaparecimento. Um ms depois ela volta... A ele desconfiou e achou melhor encerrar a caridade. Fez 
as contas e pagou o devido. Passadas algumas semanas, processo trabalhista contra o meu amigo. "Ela estava registrada em carteira?" No estava. Ele no tinha contratado 
uma empregada. No precisava do servio dela. Estava s ajudando uma grvida comovente desamparada. "Publicou nos jornais da cidade a ausncia dela por um ms, para 
justificar abandono de emprego?" No. Por que iria publicar que uma grvida pedinte havia deixado de ir  sua casa? Sentena: condenado a pagar os direitos da grvida. 
Foi fazer o pagamento no sindicato das empregadas domsticas. Ali, a pessoa responsvel o recebeu com esta frase: "Com a gente  assim: patro que rouba empregado 
tem de pagar..."
*Precisei fazer uma reforma. Contratei um empreiteiro. Todas as minhas relaes foram exclusivamente com ele. Jamais tive qualquer coisa a ver com quem quer que 
fosse que trabalhasse para ele. Terminada a obra, um ms depois, sou intimado pela justia do trabalho. Dois ajudantes de pedreiro alegavam, por meio de uma advogada, 
que na data tal eu os havia contratado, que na data tal eu os havia despedido, sem aviso prvio, sem pagar frias e o 13. Queriam uma indenizao de R$12.000,00. 
Fiquei perplexo. Eu nunca tivera qualquer tipo de relao com eles, no os contratara e no os despedira. Argumentei com meu advogado: "O que eles dizem  mentira. 
Eles sabem que  mentira. Isso  falso testemunho. Mentir para a justia no  crime?" Informou-me o meu advogado: "O empregado pode alegar o que ele quiser sem 
precisar provar. O empregador  que tem de provar que aquilo que est sendo alegado no  verdade..."
*J velhinha, andava com dificuldade, valendo-se de uma bengala. Tinha uma cozinheira. Um dia, sentindo-se fraca, pediu  cozinheira: "Ser que voc pode me dar 
o brao para eu ir  quitanda? No estou me sentindo bem..." A cozinheira lhe deu o brao e l se foram elas. Dois dias depois a situao se repete. "Ser que voc 
pode me dar o brao para eu ir  quitanda?" A cozinheira lhe deu o brao e enquanto andavam pela rua observou: "Agora no sou apenas cozinheira. Tenho uma funo 
a mais. Sou tambm sua 'acompanhante'. Todos os que nos vem so testemunhas..." A velhinha lhe agradeceu o brao e desde esse dia foi sozinha com sua bengala at 
a quitanda...
*Se um rapazinho pedir para lavar seu carro e voc concordar - e ele passar a regularmente lavar o seu carro s 2as. feiras, tudo bem. Mas se ele sugerir que ele 
poderia, s 5as. feiras, varrer o seu jardim - no aceite. Duas vezes por semana configura uma relao empregatcia.
*Tenho uma amiga que se comove com adolescentes. Comoveu-se com uma menina de uns 12 anos, maltrapilha, que comeou a aparecer na sua loja. Ps-se a ajud-la: sabonete, 
banho, roupa nova. A, por essas coisas da economia, teve de fechar a loja. A menina lhe disse: "Agora estou perdida. Minha me est morrendo no hospital e voc 
se vai..." Disse-lhe a minha amiga: "Enquanto eu for viva eu a protegerei." E assim foi. Passaram-se os meses. A menina ficou grvida. Mudou-se com o pai da criana 
para o sul do estado. O pai desapareceu. No tendo como cuidar do filho ela o deu para uma tia. A, ficou grvida de novo. Num belo dia toca a campainha da casa 
da minha amiga.  porta, a adolescente com um nenezinho de dois meses nos braos. No tinha para onde ir. Minha amiga a recebeu e a alojou no quarto de empregada, 
que estava vazio. Adolescente e nen se integraram na famlia e ela passou a fazer as coisas que todo mundo faz, numa casa: varrer, lavar loua. A criancinha passou 
a ser cuidada como se fosse filha. Tudo to puro, to simples... A um advogado amigo a advertiu: "Faa um contrato de aluguel com a adolescente. Ela ter que ser 
sua 'inquilina'. Vai alugar o quarto por R$1.00 por ms. Se voc no fizer isso e se ela arranjar um namorado malandro, voc ter de pagar salrios, 13o, frias 
- pois ela varria e lavava e muita gente via..."
Moral da estria: no h classes justas. Dentro de todas as pessoas, moram os mesmos anjos e os mesmos demnios, as mesmas pombas e as mesmas cascavis. Portanto, 
 preciso seguir o conselho de Jesus: "Ser simples como as pombas...e astutos como as serpentes..."

BRINCAR  DIFCIL...
Minhas netas: Eu gosto de ler as revistinhas do Pato Donald. Pois o professor Pardal, aquele inventor maluco, teve uma idia genial. Imaginou que seria legal se 
ele inventasse, para o Huguinho, o Zezinho e o Luizinho, brinquedos que lhes dessem alegria sempre. Pois h brinquedos que no do alegria: pipa em dia sem vento, 
no voa e fica no cho; pio que no gira quando se puxa a cordinha e vai rolando pelo cho; taco de beisebol quando erra a bola e o menino fica com cara de bobo. 
Quando essas coisas acontecem os brinquedos no do alegria; do tristeza.
"Pois eu vou inventar brinquedos que dem alegria sempre", disse o professor Pardal. "Uma pipa que voe sempre, um pio que gire sempre e um taco que acerte a bola 
sempre!" Dito e feito! O professor Pardal entrou no seu laboratrio, pensou, trabalhou e inventou os trs brinquedos que, segundo ele imaginava, dariam alegria sempre. 
De fato, os trs patinhos ficaram felicssimos quando receberam os brinquedos mgicos. Mas a alegria durou pouco. Porque no existe nada mais chato do que um brinquedo 
que acerta sempre. Brincar s  divertido quando existe a possibilidade de no dar certo. Brinquedo divertido exige luta, esforo: lutar com o vento, lutar com o 
pio, lutar com o taco, para ver quem pode mais...
Em algumas roas (vocs se lembram que eu morava na roa...) se fazia um jogo muito concorrido por ser muito engraado: num cercadinho cujo cho era lama pura, bem 
mole, colocavam um porquinho bem redondo, no sem antes besunt-lo com graxa. Ele ficava liso, escorregadio e quase impossvel de segurar. A seguir, colocavam l 
dentro trs meninos que queriam pegar o porquinho: quem o agarrasse ficava com ele. Acontece que o porquinho no era bobo e no queria ser pego. Corria, fugia, e 
os meninos atrs... Bastava que um menino o agarrasse para que o porquinho escorregasse e o menino casse de cara na lama! Todo mundo morria de rir, inclusive os 
meninos. Agora imaginem que, se ao invs de um porquinho, fosse uma tartaruga... Qual seria a graa? Nenhuma. Pegar uma tartaruga  coisa muito fcil. Pegar uma 
tartaruga no  desafio.
Todo brinquedo tem de oferecer um desafio. "Desafio"  isso: uma coisa que a gente quer fazer mas  difcil fazer. Num brinquedo a gente est sempre "medindo foras" 
com alguma coisa: com a gua (nadar  brincar com a gua), com uma rvore (subir na rvore  brincar com a rvore), com uma pessoa (o "pique": quem corre mais rpido), 
com uma adivinhao (todo problema  um enigma a ser decifrado)... Alpinista no acha graa subir em morro baixo: o que ele quer  escalar montanha alta, muito alta, 
que poucos conseguem escalar. Como, por exemplo, os picos Aconcgua e Everest. Essas montanhas so to difceis que muitas pessoas j morreram na escalada. E, no 
entanto, outros alpinistas continuam a tentar a escalada. Por qu? Nada os obriga a isso! Porque as montanhas os desafiam. Olhando para um pico os alpinistas sentem 
que ele est lhes dizendo: "Estou aqui. Ser que vocs podem comigo?" Um quebra-cabeas de 16 peas: que graa tem?  s olhar para saber onde as peas se encaixam. 
Mas um quebra-cabeas de 500 ou mesmo 1.000 peas: isso sim  um desafio. Aquele monte de peas em cima da mesa est nos dizendo: "Veja se voc  capaz de nos ajuntar 
de forma que todas fiquemos encaixadas umas nas outras e desse encaixe aparea uma quadro..."
Minha me gostava de me ensinar brinquedos. Um dos primeiros brinquedos que ela me ensinou, lembro-me muito bem: eu deveria ter 4 ou 5 anos. Ela estava me dando 
banho, na banheira. A ela me disse: "Veja". A seguir ensaboou bem as mos, fechou a mo direita, abriu um pouco os dedos, de modo que ficasse um buraquinho entre 
o mata-piolho e o fura-bolo, e comeou a soprar suavemente. Do outro lado do buraco uma bolha de sabo comeou a tomar forma e foi crescendo, crescendo at que estourou! 
Fiquei encantado! Quis aprender. A gente sempre tem vontade de aprender quando fica encantado. Levou tempo mas aprendi. A, dominada a tcnica, os desafios aumentaram: 
fazer bolhas cada vez maiores. 
E, por fim, com um gesto rpido, libertar a bolha da minha mo para que ela flutuasse sozinha. Mais tarde aprendi a produzir bolhas de forma mais tcnica: colocava 
um pedacinho de sabo dentro de uma canequinha com gua quente, esperava que o sabo derretesse, enfiava um canudinho cortado de um mamoeiro dentro da gua, e soprava: 
e era aquela felicidade, vendo as bolhas que saam e flutuavam. Uma bolha  um vazio que uma pelcula de sabo prendeu e arredondou...
Outro brinquedo de criana pequena  assobiar. Que inveja dos meninos maiores! E eu soprava que soprava, mas s saa o barulho do vento. At que um dia, assobiei. 
A passei a assobiar o tempo todo e fui me aperfeioando. At que ficou fcil. Assobiar deixou de ser um desafio. Mas um outro desafio surgiu: aquele assobio forte 
que se produzia pondo dois dedos na boca, debaixo da lngua. Tentei muitas vezes e no aprendi. Ainda hoje eu tenho inveja...
Como a gente era pobre e no tinha dinheiro para comprar brinquedos, a gente fazia os brinquedos. Minha me me ensinou a fazer chapus de Napoleo com jornais, a 
recortar bonequinhas, todas de mos dadas, a fazer corrupios com botes e linha, a fazer barquinhos de papel, que eu colocava na enxurrada... Hans Christian Andersen, 
um contador de estrias dinamarqus, contou a estria de um soldadinho de chumbo de uma perna s, apaixonado pela bailarina da caixinha de msica, que navegou num 
barquinho de papel nas guas da chuva que corriam pela sarjeta, at naufragar num bueiro, que o levou ao rio, onde foi engolido por um peixe...
Para fazer brinquedos a gente tinha de desenvolver duas habilidades. A primeira era um jeito especial de olhar para as coisas. Tendo, na cabea, o brinquedo que 
se queria, a gente comeava a olhar para os objetos  nossa volta, procurando aqueles que poderiam ser usados para faz-lo. Tudo podia se transformar em brinquedo: 
pedaos de madeira, carretis de linha, pedaos de barbante, vidros vazios (so excelentes assobios), lmpadas velhas (podem ser transformadas em lentes), chaves, 
botes, cmaras de ar de bicicletas, pneus, caixas de fsforo vazias (com elas se fazem matracas), bambus (eles tm 1001 utilidades), latas de massa de tomate (com 
elas se fazem telefones), rolhas, folhas de coqueiro, retalhos, sementes, batatas (com 4 palitos espetados se transformam em bois...), sabugos de milho, caixas de 
sapato... Bolas se faziam com meias velhas. Bonecas, a tia Anastcia fez a Emlia com retalhos velhos, agulha e linha. E o Visconde de Sabugosa, com um sabugo de 
milho. Os gros de milho serviram de botes na sua casaca feita com as palhas do milho. Distrado, um frango se aproximou e comeu um dos seus botes...
Hoje se compram pipas prontas nas lojas. No tem graa. Eu fazia minhas pipas. Era preciso produzir as varetas, cortando-as de pedaos de bambu e alisando-as com 
uma faca at ficarem bem iguais e bem lisas, para que a pipa no ficasse desequilibrada. E, para colar o papel, eu fazia grude, dissolvendo polvinho em gua e pondo 
no fogo de lenha para ferver, mexendo sem parar para no empelotar.
Mas, de todos os brinquedos, aqueles de que eu mais gostava eram os balanos. O primeiro desafio era fazer o balano: conseguir a corda, descobrir um galho horizontal 
de mangueira, subir l em cima, amarrar as cordas, fazer o assento. Depois de feito, balanar, cada vez mais alto, sem que ningum empurrasse, at encostar a ponta 
do p na folha do galho que me desafiava...
A Camila  minha neta, aquela que est trocando dentes. Foi aniversrio dela no dia 5. Fez 8 anos. A Camila  uma menina muito alegre, cheia de vida. To cheia de 
vida que, por vezes, d canseira segui-la... Que bom que voc  minha neta, Camila!


CASAS QUE EMBURRECEM
"O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou co mestre - o senhor solte em minha frente uma idia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, 
amm!"
Quem disse foi o Riobaldo, com o que concordo e tambm digo amm. Pois eu estava rastreando uns camundongos burros criados pelo prof. Tsien e umas teorias do prof. 
Reuben Feuerstein (pronuncia-se fier-stin) no meio de uma mataria de idias quando topei com um menino de sandlias havaianas na porta do aeroporto de Guarapuava 
que fez minha rastreao parar. O que ele me pedia era mais importante, pedia que eu lhe comprasse um salgadinho para ajudar. Parei, comprei, comi, perdi o rumo, 
deixei de rastrear os camundongos do prof. Tsien e as teorias do prof. Feuerstein, entrei por uma "digresso", meu pensamento excursionou ao sabor das minhas emoes 
- mas agora estou de volta, o faro de co rastreador afinado de novo.
Pois o prof. Tsien, da Universidade de Princeton, se deu ao trabalho de criar camundongos mais burros que os domsticos. Se voc se espanta com o fato de um cientista 
gastar tempo e dinheiro para produzir camundongos burros, desejo chamar a sua ateno para o fato de que a burrice  muito til, do ponto de vista poltico e social. 
Aldous Huxley afirma que a estabilidade social do "Admirvel Mundo Novo" se devia aos mecanismos psico-pedaggicos cujo objetivo era emburrecer as pessoas. A educao 
se presta aos mais variados fins. Pessoas inteligentes, que vivem pensando e tendo idias diferentes, so perigosas. Ao contrrio, a ordem poltico-social  melhor 
servida por pessoas que pensam sempre os mesmos pensamentos, isso , pessoas emburrecidas. Porque ser burro  precisamente isso, pensar os mesmos pensamentos - ainda 
que sejam pensamentos grandiosos. Prova disso so as sociedades das abelhas e das formigas, notveis por sua estabilidade e capacidade de sobrevivncia.
Os camundongos burros do prof. Tsien, confrontados com situaes problemticas, eram sempre derrotados pelos camundongos domsticos. Mas o objetivo da pesquisa era 
inteligente. O prof. Tsien queria testar uma teoria: a de que, se os camundongos burros fossem colocados em situaes interessantes, estimulantes, desafiadoras, 
a sua inteligncia inferior construiria mecanismos que os tornariam inteligentes. Em outras palavras: limitaes genticas da inteligncia podem ser compensadas 
pelos desafios do meio ambiente. Assim, ele colocou os camundongos burros em gaiolas que mais se pareciam com parques de diverso, dezenas de coisas a serem feitas, 
dezenas de situaes a serem exploradas, dezenas de objetos curiosos. Como mesmo os burros tm curiosidade e gostam de fuar, os camundongos comearam a agir. Depois 
de um certo perodo de tempo, colocados em situaes idnticas juntamente com os camundongos domsticos, os camundongos burros tinham deixado de ser burros. No 
ficavam de recuperao. 
No conheo a obra do prof. Feuerstein. Suas teorias sobre a inteligncia me foram contadas. Fiquei fascinado. Desejo que ele esteja certo. Pois o que ele pensa 
est de acordo com as concluses de laboratrio do prof. Tsien. Feuerstein tem interesse especial em pessoas que, por fatores genticos (sndrome de Down, por exemplo) 
ou ambientais (ambientes pobres econmica e culturalmente) tiveram suas inteligncias prejudicadas. Diante de testes o seu desempenho  inferior ao de crianas "normais". 
Sua hiptese, testada e confirmada,  que, se tais pessoas forem colocadas em ambientes interessantes, desafiadores e variados, a sua inteligncia inferior sofrer 
uma transformao para melhor. A inteligncia se alimenta de desafios. Diante de desafios ela cresce e floresce. Sem desafios ela murcha e encolhe. As inteligncias 
privilegiadas podem tambm ficar emburrecidas pela falta de excitao e desafios. 
Isso me fez dar um pulo dos camundongos do prof. Tsien, as teorias do prof. Feuerstein, para as casas onde moramos. Nossas casas so um dos muitos ambientes em que 
vivemos. Cada ambiente  um estmulo para a inteligncia. ( difcil ser inteligente num elevador. No elevador s h uma coisa a se fazer: apertar um boto...) . 
E pensei que h casas que emburrecem e h casas onde a inteligncia pode florescer.
No adianta ser planejada por arquiteto, rica, decorada por profissionais, cheia de objetos de arte. No sei se decorao  arte que se aprende em escola. Se a decorao 
se aprende em escola, pergunto se existe, no currculo, uma matria com o ttulo: "Decorao de emburrecer - decorao para provocar a inteligncia"... Essa pergunta 
no  ociosa. Casas que emburrecem tornam as pessoas chatas. Criam o tdio. Imagino que muitos conflitos conjugais e separaes se devem ao fato de que a casa, finamente 
decorada, emburrece os moradores. L os objetos no podem ser tocados. Tudo tem de estar em ordem, um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar. Orgulho da 
dona de casa, casa em ordem perfeita. 
Acho que foi Jaspers que disse que ele no precisava viajar porque todas as coisas dignas de serem conhecidas estavam na sua casa. Jaspers viajava sem sair de casa. 
Mas h casas que so um tdio: lugar para dormir, tomar banho, comer, ver televiso. Se  isso que  a casa, ento, depois de dormir, tomar banho, comer e ver televiso 
no h mais o que fazer na casa, e o remdio  sair de gaiola to chata e ir para outros lugares onde coisas interessantes podem ser encontradas. Sugiro aos psicopedagogos 
que, ao lidarem com uma criana supostamente burrinha, investiguem a casa em que ela vive. O quarto mais fascinante do sobrado colonial do meu av era o quarto 
do mistrio, de entrada proibida, onde eram guardadas, numa desordem total, quinquilharias e inutilidades acumuladas durante um sculo. Ali a imaginao da gente 
corria solta. J a sala de visitas, linda e decorada, era uma chatura. A crianada nunca ficava l. Na sala de visitas a nica coisa que me fascinava eram os vidros 
coloridos importados, lisos, atravs do qual a luz do sol se filtrava. 
Na minha experincia, a inteligncia comea nas mos. As crianas no se satisfazem com o ver: elas querem pegar, virar, manipular, desmontar, montar. Um amante 
se satisfaria com o ato de ver o corpo da amada? Por que, ento, a inteligncia iria se satisfazer com o ato de ver as coisas? A funo dos olhos  mostrar, para 
as mos, o caminho das coisas a serem mexidas.
Acho que uma casa deve estar cheia de objetos para serem mexidos. A casa, ela mesma,  para ser mexida. Razo por que eu prefiro as casas velhas. Tenho um amigo 
que comprou um lindo apartamento, novinho, e morre de tdio. Porque no h, no seu apartamento, nada para ser consertado. Eu sinto uma discreta felicidade quando 
alguma coisa quebra ou enguia. Porque, ento, eu posso brincar...
Os livros precisam estar ao alcance das mos. Em todo lugar. Na sala, no banheiro, na cozinha, no quarto. Muito til  uma pequena estante na frente da privada, 
com livros de leitura rpida. Livros de arte, por exemplo!  preciso que as crianas e jovens aprendam que livros so mundos pelos quais se fazem excurses deliciosas. 
Claro! Para isso  preciso que haja guias! Cuidado com os brinquedos: brinquedo  um objeto que desafia a nossa habilidade com as mos ou com as idias. Esses brinquedos 
de s apertar um boto para uma coisa acontecer so objetos emburrecedores - aperta um boto a boneca canta, aperta outro boto a boneca faz xixi, aperta um boto 
o carro corre. No fazem pensar. 
No momento em que a menina resolver fazer uma cirurgia na boneca para ver como a mgica acontece - nesse momento ela est ficando inteligente. Quebra-cabeas: objetos 
maravilhosos que desenvolvem uma enorme variedade de funes lgicas e estticas ao mesmo tempo. Armar quebra-cabeas  noite: uma excelente forma de terapia familiar 
e pedagogia: o pai ensinando ao filho os truques. Ferramentas: com elas as crianas desenvolvem habilidades manuais, aprendem fsica e experimentam o prazer de consertar 
ou fazer coisas. A quantidade de conhecimento de fsica mecnica que existe numa caixa de ferramentas  incalculvel. A cozinha aberta a todos. A cozinha  um maravilhoso 
laboratrio de qumica. Cozinhar educa a sensibilidade. 
Voc nunca havia pensado nisso, a relao entre a sua casa e a inteligncia, a sua inteligncia e a inteligncia dos seus filhos. Sua casa pode ser emburrecedora. 
Ou pode ser um espao fascinante onde os camundongos do prof. Tsien repentinamente ficam inteligentes...

CHAPEUZINHO VERMELHO

Os americanos so uma gente divertida. L tem sempre uma coisa na moda, a que eles do o nome de "fad". Por exemplo: a coisa do "sexual harassment" - assdio sexual 
- que eu acho detestvel. Mas l fica divertido. Um menininho de 7 anos foi expulso da escola porque beijou uma coleguinha! Li, incrdulo, que os legisladores de 
um certo estado se deram conta de que se pode fazer assdio sexual s olhando. O problema: como identificar o olhar obsceno? A soluo que encontraram foi a seguinte: 
at 9 segundos o olhar  inocente. Mas se demorar mais de 9 segundos  obsceno. Um amigo meu, burocrata brasileiro residente nos USA, ao receber sua secretria que 
regressava das frias, deu-lhe, impulsivamente, um abrao e um beijo na bochecha. "A, Rubem, fiquei gelado!" ele me disse. "Eu poderia perder o emprego por causa 
disso. Corri para meu escritrio e escrevi uma carta formal com um pedido de desculpas... Se no tivesse feito isso poderia ser processado por 'sexual harassment"... 
Outro "fad"  a tal de "PC language" - politically correct language, linguagem politicamente correta. O que  isso? H jeitos de falar que esto de acordo com a 
ideologia. Mas h certos jeitos de falar que no esto de acordo com a ideologia. A Inquisio foi, toda ela, baseada na PC language. Quem falasse linguagem diferente 
daquela que a Igreja havia definido como correta ia para a fogueira. O Generalssimo Franco tambm fez uso dela. A palavra "seio" foi proibida, como ertica. Poeta 
usasse a palavra "seio" num poema corria o risco de ir para o garrote vil. A "PC language" americana probe que se use a palavra "ele" para se referir a Deus ( pensar 
que Deus  homem  ideologia machista...) e que se contem piadas que faam gozao de certos grupos sociais como gays, negros, mulheres. Est muito certo. Mas logo 
aparecem os ultra-ortodoxos que comeam a caar bruxas. Uma vez, fazendo uma fala nos USA, usei a expresso "to be impregnated" - ser engravidado - num sentido metafrico. 
Pois uma senhora, do auditrio, interferiu prontamente em nome da PC language, dizendo que eu estava usando "sexist language"...
Encontrei numa livraria de aeroporto, um livro de estrias infants re-escritas segundo a PC language. Claro, o escritor estava fazendo gozao. A me deu um impulso 
de re-escrever a estria do Chapeuzinho Vermelho para os dias de hoje, seguindo as linhas da PC language, mesmo porque no h criana que acredite na estria como 
foi escrita.
"Havia uma rica senhora que vivia numa manso no Alphaville com a sua filha adolescente que todos conheciam pelo apelido de Rbia. Rbia, do latim "rubeus", vermelho, 
ruivo.  que a menina, inconformada com a banalidade dos seus cabelos castanhos, tratou de tingi-los de vermelho, por achar mais charmoso e por nutrir a esperana 
de que seus cabelos ruivos viessem a chamar a ateno de um empresrio de modelos. Ser modelo era o seu grande sonho. O vermelho dos seus cabelos encontrava confirmao 
no seu temperamento: ela era fogo e ficava vermelha quando estava brava. [ Nota 1: Se eu dissesse que o seu nome era Chapeuzinho Vermelho ningum acreditaria. J 
imaginaram uma menina indo por a usando um "chapeuzinho"? Iria se tornar logo motivo de gozao geral. ]. Pois numa noite, por volta das 10 horas, sua me lhe disse: 
"Rubinha querida, quero que voc me faa um favor..." "L vem a me de novo", ela pensou. "De jeito nenhum", ela respondeu. "Estou vendo televiso..." O que uma 
adolescente, na idade dela, estaria fazendo em casa, s 10 da noite,  fcil de explicar.  que ela era uma chata. Ningum queria ficar com ela. Os moos fugiam 
dela. E isso porque ela, por se julgar o mximo, s gostava de restaurantes caros. E, como o dinheiro anda curto para os moos, s dando para uma cerveja com batatas 
fritas, em barzinhos, ningum se arriscava a convidar a Rbia para sair. " Mas eu ia deixar voc dirigir o meu BMW...", disse me. Rbia se levantou de um pulo: 
"Para guiar o BMW eu fao qualquer coisa... Que  que voc quer que eu faa?" "Quero que voc v levar uma cesta bsica para sua vovozinha, l na Vila Oziel.  preciso 
ter muito cuidado. Andar de BMW, depois das 10 da noite na Vila Oziel  um convite aos sequestradores da quadrilha do Andinho. [ Nota 2: a estria original contm 
dois problemas, relativos ao carter e s intenes da me. Primeiro: mandar uma menina pequena, sozinha, pela floresta, sabendo que havia um lobo solto: ou a me 
era um tola irresponsvel ou ela estava com impulsos assassinos em relao  filha, desejando que o lobo a comesse. O segundo problema: viviam sozinhas a me a filha; 
no h referncias a um pai ou marido. Ento, qual a razo para que a av morasse do outro lado da floresta? No seria mais prtico que elas vivessem juntas? Se 
a av morasse junto com elas seria to mais simples, to mais econmico! E Chapeuzinho no teria que enfrentar um lobo para que a vovozinha comesse queijos, bolos 
e ovos...] Rbia j estava saindo da garagem com o BMW quando sua me lhe gritou: " A cesta bsica! Voc est se esquecendo da cesta bsica!" Depois de meia hora 
Rbia chegou  Vila Oziel e se dirigia para a casa de sua av com a cesta bsica. Foi quando o inesperado aconteceu. Um pneu furou. At mesmo pneus de BMWs furam. 
Rbia se sentiu perdida. Com medo, no. Ela no tinha medo. O problema era sujar as mos para trocar o pneu. Foi quando uma Mercedes se aproximou dirigida por um 
senhor que usava olhos escuros. H pessoas que usam culos escuros mesmo de noite. A Mercedes parou e o homem de culos escuros saiu. "Precisando de ajuda, boneca", 
ele perguntou? "Claro", ela respondeu. "Pois vou ajudar voc; esse lugar  muito perigoso. A propsito, deixe que me apresente. Meu nome  Crescncio Lobo, s suas 
ordens". ( Nesse momento Crescncio Lobo se lembrou de uma estria antiga que dizia assim: "Hoje estou contente, vai haver festana, tenho um bom petisco para encher 
a minha pana..." ). Cantarolando baixinho essa msica ele pegou o macaco, suspendeu o carro, e comeou a trocar o pneu. Rbia pensou: " hoje! Minhas oraes foram 
atendidas. Um homem bonito, gentil, com uma Mercedes." "Pronto", ele disse. "O carro est pronto para ir. E para onde voc est indo, boneca?" "Vou levar uma cesta 
bsica para minha av." "Pois eu vou segui-la, para proteg-la. Esse lugar  perigoso. Os sequestradores esto  espreita..." E assim Rbia, sorridente sonhadora, 
se dirigiu para a casa de sua av escoltada por Crescncio Lobo. 
Ao chegar  casa da av Crescncio Lobo se surpreendeu. Era uma senhora elegante, fina, de voz suave, inteligente. Pensou: "Se no fossem essas rugas, ela seria 
uma linda mulher..." Logo os dois estavam envolvidos numa animada conversa, Crescncio Lobo encantado com o suave charme e inteligncia da av, a av encantada com 
o encantamento que Crescncio Lobo sentia por ela. Rbia percebeu o que estava acontecendo e foi ficando com raiva, vermelha, vermelha at que a raiva produziu uma 
exploso histrica. Como admitir que Crescnciao Lobo gostasse mais da av do que dela? Comeou a gritar, e por mais que os dois se esforassem, no conseguiram 
acalm-la. Passava por ali, acidentalmente, uma viatura do 5 Distrito Policial. Os policiais, ouvindo a gritaria, imaginaram que um crime estava acontecendo. Pararam 
a viatura e entraram na casa. E o que encontraram foi aquela cena ridcula: uma adolescente ruiva, desgrenhada, gritando como louca, enquanto a av e o Crescncio 
Lobo tentavam acalm-la. Os policiais perceberam logo que se tratava de uma emergncia psiquitrica e, com a maior delicadeza ( os policiais do 5 DP so sempre 
assim. Tambm pudera! O delegado chefe trabalha ouvindo msica clssica!), convenceram Rbia a acompanh-los at um hospital, onde ela foi devidamente medicada. 
Rbia foi mansamente... Afinal, aquele policial era lindo e forte!
Quanto  av e o Crescncio Lobo, aquela noite foi incio de uma relao amorosa maravilhosa. Crescncio Lobo percebeu que no h carinha de adolescente cabea de 
vento que se compare ao estilo de uma senhora inteligente e experiente. E a av, que ouvira de uma feminista canadense que o melhor remdio para a velhice  um "galeto 
ao primo canto", entregou-se gulosamente aos hbitos gauchos. Crescncio Lobo pagou-lhe uma plstica geral. A av ficou zero quilmetros. E viveram muito felizes, 
por muitos anos. Quanto  Rbia, aquela crise foi o incio de uma feliz relao com o policial do 5 DP, que era especializado psicologicamente no trato dos adolescentes... 
CURIOSIDADE  UMA COCEIRA NAS IDIAS

Eu estava com a cabea quente. Queria descansar, parar de pensar. Para parar de pensar, nada melhor que trabalhar com as mos. Peguei minha caixa de ferramentas, 
a serra circular e a furadeira e fui para o terceiro andar, onde guardo os meus livros.

Iria fazer umas estantes. As tbuas j estavam l. Nem bem comecei a trabalhar de carpinteiro e fui interrompido com a chegada da faxineira. Com ela, sua filhinha 
de sete anos, Dionia. Carinha redonda, sorriso mostrando os dentes brancos, trancinhas estilo afro. O que era de se esperar para uma menina da idade dela era que 
ficasse com a me. No ficou. Preferiu ficar comigo, vendo o que eu fazia. Por que ela fez isso? Curiosidade. Curiosidade  uma coceira que d nas idias... Aquelas 
ferramentas e o que eu estava fazendo a fascinavam. Queria aprender.

"O que  isso que voc tem na mo?", ela perguntou. " uma trena", respondi. "Para que serve a trena?", ela continuou. "A trena serve para medir. Preciso de uma 
tbua de 1,20 m. Assim, vou medir 1,20 m. Veja!"

Puxei a lmina da trena e lhe mostrei os nmeros. Ela olhou atentamente. "Voc j sabe os nmeros?", perguntei. "Sei", ela respondeu. Continuei: "Veja esses nmeros 
sobre os risquinhos. O espao entre esses risquinhos mais compridos  um centmetro. Um metro tem cem centmetros, cem desses pedacinhos. Veja que, de dez em dez 
centmetros, o nmero aparece escrito em vermelho.  que, para facilitar, os centmetros so amarrados em pacotinhos de dez. Um metro  feito com dez pacotinhos 
de dez centmetros. E 1,20 m so dez desses pacotinhos, para fazer um metro, mais dois, para completar os 20 centmetros que faltam". Marquei 1,20 m na tbua com 
um lpis e me preparei para cort-la.

Assim se iniciou uma das mais alegres experincias de aprendizagem que tive na vida. A Dionia queria saber de tudo. No precisei fazer uso de nenhum artifcio para 
que ela estivesse motivada. O que a movia era o fascnio daquilo que eu estava fazendo e das ferramentas que eu estava usando. Seus olhos e pensamentos estavam coando 
de curiosidade. Ela queria aprender para se curar da coceira... Os gregos diziam que a cabea comea a pensar quando os olhos ficam estupidificados diante de um 
objeto. Pensamos para decifrar o enigma da viso. Pensamos para compreender o que vemos. E as perguntas se sucediam. Para que serve o esquadro? Como  que as serras 
serram? Por que  que a serra gira quando se aperta o boto? O que  a eletricidade?

Lembrei-me de Joseph Knecht, o mestre supremo da ordem monstica Castlia, do livro "O Jogo das Contas de Vidro", de Hermann Hesse. Velho, ao final de sua carreira, 
no topo da hierarquia dos saberes, ele se viu acometido por um enfado sem remdio com tudo aquilo e passou a sentir uma grande nostalgia. Ele queria descer da sua 
posio para fazer uma coisa muito simples: educar uma criana, uma nica criana, que ainda no tivesse sido deformada pela escola. Pois ali estava eu, vivendo 
o sonho de Joseph Knecht: a Dionia, que ainda no fora deformada pela escola. Seu rosto estava iluminado pela curiosidade e pelo prazer de entrar num mundo que 
no conhecia.

Lembrei-me de Aristteles em "Metafsica": "Todos os homens tm, por natureza, um desejo de conhecer: uma prova disso  o prazer das sensaes, pois, fora at de 
sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas, e, mais que todas as outras, as visuais...".

Acho que ele errou. Isso no  verdade para os adultos. Os adultos j foram deformados. Acho que ele estaria mais prximo da verdade se tivesse dito: "Todos os homens, 
enquanto so crianas, tm, por natureza, desejo de conhecer...".

Para as crianas, o mundo  um vasto parque de diverses. As coisas so fascinantes, provocaes ao olhar. Cada coisa  um convite.

A a Dionia sumiu. Pensei que ela tivesse voltado para a me. Engano. Alguns minutos depois ela voltou. Estivera examinando uma coleo de livros. "Sabe aqueles 
livros, todos de capa parecida? Os trs primeiros livros esto de cabea para baixo." Retruquei: "Pois ponha os livros de cabea para cima!".

Ela saiu e logo depois voltou. "J pus os livros de cabea para cima." E acrescentou: "Sabe de uma coisa? O livro com o nmero 38 est fora do lugar". A aconteceu 
comigo: fui eu quem ficou estupidificado... Ela, que no sabia escrever, j sabia os nmeros. 

E sabia mais, que os nmeros indicavam uma ordem. Fiquei a imaginar o que acontecer com a Dionia quando, na escola, os seus olhinhos curiosos sero subtrados 
do fascnio das coisas do mundo que a cerca e vo ser obrigados a seguir aquilo a que os programas obrigam. Ser possvel aprender sem que os olhos estejam fascinados 
pelo objeto misterioso que os desafia?

Pois sabe de uma coisa? Acho que vou fazer com a Dionia aquilo que Joseph Knecht tinha vontade de fazer...

SE SUA COZINHEIRA QUISER CANTAR ENQUANTO COZINHA, NO DEIXE...

Desejo dar-lhe um estranho conselho, um conselho que nunca imaginei que um dia eu fosse dar. Esse  o conselho: Se a sua cozinheira tiver o costume de cantar enquanto 
cozinha, no permita. Cozinheiras que cantam em servio podem, um dia, se transformar num imenso problema para voc, com conseqncias financeiras inimaginveis... 
Se voc acha que perdi o juzo, espere um pouco e voc compreender. 

As explicaes, freqentemente, comeam muito longe... Comeo com uma conversa entre dois jagunos do Grande Serto - Veredas, do Guimares Rosa. Um deles confidencia 
ao seu companheiro: 'Matar eu mato. Mas nunca fico com raiva...' O seu colega, duro de entendimento por lhe faltarem sutilezas psicolgicas, no entende e pede explicao. 
O outro responde curto e grosso: 'Quem fica com raiva leva o outro para a cama.' Eu j disse que o dio gruda mais que o amor. Voc est amando... O amor  feliz, 
cheio de memrias bonitas. Voc vai para a cama e dorme sorrindo. E sonha... Mas a acontece algo, algum lhe faz uma coisa que lhe d muita raiva. A raiva toma 
conta de tudo, sentimentos e pensamentos. No o deixa. Sua vontade  gritar, bater, destruir.  hora de dormir. Seus olhos esto pesados. Voc quer dormir. Mas a 
raiva no o deixa. Voc vai para a cama e ao seu lado se deita... a pessoa de quem voc est com raiva. Voc quer pensar coisas bonitas, quer pensar na pessoa amada. 
Mas aquela pessoa, ao lado, no deixa... 
Pois  isso que est acontecendo comigo. Estou com muita raiva. E, por causa da raiva, estou levando para a minha cama um garom que se diz cantor. E, ao meu lado, 
ele canta valsas do Slvio Caldas... 

Tive um restaurante, o Dali Restaurante-Bar. Quando sonhei o Dali, tudo era alegria: as fontes, as rvores, os jardins, os quadros, os drinks, a comida, os amigos 
reunidos e a msica. Sim, msica. Sem a menor vergonha digo que tnhamos ali os melhores msicos de Campinas. Jamais aceitamos a idia de ter msica de segunda classe, 
para economizar. Os sonhos so assim: neles s o que  bom aparece. Os problemas surgem quando se tenta transformar o sonho em realidade. 

Antes de continuar preciso fazer uma confisso. Sou um mau psicanalista. Talvez seja bom no consultrio. Mas quando estou solto na vida a virtude que marca a arte 
da psicanlise me abandona. A psicanlise  uma arte perversa. Ela se baseia na desconfiana. No acredita nas aparncias. V um sorriso e logo pergunta: 'Que coisas 
sinistras esse sorriso est escondendo?' Bachelard chegou a descrever um psicanalista como uma pessoa que, quando se lhe do uma flor, logo pergunta: 'Mas onde est 
o estrume?' 

Sou mau psicanalista porque tenho a tendncia de acreditar no rosto (me esquecendo de que um rosto  sempre uma mscara...). Foi assim que fui me relacionando com 
os funcionrios do Dali, os garons, os bar-men, os msicos, os cozinheiros, os ajudantes de cozinha. Eu achava que eram meus amigos. Todos sorriam para mim. Paguei 
muito caro a minha ingenuidade. H rostos sorridentes onde se escondem cobras. Descobri, na minha pele, que a realidade no  a amizade.  aquilo a que Marx deu 
o nome de 'luta de classes'. A lio de poltica que no aprendi na universidade fui aprender pelo sofrimento no Dali... 

O fato era que eu me comportava como um 'paizo'. Quem me ps esse apelido foi o Edemilson, pedreiro que construiu o Dali e que sempre me foi leal. Queria ajudar 
a todos. Nos apertos todos me procuravam. E eu sempre dava um jeito. 

Pois apareceu l no Dali um garom pedindo emprego. Era um homem de meia idade, estatura mediana, fala mansa, rosto triste, desempregado, pai de filhos. Fiquei com 
pena dele. E no s isso: gostei dele. Suas maneiras eram refinadas, o que revelava algo de suas origens. De fato, nas suas origens estava algo diferente. Ele no 
fora sempre um garom. Um dia ele me mostrou um disco de vinil. Na capa, uma fotografia dele, jovem. Fora cantor. Fiquei com d. Quem, um dia, gravou um disco, sonhou 
em ser grande cantor. Sonhou com palcos, shows, fama, dinheiro. Quem sabe, um dia, ele seria como Roberto Carlos. E vou batiz-lo de Roberto Carlos porque no posso 
dizer o seu nome verdadeiro. ele apareceu com um daqueles discos antigos de vinil. Mas ele no conseguiu ser cantor. Fracassou. Restou-lhe ser garom. Olhava para 
aquele homem triste de fala mansa atendendo os clientes e me comovia, pensando que dentro dele havia um cantor estrangulado. E at lhe emprestei R$500,00 para fazer 
face a uma emergncia, uma cirurgia de hemorridas, coisa muito doda. E foi assim que, movido por compaixo, uma noite em que estava alegre, disse aos meus msicos, 
profissionais de primeira: 'Se no for criar problema para vocs, deixem o Roberto Carlos cantar alguma coisa. Ele vai ficar feliz. Parece que ele canta msicas 
dos tempos do Slvio Caldas...' E foi o que aconteceu. Para o Roberto Carlos foi a glria. De vez em quando os msicos lhe davam uma colher de ch. Fiquei com tanto 
d dele que pedi ao pessoal do Correio Popular que escrevesse algo sobre ele. O que aconteceu. (Mal sabia que esse gesto de generosidade seria usado por ele para 
me apunhalar...) 

Mas a aconteceu o que sempre acontece em restaurantes: invejas entre os funcionrios, brigas, desentendimentos. Havia um bar-man complicado, sistemtico, de difcil 
relacionamento. A equipe embirrou com ele. 'Paizo', entrei em cena para acalmar a famlia. Reuni os funcionrios, inclusive o dito bar-man. Conversei com eles. 
Pedi dilogo e pacincia. Terminada minha curta fala dei oportunidade para que quem quisesse falar falasse. E foi assim que eles, timidamente, comearam a articular 
suas queixas com o bar-man, que a tudo ouvia com absoluta elegncia. Foi ento que, de repente, rompendo o clima existente, houve uma exploso. O Roberto Carlos 
parecia possudo por um demnio. Comeou a gritar, a dizer palavres ao bar-man, terminando por amea-lo de agresso fsica. Levei um susto. Ordenei que o Roberto 
Carlos se calasse. Foi como se eu no existisse. Repeti minha ordem uma, duas, trs vezes, inutilmente. Ento, diante desse desrespeito pblico  minha autoridade 
de patro e da possibilidade de agresso, eu lhe disse: 'Levante-se, recolha suas coisas e se v. Voc est despedido.' 

Um caso claro de demisso por justa causa. Mas, para isso, seria preciso que os funcionrios testemunhassem perante o juiz. Mas ningum quis. Funcionrios de restaurante 
no testemunham contra colegas, a favor do patro. Antes da verdade e da justia, os interesses da classe. Conformei-me, ento, em pagar os direitos que a Justia 
do Trabalho determina. Mas eu no estava preparado para o que se seguiu. Ele, atravs do seu advogado (sem quem no se faz justia), alm dos direitos de garom, 
pedia que ele fosse indenizado como 'cantor do restaurante'. E uma das peas do processo, prova contra mim, foi a tal reportagem que fiz publicar no Correio Popular, 
porque tive pena dele. Assim, estou me tornando um melhor psicanalista. Olhando para os olhos de pomba, fico preparado porque sei que l dentro est aninhada uma 
cobra com bote armado. O juiz j deu a sentena. Segundo a sentena eu fui injusto. No paguei ao artista Roberto Carlos aquilo que deveria ter pago - cantor que 
ele era. J fiz o depsito de R$3.000,00, para ter direito a recorrer. Vocs no imaginam a raiva que d ter de tirar um dinheiro ajuntado para pagar a mentira de 
um mentiroso. Por isso no estou conseguindo dormir. Fico rolando com o Roberto Carlos, ouvindo o Slvio Caldas... 

Compreendem, agora, porque no se deve deixar a cozinheira cantar em servio? Porque pode ser que, ingressando em juzo, ela alegue que, alm de cozinhar, ela era 
'artista em residncia'. O Roberto Carlos fez isso comigo. O que  que vai impedir que sua cozinheira faa o mesmo com voc? Lembre-se de que as coisas mais inocentes 
podem, em juzo, ser invocadas como provas contra voc. (Correio Popular, Caderno C, 18/02/2001.)

DEIXEM A COZINHEIRA CANTAR

Seria uma indelicadeza de minha parte no responder a uma pessoa que a mim dirigiu a sua palavra. Assim, obrigado pela cortesia, me proponho a comentar o artigo 
Deixe a cozinheira cantar, do professor de direito Aderbal da Cunha Bergo. Esse artigo me deu grande alegria intelectual, pelas idias que me fez pensar, seja do 
ponto de vista filosfico, seja do ponto de vista psicanaltico. O Deixem a cozinheira cantar poderia ser o incio de uma fascinante srie de dilogos,  semelhana 
do Simpsio, de Plato, em que trocaramos idias sobre conceitos como 'justia', 'lei', 'legalidade', o que poderia contribuir para que as nossas idias ficassem 
cartesianamente e psicanaliticamente mais claras e distintas. Mas, infelizmente, tempus fugit, e no propsito de me dedicar a contar para as minhas netas estrias 
da minha infncia, tenho de andar rpido e ser sucinto. Assim, deixando de lado o que para mim  acidental, no referido artigo, permito-me fazer duas observaes 
sobre aquilo que, para mim,  o essencial. 

1.  comum, na retrica, especialmente quando movida por intenes polmicas, que se faa uso de um deslize lgico, s vezes por ignorncia, s vezes intencionalmente. 
Imaginem que eu tenha dito: 'Alguns cachorros so ferozes.' A algum diz: 'O Rubem Alves diz que os cachorros so ferozes.' Concluso: Rubem Alves no gosta de 
cachorros. Gosto sim. Gosto dos Dobberman, os mais obedientes que j tive. Dos Weimaraner, dos Sheep dog, dos Cocker, dos Perdigueiro. O erro lgico - sofisma - 
est em dar uma amplido universal a uma afirmao particular. O fato de eu declarar que 'alguns' cachorros so ferozes no permite a concluso de que afirmo que 
'todos' os cachorros so ferozes. Mas foi precisamente esse erro lgico de que se valeu o articulista argumentando contra mim. Disse ele, como comentrio ao que 
eu disse: 'Melhor que atacar os advogados  ouvi-los.' O que est implcito: Rubem Alves atacou os advogados. Os advogados? Quais? A palavra 'os', nesta afirmao, 
tem o sentido de 'todos'. Rubem Alves atacou todos os advogados. Mas onde  que ataquei os advogados, como classe, como totalidade? Em lugar algum. Mas a declarao 
do doutor Bergo implica que foi isso que eu fiz. Uma pessoa que no tenha lido o meu artigo chegar  concluso de que o Rubem Alves ataca os advogados. Acho a advocacia 
uma linda profisso. J pensei em ser advogado, por duas razes: pelo meu amor  justia e pelo meu prazer em pensar logicamente. A histria est cheia de exemplos 
de advogados maravilhosos, inclusive Abraham Lincoln. E tenho uma enorme quantidade de advogados amigos com quem converso e a quem ouo. O que eu disse, no meu artigo, 
 que a declarao do adesivo 'Sem advogado no se faz justia'  falsa. E  mesmo. 'Sem advogado no se faz justia'  uma declarao universal que no  sustentada 
pelas evidncias. Freqentemente  a prpria vida, sem o auxlio de ningum, que faz justia. H uma cantina em Poos de Caldas que se anuncia: 'Comer bem, s na 
cantina do Joo'. Isso no  verdade.  uma mentira contada com propsitos de atrair clientes. H muitos outros lugares em Poos de Caldas onde se come bem. Pois 
o tal adesivo 'Sem advogado no se faz justia'  uma verso arrevesada do anncio da cantina: 'Justia, s chamando um advogado...' Fiz uma sugesto alternativa, 
que julgo verdadeira: 'O advogado, querendo, pode ajudar a fazer justia.' O doutor Bergo, por basear seu argumento em descries formais dos advogados, tais como 
so definidos idealmente nos tratados de direito, ignora que essa entidade 'sem a qual no se faz justia' no  uma entidade real.  uma fico filosfica. E no 
se ofenda com isso. A matemtica se faz toda com fices. Um tringulo retngulo perfeito s existe em definies. Os tringulos retngulos reais so todos 'desvios' 
do ideal. Os homens de carne e osso no so iguais s definies ideais que deles fazem o pensamento. Os mdicos: so eles 'iguais' aos ideais contidos no juramento 
que fazem na sua formatura? Por acusar um, ou dois, ou dez mdicos de incompetentes e mercenrios, significa isso que estou 'falando mal dos mdicos'? De forma alguma. 
H uma quantidade enorme de mdicos que respeito, procuro, ouo e obedeo. O mesmo vale para os professores, os sacerdotes e pastores, os policiais, os psicanalistas... 
Nenhum profissional , por necessidade lgica, igual ao ideal perfeito da profisso. Essa identidade entre o advogado ideal, que luta pela justia, e o advogado 
real, no se d automaticamente. Ela no  intrnseca  condio de advogado. Ela pode acontecer? Pode. Mas, para que isso se d,  preciso um ato de vontade do 
advogado:  preciso que ele 'queira' lutar pela justia. Estou dizendo, assim, que a beleza e a nobreza da profisso do advogado pertence  esfera da tica. Ela 
no pertence ao campo das definies formais e filosficas, como sugere o doutor Bergo. O advogado, antes de ser um ser tcnico,  um ser tico. Foi por isso que 
sugeri que o adesivo 'Sem advogado no se faz justia', a meu ver falso e enganoso, fosse substitudo pelo adesivo 'O advogado, querendo, pode ajudar a fazer justia.' 
Fao, ento, uma outra sugesto: um adesivo que diga: 'Sou advogado. Desejo lutar pela justia.' Isso seria bonito e inspirador! 

2. A outra questo que considero essencial se encontra num curtssimo pargrafo em que o doutor Bergo descreve os mecanismos dos julgamentos. Diz ele, como concluso: 
'E, no final, quando tudo estiver decidido, se ter feito justia, ainda que uma das partes sinta-se injustiada.' Concordo em que, ao final, a deciso ter sido 
'legal'. Como tal, ela obriga a parte condenada a cumprir a pena ou a pagar a indenizao. Jamais descumprirei o determinado pelo juiz. Sua sentena  legal, obrigatria. 
Mas eu no identifico 'justia' com 'legalidade'. Por isso sugeri que o nome Palcio da Justia fosse substitudo por Palcio da Legalidade. O doutor Bergo, entretanto, 
partindo de sua definio filosfica e formal do processo legal,  de opinio que a 'legalidade'  idntica  'justia': 'E, no final, quando tudo estiver decidido, 
se ter feito justia...' Confesso no conhecer nenhuma outra pessoa que sustente tal opinio. A histria est cheia de exemplos de julgamentos cujas sentenas, 
sendo legais, em nada infringindo os dispositivos formais e substantivos do processo, foram patentemente injustas. Os Negros norte-americanos sabiam que, num tribunal 
de brancos racistas, era praticamente impossvel que a sentena fosse justa. E isso porque os argumentos e decises, longe de serem processos puramente lgicos e 
substantivos, so determinados pelos preconceitos e fantasias de seres humanos reais, no ideais. Essa  a grande lio da psicanlise e da sociologia do conhecimento, 
disciplinas que poderiam, com proveito, ser includas nos currculos das Faculdades de Direito. Negros, nos Estados Unidos, foram julgados e legalmente condenados, 
morrendo legalmente na cadeira eltrica. O fato de que o processo foi legal de forma alguma vai retirar do meu sentimento tico a convico de que a legalidade foi 
injusta. A histria est to cheia de casos semelhantes que nem julgo necessrio argumentar. Mas no quero me furtar a um ltimo exemplo. Na histria, um dos mais 
clebres julgamentos foi o de Scrates. Scrates, como se sabe, foi um filsofo pacfico cuja vocao era fazer as pessoas pensar. Pois a elite ateniense resolveu 
livrar-se dele, legalmente. Uma pessoa que faz os cidados pensar , na melhor das hipteses, um tropeo para o interesse dos poderosos. Pois bem: Scrates foi julgado 
e legalmente condenado  morte. A pena que lhe foi imposta pelo magistrado foi: Scrates deveria matar-se, bebendo cicuta, um veneno. E foi o que aconteceu. Os ltimos 
momentos de Scrates, a cena do filsofo tranqilo bebendo cicuta, em obedincia  lei, recusando a possibilidade de fugir,  comovente. Suas ltimas palavras tm 
um tom quase cmico. Disse a um dos seus discpulos: 'Devemos um galo a Esculpio..' - referncia a um ato sacrificial que deveria ser feito, em homenagem ao deus 
mdico. Scrates morreu. Morreu legalmente. Morte, resultado de um julgamento e de uma sentena. Foi justa a morte de Scrates? No conheo nenhuma pessoa que tenha 
dito que a morte de Scrates foi justa, muito embora todos reconheam que foi legal. Scrates no se suicidou. Ele foi obrigado a se matar. E o fez obedecendo  
pena da lei. Assim, para mim,  um equvoco dizer que, ao final do processo, quando a sentena  dada e cumprida, 'se ter feito justia', como afirma o doutor Bergo. 
Partindo do seu prprio raciocnio eu concluo que, diante de Scrates morto, ele teria dito: 'A justia foi feita...' Essa concluso  logicamente necessria, a 
partir das premissas que governam o pensamento do ilustre professor de direito.

 minha esperana que eu no seja forado a voltar ao assunto. Isso no me d prazer. Quero, mesmo,  voltar a contar, para as minhas netas, como era o meu mundo, 
quando eu era criana... (Correio Popular, caderno C, 04/03/2001) 


 BRINCANDO QUE SE APRENDE

No meu tempo parte da alegria de brincar estava na alegria de construir o brinquedo. Fiz caminhezinhos, carros de rolem, caleidoscpios, periscpios, avies, canhes 
de bambu, corrupios, arcos e flechas, cataventos, instrumentos musicais, um telgrafo, telefones, um projetor de cinema com caixa de sapato e lente feita com lmpada 
cheia d'gua, pernas de pau, balanos, gangorras, matracas de caixas de fsforo, papagaios, artefatos detonadores de cabeas de pau de fsforo, estilingues.

Fazendo estilingues desenvolvi as virtudes necessrias  pesquisa: s se conseguia uma forquilha perfeita de jaboticabeira depois de longa pesquisa. Pesquisava forquilhas 
- as mesmas que inspiraram Salvador Dali - exercendo minhas funes de controle de qualidade - arte que alguns anunciam como nova mas que existiu desde a criao 
do mundo: Deus ia fazendo, testando e dizendo, alegre, que tinha ficado muito bom. Eu ia comparando a infinidade de ganchos que se encontravam nas jaboticabeiras 
com o gancho ideal, perfeito, simtrico, que existia em minha cabea. Pois controle de qualidade  isso: comparar o produto real com o modelo ideal. As crianas 
j nascem sabendo o essencial. Na escola, esquecem. 

Os grandes, morrendo de inveja mas sem coragem para brincar, brincavam fazendo brinquedos. As mes faziam bonecas de pano, arte maravilhosa hoje s cultivada por 
poucas artistas. As mes modernas so de outro tipo, sempre muito ocupadas, correndo pr l e pr c, motoristas, levando as crianas para aula de bal, aula de 
jud, aula de ingls, aula de equitao, aula de computao - no lhes sobra tempo para fazer brinquedos para os filhos. ( Ser que as crianas de hoje sabem que 
os brinquedos podem ser fabricados por eles?). Hoje, quando a menina quer boneca, a me no faz a boneca: compra uma boneca pronta que faz xixi, engatinha, chora, 
fala quando a gente aperta um boto, e  logo esquecida no armrio dos brinquedos. Pobres brinquedos prontos! Vindo j prontos, eles nos roubam a alegria de faz-los. 
Brinquedo que se faz  arte, tem a cara da gente. Brinquedo pronto no tem a cara de ningum. So todos iguais. S servem para o trfico de inveja que move pais 
e filhos, como esse tal bichinho virtual...

Fiquei com vontade de fazer um sinuquinha. Naquele tempo no havia para se comprar. Mesmo que houvesse no adiantava: a gente era pobre. Como tudo o que vale a pena 
nesse mundo, a fabricao comeava com um ato intelectual: pensamento: quem deseja pensa. O pensamento nasce no desejo. Era preciso, antes de construir o sinuquinha 
de verdade, construir o sinuquinha de mentira, na cabea. Essa  a funo da imaginao. Antes de Piaget eu j sabia os essenciais do construtivismo: meu conhecimento 
comeava com uma construo mental do objeto. Diga-se, de passagem, que o homem vem praticando o construtivismo desde o perodo da pedra lascada. Piaget no descobriu 
nada: ele s descreveu aquilo que os homens (e mesmo alguns animais) sempre souberam.

Era preciso uma tboa larga e plana, flanela, madeiras e borracha de pneu de bicicleta para as tabelas; as caapas seriam feitas de meias velhas. As bolas, de gude. 
Os tacos, cabos de vassoura. Preparei-me para fabricar o objeto dos meus sonhos. Meu pai, que era viajante, estava em casa naquele fim de semana. Ofereceu-se para 
me ajudar, contra a minha vontade. Valendo-se de sua autoridade, tomou a iniciativa. Pegou do serrote e ps-se a serrar os cantos da tbua, no lugar das caapas. 
Meu pai operou com uma lgica simples: se um buraquinho pequeno, que mal d para passar uma bolinha, d um x de prazer a uma criana, um buraco dez vezes maior 
dar  criana dez vezes mais prazer. E assim ps-se a serrar buracos enormes nos ngulos da tbua. Eu protestava, desesperado:  - Pai, no faz isso no! Inutilmente. 
Confiante no seu saber ele levou a sua lgica at as ltimas consequncias. Fez o sinuquinha. S que nunca joguei uma nica partida com os meus amigos. Por uma simples 
razo: quem comeava o jogo encaapava todas as bolinhas. Com buracos daquele tamanho, no tinha graa. Era fcil demais. A facilidade destruiu a alegria do brinquedo. 
A alegria de um brinquedo est, precisamente, na sua dificuldade, isto , no desafio que ele apresenta.

Deliciei-me com uma estoria do Pato Donald. O professor Pardal, cientista, resolveu dar como presente de aniversrio ao Huguinho, Zezinho e Luizinho, brinquedos 
perfeitos. Fabricou uma pipa que voava sempre, mesmo sem vento. Um pio que rodava sempre, mesmo que fosse lanado do jeito errado. E um taco de beisebol que sempre 
acertava na bola, mesmo que o jogador no estivesse olhando para ela. Mas a alegria foi de curta durao. Que graa h em se empinar uma pipa, se no existe a luta 
com o vento? Que graa h em fazer rodar um pio se qualquer pessoa, mesmo uma que nunca tenha visto um pio, o faz rodar? Que graa h em ter um taco que joga sozinho? 
Os brinquedos perfeitos foram logo para o monte lixo e os meninos voltaram aos desafios e alegrias dos brinquedos antigos.

Todo brinquedo bom apresenta um desafio. A gente olha para ele e ele nos convida para medir foras. Aconteceu comigo, faz pouco tempo: abri uma gaveta e um pio 
que estava l, largado, fazia tempo, me desafiou:  - Veja se voc pode comigo! Foi o incio de um longo processo de medio de foras, no qual fui derrotado muitas 
vezes.  preciso que haja a possibilidade de ser derrotado pelo brinquedo para que haja desafio e alegria. A alegria vem quando a gente ganha. No brinquedo a gente 
exercita o que Nietzsche denominou vontade de poder.

Brinquedo  qualquer desafio que a gente aceita pelo simples prazer do desafio - sem nenhuma utilidade. So muitos os desafios. Alguns so desafios que tem a ver 
com a habilidade e a fora fsica: salto com vara, encaapar a bola de sinuca; enfiar o pino do bilboqu no buraco da bola de madeira. Outros tem a ver com nossa 
capacidade para resolver problemas lgicos, como o xadrez, a dama, a quina. J os quebra-cabeas so desafios  nossa pacincia e  nossa capacidade de reconhecer 
padres.

 brincando que a gente se educa e aprende. Cada professor deve ser um magister ludi como no livro do Hermann Hesse. Alguns, ao ouvir isso, me acusam de querer 
tornar a educao uma coisa fcil. Essas so pessoas que nunca brincaram e no sabem o que  o brinquedo. Quem brinca sabe que a alegria se encontra precisamente 
no desafio e na dificuldade. Letras, palavras, nmeros, formas, bichos, plantas, objetos (ah! o fascnio dos objetos!), estrelas, rios, mares, mquinas, ferramentas, 
comidas, msicas - todos so desafios que olham para ns e nos dizem: Veja se voc pode comigo! Professor bom no  aquele que d uma aula perfeita, explicando 
a matria. Professor bom  aquele que transforma a matria em brinquedo e seduz o aluno a brincar. Depois de seduzido o aluno, no h quem o segure.

O BARBAZUL

Vivia num pas, no me recordo se prximo ou distante, um homem que todos conheciam pelo apelido Barbazul. Era um homem de rara beleza. Do seu rosto o que mais impressionava 
eram os olhos, de um azul profundo, dos quais saa uma luz azul que envolvia sua barba numa aura azulada, razo do seu apelido. 

Barbazul era um homem rico. Vivia num castelo. Numa das extremidades do seu castelo havia uma torre de sete patamares, trancados a sete chaves. Era uma torre misteriosa, 
interditada ao pblico, e sobre o que havia nela circulavam as estrias mais escabrosas. 

Barbazul era um homem solitrio. Nunca se casara. To bonito, to rico: por que nunca se casara? - era a pergunta que todos faziam. 

Muitas eram as mulheres, lindas mulheres, que por ele se apaixonavam. E Barbazul no se esquivava. Aceitava as sugestes contidas nos sorrisos... A princpio era 
um simples namorico, os dois passeando pelos bosques... Mas sempre chegava o momento quando a jovem lhe dizia: 

"Gostaria de me casar com voc..." 

"Casamento  coisa muito sria", dizia Barbazul. "S devem se casar pessoas que se conhecem profundamente. E s existe uma forma de as pessoas se conhecerem:  preciso 
que vivam juntas. Voc viveria comigo, no meu castelo, mesmo sem nos casarmos? Eu no meu quarto, voc no seu... At nos conhecermos?" 

E assim acontecia. A jovem ia viver com Barbazul no seu castelo, cada um no seu quarto. Comiam juntos, passeavam, conversavam... Barbazul era um homem extremamente 
fino e delicado. Mas sempre acontecia a mesma coisa: depois de um ms assim vivendo Barbazul se dirigia  jovem e lhe dizia: "Vou fazer uma viagem de sete dias. 
Nesses dias voc tem permisso para visitar a 'Torre dos Sete Patamares'. Aqui esto as sete chaves... Durante a sua visita voc dever segurar a chave do patamar 
que voc estar visitando na sua mo esquerda, fechada com bastante fora. Isso  muito importante. Porque as chaves tm propriedades mgicas..." 

Com essas palavras ele partia e a jovem ficava s, com as sete chaves na mo, e a Torre dos Sete Patamares a ser visitada... 

Transcorridos sete dias Barbazul regressava e aps o abrao do reencontro perguntava: 
"Visitou a Torre dos Sete Patamares?" 
"Sim. Visitei todos os patamares...", a jovem respondia alegremente. 
"Voc gostou?" 
"Eu os achei maravilhosos!" 
Barbazul insistia: 
"Todos eles?" 
"Sim, todos eles..." 
"Ento", conclua com um sorriso, " hora de voc me devolver as sete chaves, aquelas que voc apertou na mo esquerda, o lado do corao. Como eu lhe disse, elas 
so mgicas... Elas vo me contar o que voc sentiu..." 

Assentava-se ento numa poltrona, fechava os olhos, e segurava as chaves na sua mo esquerda, uma de cada vez. A magia das chaves estava nisso: elas o faziam sentir, 
ao segur-las, o mesmo que a jovem havia sentido, na sua visita aos sete patamares da torre. 

S de olhar para o seu rosto era possvel perceber os sentimentos guardados na chave que segurava. Eram sentimentos os mais variados, todos os que existem no leque 
que vai da alegria at a tristeza. As jovens sempre se emocionavam ao visitar os patamares da torre... Com uma exceo. Ao segurar a stima chave o sorriso de Barbazul 
desaparecia e, no seu lugar, aparecia enfado e tdio. Era isso que a jovem havia sentido no stimo patamar: enfado e tdio. 

"No", dizia ele  jovem. "No poderemos nos casar. Comigo voc ser para sempre infeliz. O que h de mais fundo em mim, para voc  tdio e enfado." 

E sem outras explicaes levava a jovem  casa de seus pais, no sem antes ench-la com os presentes que trouxera da viagem. 

E era sempre assim. 
Foi ento que aconteceu... 
Era o entardecer, o sol se pondo no horizonte. O mar estava maravilhosamente azul. Barbazul caminhava na praia, como sempre fazia, ps descalos... Viu, ao longe, 
uma jovem que caminhava sozinha, molhando os seus ps na espuma do mar. Era uma cena linda, digna de uma tela de Monet: uma jovem sozinha, vestes brancas na areia 
branca, contra o azul do cu e o azul do mar... Ela caminhava na sua direo, distrada. Mas parecia no v-lo, to absorta se encontrava. Ela se assustou quando 
o viu... 
"Eu a assustei?", ele perguntou. 
"Eu estava distrada", ela disse, se desculpando. 
"Qual  o seu nome?" 
"O meu nome? Stella Maris..." 
"Chamam-me de Barbazul, por causa da cor da minha barba..." 
Eles riram. 
Ela no era bonita. Mas a cena era bonita, bonitos eram seus olhos, bonita era a sua voz... 

Barbazul ouviu msicas no seu corao. E foi assim que caminharam juntos de ps descalos ao sol poente, caminhadas que vieram a se repetir a cada novo dia. 

At que, numa dessas caminhadas, Barbazul falou o que nunca falara. 
"Voc no quer morar comigo no meu castelo?" 
"Voc est pedindo que eu me case com voc?", ela perguntou. 
"No. Estou pedindo que voc venha morar comigo. Depois de morar comigo, quem sabe, descobriremos que as nossas solides podero caminhar juntas pela vida..." 

E assim, ela foi morar no castelo do Barbazul. E aconteceu exatamente como acontecia com todas as outras: passado um tempo Barbazul anunciou uma viagem de sete dias 
e lhe deu as sete chaves com a mesma recomendao. E partiu... 

No primeiro dia Stella Maris tomou a primeira chave, abriu a porta do primeiro patamar e segurou firmemente a chave na sua mo. Era um enorme salo de festas cheio 
de gente. A orquestra tocava valsas alegres e as pessoas danavam e riam. Parecia que todos estavam leves e felizes. Stella Maris danou tambm e se sentiu leve 
e feliz. 

No segundo dia Stella Maris tomou a segunda chave, abriu a porta do segundo patamar e segurou firmemente a chave na sua mo. Era um salo de banquetes onde se serviam 
as mais deliciosas comidas e se bebiam os vinhos mais caros. Muitos eram os comensais, mas no tantos quantos havia no salo de festas. Stella Maris juntou-se a 
eles, assentou-se, comeu, bebeu e se alegrou. 

No terceiro dia Stella Maris tomou a terceira chave, abriu a porta do terceiro patamar e segurou a chave firmemente na sua mo. Era um parque cheio de crianas que 
brincavam dos mais variados brinquedos: balanos, gangorras, pipas, pies, cabo-de-guerra, pau de sebo, perna de pau, pula-corda, amarelinha, bolinhas de gude, bonecas, 
casinha, cabra-cega, escorregador, sela... Todas riam. Todas estavam felizes. Stella Maris se sentiu como criana e se juntou com elas, a brincar. 

No quarto dia Stella Maris tomou a quarta chave, abriu a porta do quarto patamar e segurou a chave firmemente em sua mo. Era uma biblioteca com prateleiras cheias 
de livros. Havia livros de todos os tipos: livros de cincia, de histria, de literatura, de poesia, de filosofia, de humor, de mistrio, de crime, de fico cientfica, 
de arte, de culinria, de sexo, de religio... Os rostos daqueles que, assentados s mesas, liam livros em silncio, revelavam emoes que os livros continham: concentrao, 
excitao, curiosidade, alegria, tristeza, riso... Stella Maris escolheu um livro de arte, pinturas de Monet. Vendo as ninfias de Monet ela se sentiu leve e difana 
e desejou ver uma ninfia num lago... 

No quinto dia Stella Maris tomou a quinta chave, abriu a porta do quinto patamar e segurou a chave firmemente na sua mo. Era uma catedral gtica. A luz do sol se 
filtrava atravs dos vitrais coloridos e no silncio do espao vazio se ouvia o Requiem, de Faur. E no eram muitas as pessoas que l estavam. Havia rostos de splica, 
rostos de sofrimento, rostos de paz. Stella Maris foi envolvida pelo silncio, pelas cores dos vitrais, pela msica... E a sua alma orou, chorou, agradeceu e sentiu 
paz. 

No sexto dia Stella Maris tomou a sexta chave, abriu a porta do sexto patamar e segurou a chave firmemente na sua mo. Era um jardim japons. Ouvia-se o barulho 
da gua que caa na fonte onde nadavam carpas coloridas em meio s ninfias. As cerejeiras estavam floridas. Um velho hai-kai repentinamente floresceu: "Cerejeiras 
ao anoitecer - Hoje tambm j  outrora..." (Issa). Poucas, muito poucas eram as pessoas que andavam pelo jardim. Stella Maris se assentou sob uma cerejeira florida 
e o seu pensamento parou. No era necessrio pensar. A beleza era tanta que ocupava todo o lugar onde moram os pensamentos. Experimentou o paraso... 

No stimo dia Stella Maris tomou a stima chave, abriu a porta do stimo patamar e segurou a chave firmemente na sua mo. Era uma ampla sala vazia, na penumbra. 
Ningum, somente ela. O silncio era absoluto. A solido era absoluta. Dois mveis apenas, duas cadeiras. A que se encontrava no centro da sala era iluminada pela 
luz das velas de um candelabro que pendia do teto. Stella Maris assentou-se na cadeira que estava num canto, nas sombras. 

Foi ento que um homem entrou por uma porta nos fundos. Vinha abraado com um violoncelo. Sem dizer uma nica palavra ele se assentou, arrumou o violoncelo entre 
as pernas, tomou o arco, concentrou-se e ps-se a tocar. A melodia, em meio ao silncio absoluto, sem nenhum rudo ou fala que a profanasse, era de tal pureza e 
pungncia que lgrimas comearam a escorrer pelo rosto de Stella Maris. 

Sentiu que o seu corpo estava possudo pela beleza. Era como se ele, o seu corpo, fosse o instrumento de onde saa a msica. Sim, ela j a ouvira: a Sute n. 1, 
em sol maior para violoncelo, de Bach. Terminada a execuo, o artista se levantou e se retirou sem nada dizer. Stella Maris permaneceu assentada, em silncio; no 
queria que aquele momento terminasse. Queria que ele se prolongasse, para sempre... 

* * * 

"Ento", disse Barbazul sorridente, "visitou a Torre dos Sete Patamares?" 
"Visitei", respondeu Stella Maris, entregando-lhe as chaves. Barbazul pediu para ficar sozinho e reclinando com os olhos fechados foi apertando as chaves, sucessivamente, 
com a mo esquerda, a mo do corao. No seu rosto se estampavam as emoes que Stella Maris havia tido em cada um dos patamares: leveza, alegria, riso, beleza, 
tristeza - at chegar ao ltimo patamar, aquele que, ao segurar a sua chave, sentira o tdio e o enfado que as outras mulheres haviam sentido. O que  que Stella 
Maris teria sentido? 

E, de repente, sentiu lgrimas rolando pelo seu rosto, as mesmas lgrimas que haviam rolado pelo rosto de Stella Maris. Era como se o seu corpo estivesse possudo 
pela beleza e fosse o instrumento do qual a msica saa... 

Barbazul sorriu. Permaneceu assentado, em silncio; no queria que aquele momento terminasse. Queria que ele se prolongasse, para sempre... 

* * * 

"Stella Maris, voc quer se casar comigo", ele perguntou. 

"Casar? Mas eu pensei que..." 

"Sim, casar. Voc compreendeu o que  a Torre dos Sete Patamares?  a minha alma. Cada patamar  um pedao de mim. L se encontram os prazeres e alegrias humanos. 
Homens, mulheres e crianas se renem para compartilhar esses prazeres e alegrias. Mas, ao final da torre, h um lugar de solido absoluta onde s entra uma pessoa 
de cada vez, eu permitindo. Aquele lugar  o fundo do meu corao. Quem no amar aquele lugar jamais me amar. Poder at ser um companheiro de danas, de jantares, 
de discusses literrias, de brinquedos... Muitos podem ser bons companheiros. Mas, para me amar,  preciso amar a minha solido. E aquela msica  a forma sonora 
da minha solido. Voc a achou bela. Voc permitiu que ela possusse o seu corpo. E, por isso, eu a amo... Nossas solides so amigas... Voc quer se casar comigo?" 

- Estrias so parbolas. No podem ser tomadas literalmente. Eu usei uma figura masculina como figura central - o Barbazul - porque estou reescrevendo e transformando 
a velhssima estria do Barba Azul, cheia de violncias e assassinatos. Mas seria possvel escrever uma estria com a mesma trama tendo uma mulher como a figura 
central. 

- "O primeiro homem  o primeiro visionrio de espritos. A ele tudo aparece como esprito. O que so as crianas, seno primeiros homens? O fresco olhar da criana 
 mais transcendente que o pressentimento do mais resolutos dos visionrios." (Novalis, Plen, 163). 

- "Eu acreditava em sacis. At que um dia um deles mentiu para mim..." 

"Todo mineiro  caboclo. Caso contrrio  louco." 
"Sou mineiro, tenho brio. No confirmo nem desminto. Desconfio". (Gildes Bezerra) 

(Correio Popular, 19 e 26/05/2002)
Rubem Alves





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Silvana Poll

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